domingo, 22 de fevereiro de 2009

MIMO 1

Depois de 15 dias sem escrever sequer uma palavra nesse blog, esta semana não pode começar no branco. Diante disso, farei três singelas homenagens como forma de pagamento de minhas dívidas comigo mesmo nestes últimos dias na Bahia. É possível? Claro que é! Afinal, se há alguém que me deve muito, esse alguém sou eu mesmo. Aos poucos vou me pagando.

O tema dessa homenagem é Educação, e a cada ser homenageado vou atribuir a marca MIME. O nome tem origem no conceito platônico Mimesis, que, grosso modo, significa representação da natureza mediante fazer artístico. Mas aqui há duas acepções básicas para tal palavra: mimo e sigla (Modelo Inteligente para o Melhor da Educação).

O primeiro MIME é Girlene Lima Portela (dispensam-se aqui biografia e currículo). Um ser humano que, antes de saber que iria ser grande, simplesmente pensou em crescer tendo como cajado a educação que move indivíduos. Antes de ser doutora foi senhora, antes de ser mãe, foi filha, antes de ser professora foi estudante, antes de ser acadêmica foi e continua sendo uma mulher simples, cujo coração pulsa forte e nos contagia alegremente.

Não precisou muito ir além - e ao longe - pra entender que educação se faz com afeto, dedicação, compromisso e, antes de tudo, vivência. Sim! Ela viveu e acompanhou quase todos os níveis de educação linguística de um indivíduo, no Brasil e exterior, isto é, das séries iniciais à pós-graduação, e, antes mesmo de fazer carreira no magistério, já havia lecionado para alunos residentes na zona rural.

Pensar na experiência da doutora tão comprometida com sua função associando sua prática a calos e rugas como eufemismos para idade é incorrer-se num profundo engano. Pró Girlene, como amigos, fãs e alunos-discípulo acostumam a chamá-la, pode ser confundida nos corredores da universidade como mais uma aluna, quanto ao nível de jovialidade e elegância. Não há calos nem rugas, há apenas vontade de ensinar que seus alunos se comprometam com uma educação capaz de trazer luz às pessoas, mesmo àquelas que já nem acreditam que existem lâmpadas por perto.

Quer conhecer um pouco do projeto de Dra. Girlene Portela? Então acesse o site numa nova aba e continue no Palatus.

jr
Fonte: Imagens: fotos do arquivo pessoal e logomarca disponível no site oficial.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Und Wenn ein Lied

A canção Se hoje me fizessem uma pergunta simples em alemão como Wie spät ist es?, provavelmente gelaria antes de buscar uma fajuta tradução para o inglês, já que tal questão traz uma estrutura linguística parecida com a língua de William Shakespeare. Em português, nem em sonho! Bem, mas só pensaria em What time is it? quando o interlocutor já nem mais se lembrasse de sua pergunta. Percebe-se então minha total ignorância acerca da língua de Johann von Goethe e Karl Marx.

Para quem acredita que a pronúncia do alemão causa estranhamentos e um certo impacto auditivo dado o grau de violência sonora aos ouvidos, sugiro ouvir músicas interpretadas por Kurt Xavier Naidoo. Além de trazerem uma melodia leve, sentimental e romântica, provocam em nós (pelo menos sinto isso) um misto de diferentes sensações. Às vezes, sinto-me feliz, amante, vivo; outras, carente, saudoso, solitário.

Mas, a música Und Wenn ein Lied (E se uma canção), 2004 - que muito lembra um hino religioso – tem algo de especial, inexplicável! Sua melodia (não a letra) deixa implícito um convite irrecusável a qualquer casal, que se encontra numa sala ampla regada a luz turva, a viajar numa dança a passos lentos. Homens ou mulheres, lá vai uma dica: pés firmes para não pisar o outro e mãos atentas aos botões da roupa do parceiro(a).

O intérprete

Xavier Naidoo, de ascendência indiana, nasceu em 1971 em Mannheim, Alemanha. O cantor e compositor interpreta em alemão e, vez ou outra, em inglês, e traz em algumas de suas canções letras que manifestam teor religioso-cristão. Ele tem apresentado trabalhos em estilos bem diferentes como R&B, pop e hip hop. Xavier ganhou bastante popularidade a partir de 2000 quando fez parte de grupos como Söhne Mannheims, Irmãos e os Detentores. Mas foi com a canção Sie sieht mich nicht - apresentada na versão alemã da trilha sonora do filme para Asterix – que passou a ser mais conhecido mundialmente.

