Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A descoberta de si

(Imagem: J. Ribeiro) xx

A descoberta de si

Por Jocenilson Ribeiro

Ao amigo Nagai

xxx

O homem,

a cozinha,

a escola,

a palavra.

xxx xxx

O homem da cozinha

O homem na escola

O homem que cozinha na escola

O homem na escola tentando, cozinhando

O homem tenta decifrar a palavra

O homem, a fome, o saber na palavra

O homem tenta unir o saber ao sabor da palavra.

xxx

O homem e o fê

O fê e o ê

O fê, o ê e o i

O homem e o fei

O homem e o ji

O homem une o ji ao ó

O homem tenta unir o fei e o jó

O homem, feijó

O homem pega o a e o dá

xxx

O homem,

um susto:

o mundo.

xxx

21 de novembro de 2010

jr

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Águas entre os dedos...

Ainda sentia a água escorrendo entre os dedos. Notei a força do vento batendo em meu rosto enquanto o sol invadia meu quarto por entre as frestas da persiana. Um abraço cruzava meu corpo descamisado, senti uma mão encontrar com meus dedos como um cinto de segurança. As chaves trancavam as portas do prédio, e o carro esperava por mim ali mesmo no meio do asfalto. Andante, eu vi um farol vermelho pedir-me pra que não o esperasse, e os papeis caiam da pasta de uma velhinha de olhos assustados, ainda vi que usava cabelo Chanel quando sofria o impacto. O som da aeronave rompia o silêncio do céu azul-verde, e a asa do voo da águia rompia as nuvens em flocos de creme-avelã. A noite brincava com a lua de esconde-esconde. E eu? Estava ali bem debaixo do chuveiro frio cantando Velha infância tribalisticamente. Calcei uma meia preta e outra escura, pouco importava. Tomei um copo de leite morno com um fio de mel. Não estava só: cobri-me com um lençol de algodão e acordei nesse instante sonhando que alguém estava aqui pra lavar minhas mãos.

segunda-feira, 8 de março de 2010

"Mulher é desdobrável." - Eu sei.

xxx

Dedico este poema à minha mãe, Bernardete

- não só neste dia de todas as mulheres!

xxxxxxx Com licença poética

Xxx

Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

xxx

Fonte: Imagem
jr

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Ece pêndulo bifourcoault

eça.noite.de.queiroz.querosene.vi.basílio.vi.a.vida.pasando.

com.luísa.e.o.primo.tive.insônia.com.a.luísa.na.cabeça.toda.

hora.passa.hora.horas.passam.madrugada.vem.insônia.na.há.

sônia.só.há.vento.ventania.agora.agora.agora.agorinha.agonia.

venta.muito.muito.chove.a.noite.toda.a.noite.esfria.e.vêm.soando.

no.escada.lá.de.fora.alguma.fala.a.altas.horas.não.é.gente.é.maresia.

que.ameaça.trovejar.logo.prego.logo.sinto.me.na.sonolência.de.um.

amanhecer.de.sono.relógio.t.i.c.t.a.c.tictac.tictac.titanic.titanic.titanic.

na.parede.sinto.sede.vejo.o.quadro.titanic.vi.o.jorge.vi.a.sônia.com.

luísa.e.meu.primo.se.afunda.se.complica.nao.se.explica.na.parede.

de.meu.dia.amanhece.piano.piano.piano.na.pia.gota.d’água.piano.

pinto.pintura.pianinho.baixo.serrote.de.grilo.cri.cri.cri.cri.passarinho.

na.gaiola.do.vizinho.assovia.eu.não.canto.eu.não.canto.canto.amor.ai.

lovi.u.amor.ai.lovi.u.eu.no.canto.dessa.cama.tão.vazia.na.cantina.vem.

a.sônia.vem.aqui.joga.pedra.na.geni.joga.pedra.na.lauisa.ela.dá.pra.

meu.primo.não.atira.lá.na.sônia.porque.ela.nao.tem.culpa.maldita.

geni.ela.é.de.toda.hora.passa.o.tempo.vá.embora.sinto.sono.abro.

o.olho.vejo.as.horas.meu.relógio.entra.o.dia.na.janela.dão.bom.

dia.não.é.ela.não.é.ela.eu.vejo.tudo.embaçado.removo.o.controle.

vem.a.luta.a.labuta.dia.a.dia.tempo.ruge.na.parede.de.meu.dia.

tudo.vem.tudo.vai.vai.luisa.a.eça.hora.vai.basílio.tudo.passa.

e.avida.continua.e.a.vida.se.esvai.como.um.copo.de.sorvete.

que.derrete.e.se.d.e.s.faz

jr Ver Imagem

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Temporal das horas



Temporal das horas



Viver é pensar no tempo que me cerca sem ter que pensar na hora certa de partir, o tempo são as gotas de chuvas sobre mim e nunca parei um minuto para contá-las, não penso nas horas que se vão, mas relembro-me de cada segundo que me empurraram para a escuridão, a vida não mais é forte, ao final dos tempos a penumbra se encarrega de me levar à luz dos desencantos, e eu - este deslavado - mais do que levado, sou possuído pelos escombros das horas, já não nasci e meu fim está logo ali atrás das vozes, já não vivi e meu fim caminha em outras direções, já não me vale esconder de mim outros e tantos nós de minha cabeça porque as horas hão de doá-la ao tempo, pensar,pensar, pensar, pra que pensar se não mais há tempo, os anos já não me restam, os dias cansaram-se de mim, as horas estão aqui em minha defesa aguardando os vermes consumirem os minutos que me restam com estas palavras.

jr

sábado, 7 de julho de 2007

Dumont do Mundo




Dumont do Mundo


Se eu fosse Drummond não teria sido um Drummond,
Não cantaria para este mundo caduco
Também não regaria a Rosa do Povo com o sentimento do mundo
As pétalas não resistem às lagrimas acidas, fúnebres, vulcânicas.

Se eu fosse Drummond seria somente mineiro,
Seria um simples brasileiro dentre os tantos brasileiros
Que em tarde de janeiro jamais vão a Pasárgada
Pra ver a vida passar, pra ver a banda tocar no mar do Leblon.

Se eu fosse Drummond não seria poeta
Teria sido um jogador, um bom ator, um atleta.
E faria gol com as pedras que encontro em meu caminho,
Porque no meu caminho não há somente uma pedra,
Mas um milhão de pedras no meio do meu caminho.

Se eu fosse Drummond não beijaria a América
Não cantaria o amor a América,
Também não lhe daria flores, não cantaria louvores.
Porque América o traiu com Raimundo e o deixou
Vagando no mundo, ouvindo o Corvo a perguntá-lo:
“José para onde, para onde José?”

Ah, se eu fosse o Gandhi Andrade apagaria a tocha de América,
Beijaria a Rosa de Hiroshima, e da outra menina.
Pregaria até nos confins do mundo a paz de Mahatma,
Mas no décimo dia de setembro subiria aos céus de dezembro
Porque na seguinte madrugada Dumont repousaria
As cinzas das gêmeas por sobre o mar de Manhattan.



jr