O vídeo

Como acostumo a fazer uma vez por mês num final de semana, fica como sugestão o clipe da música que nos serviu de título para este texto. Assistam-lhe e palateiem se assim o desejarem. Espero que gostem!

jr
Fonte: Clipe, Letra/tradução, Imagem.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Mudanças doem, às vezes perturbam

(Foto: Joca Moreira - pôr do sol in Morro de São Paulo,BA,Brasil)
Mudanças, mundanças, mutanças... Sempre nos perturbam. Os jovens lutam por mudanças: do comportamento conservador dos pais às atitudes repressoras do sistema que rege a sociedade. Os velhos esperam por mudança: do valor da aposentadoria que mal dá pra pagar os exames periódicos aos planos de saúdes que cada vez mais lhes desejam uma “passagem dessa pra melhor.” As mulheres sonham com homens mais atenciosos enquanto eles, talvez, as desejem compreensivas e menos intolerantes. E eu? Como encaro as mudanças?Penso que mudar é normal e até é bom que haja, senão a vida para. Este mês será de mudança. Tudo agora é pensado em torno dela: mudança de lugar, de cidade, de estado, de hábitos, de horário, alimentação; vizinhança, transporte, trabalho (que trabalho?); mudança de nível, pensamento, ideias (sem agudo), de ortografia, leituras; mudança de amigos, celular, casa, rua etc. enfim, tenho um mês pra acostumar meu cérebro às novas mudanças que estão por vir. Ah, e como se não bastasse, esse mês só tem 28 dias, nem mais nem menos. Então para me adaptar às novas rotinas a partir de março, melhor é começar pelo Palatus agora. Vocês já devem ter notado, amado leitor (sim, eu sei, isso é do Bruxo), que fiz uma bagunçada por aqui. Comecei pelo nome menos latinizado: Palatus divorciou-se do Colirius. Depois, uma rebocada na parede ali, um tapa buraco desse lado, uma fotografia na sala de entrada, fotos espalhadas lá no fundo...e o Palatus vai ganhando mais vida. Ainda não estou satisfeito, nunca estou, e isso é meu maior problema, mas tenho medo de arriscar uma mudança. Isso mesmo! Tenho medo de mudar sem pensar mil vezes nas consequências. Já tentei mudar várias vezes o design deste blog, esse é outro desafio, mas na hora de salvar, eu páh cancelo, e tudo volta ao que era.
Oh amigos, mudo ou não mudo o design de nosso Palatus? Eis o meu conflito. Deem-me uma luz!
jr

sábado, 31 de janeiro de 2009

Sim

E tudo fica mais fácil quando se ouve um Sim. Você vai notar que a vida abre caminhos e as flores molduram as margens e perfumam o ar. Os rios perenizam-se na sutileza das ondas, que giram em redemoinhos. Depois de um Sim, você não terá pressa pra chegar mesmo sabendo que o temporal é iminente. Deixará que a água da chuva lave os cabelos e ajuste a roupa em sua pele. O sim renovará o sabor, e tudo que era deveras amargo se transpõe do fel ao mel. Você terá – na leveza das folhas que caem no outono e na sutileza da brisa das manhãs de inverno – o bailado da copa das árvores entregue ao vento. Então entenderá o mistério do jogo entre sombra e luz com os quais o sol brinca nas tardes de verão. Sim! Você vai perceber que tudo isso sempre esteve ali diante dos olhos, e o Sim não o trouxe até você, permitiu apenas que você o alcançasse na simplicidade ingênua do cotidiano.
Por Nilson Ribeiro & Rogério Godinho

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Una experiencia case religiosa, pero no tanto

Narrativas de viagens, por mais ficcional que sejam, sempre nos fazem refletir muito, graças ao potencial do texto (bem escrito) em nos proporcionar uma magnífica contemplação quando não uma tristeza além da conta. A partir desse pensar e, mais ainda, depois da leitura da crônica abaixo ,escrita por um amigo, pude perceber, após minhas reflexões, que somos mais atentos ao que nos é distante do que aquilo que está embaixo dos nossos olhos. Talvez seja porque não temos a coragem em assumir nossas drásticas diferenças e procurar diminuí-las. A crônica muito nos faz pensar sobre as semelhanças entre o que se vê nos Brasil e o que se vive nos países hermanos.
Em sua viagem a América Espanhola, estaria André Vilas Boas vendo fantasmas de incas e maias ou fazendo ficção e arte, cuja proposta maior é nos fazer refletir acerca de uma realidade nada distante da nossa? Creo yo que las dos cosas. Mira las palabras del chico brasileño y díme lo que te pareces.
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Un mundo diferente e igual
Por André Santos Vilas Boas*
Conocer a los pueblos para entender a mi propia condición de brasileño. Puede ser que ese no sea el principal motivo de mi viaje pero indirectamente forma parte de él. Mientras conozco un mundo diferente mi condición humana se amplía y éste, quizás, sea el secreto que me mueve hacia tierras latinoamericanas. Al pasar por provincias, ciudades, calles se me va poniendo claro lo que nos une con el nombre de latinoamericanos. Países ricos y, a la vez, paupérrimos caracterizan a este continente que insiste en manejarse con modelos de desarrollo que tienen como base mantener bienestar a unos pocos escogidos y miseria a la gran mayoría. Así, niños trabajan como se fueran adultos, mayores pordioseros en todas las plazas y esquinas, la violencia invadiendo todos los rincones y, en cambio, majestuosas casas y carros de lujo, por donde he pasado, me hicieron notar los grandes rectos que todavía tenemos por delante. Para mí, conocer otro país va más allá de visitar sitios turísticos. Estoy seguro de que mi mirada, en estos últimos días, vuela rumbo a los altos andes con el propósito de mantener el contacto con la lengua castellana, de conocer a la gente propia del país y, también, de registrar un mundo real con sus inmensas cifras de desigualdad. Un ejemplo elocuente de eso es Bolivia, país que conserva en su cara los ojos maltrechos de la pobreza. Luego de cruzar las fronteras por Paraguay sentí el impacto del choque cultural. Mujeres con sus abanicos en la mano se desviaban del sol de casi treinta y tres grados mientras sus hijos aprendían a caminar avanzando hacia los que bajaban del ómnibus para vender sus naranjitas. Soldados inventaban maneras para ganar dinero en la frontera acusando a los extranjeros de ilegales por razones que apenas sabían explicar. Después de ciento ochenta kilómetros por carreteras de tierra, llego a la primera ciudad boliviana en la que me alojaría, vi que aquella visión trágica se había quedado para atrás. Santa Cruz de la Sierra, unas de las ciudades más desarrolladas de Bolivia es el símbolo de un país que ha dado cierto, no obstante para pocos. Los grandes edificios y su población mayoritariamente descendiente de europeos no pudo esconder la gigante periferia pobre que daba otro ropaje a aquella imagen del centro, me sentí como en un gran centro brasileño. Al seguir para regiones más altas, el color de la gente y las condiciones de vida se fueron cambiando. Ahora, en Oruro, ciudad que tiene su carnaval como patrimonio de la humanidad, veo que el país es otro, más pobre, más indígena, menos viciado por la compra y la venta. Todas mis visiones me han convencido de que, a pesar de estar cerca de mi casa, un mundo ajeno me invadió y me hizo notar la grandiosidad de una cultura que intentar mantener rasgos de sus antepasados. No me sobra duda que Pachamama (Madre Tierra venerada por los incas) vive aún en la sangre de la gente sin quitarle el derecho de venerar a otros dioses. Sé que el muchacho que escribe estas palabras no es el mismo de antes. A cada paso se me asoma la certeza de que todavía falta al mundo el respeto por el diferente. De esta manera, he tratado de conocer estos pueblos sin la pretensión de pertenencia a una cultura mejor o mayor. El André de hoy sabe que para que el mundo tenga en su cara una risa pintada por la igualdad, hace falta luchar por ello. Para eso, no hace falta ir tan lejos porque, aunque Brasil haya conseguido tasas de desarrollo que en mucho superan los números bolivianos, estamos unidos por un rasgo común: somos pueblos que permiten el nudo de la desigualdad. El mensaje principal que llevo de esta vivencia es que crecemos mucho cuando vemos el otro, cuando lo interpretamos y intentamos comprenderlo. He aprendido también que mucho falta para que logremos un mundo mejor, en el que todos se respeten y nutran el deseo de ser cada vez más seres humanos. Por lo tanto, ¡manos a la obra, amigos!
*André Vilas Boas vive en Feira de Santana, donde estudia Letras Españolas en Uefs, y trabaja enseñando sus alumnos a aprender la cultura, literatura y lengua españolas. A enero, él se fue a distintos países de la América del Sul como Uruguay y Chile. E-mail: andreh_esp@hotmail.com. (Foto: André Vilas Boas).

domingo, 18 de janeiro de 2009

Where true love goes

Filho de mãe sueca e pai grego, Cat Stevens (1948) é um famoso cantor e compositor britânico. Suas canções abordam temas religiosos e espirituais, e muitas delas estão associadas a projetos beneficentes e educacionais. No final da década de 70, converteu-se ao islamismo, passou a chamar-se Yusuf Islam e acabou abandonando a carreira musical com a qual já havia vendido mais de 40 milhões de discos. Entretanto, voltou a tocar num ritmo pop em 2006, lançando o álbum On Other Cup 40 anos depois do lançamento do seu primeiro disco. Não é objetivo aqui traçar uma referência biográfica de Yusuf Islam, mas apresentá-lo para quem não o conhece ao mesmo tempo em que disponho um vídeo-clip do cantor interpretando a música Heaven/Where true love goes. Nem preciso dizer que adorei, mas arrisco um adjetivo: simplesmente um clássico! O final de semana pede descanso regado a uma música leve e massagem nos pés e na mente. Ouça essa canção, relaxe e faça sua avaliação aqui no Palatus. Bom domingo!

jr

Fonte:Foto: http://www.sahajayoga.com.au/news/wp-content/uploads/2007/01/yusuf-cat-stevens-jpg.jpg; acesso nesta data.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Céu luau

(Foto: J. Ribeiro)
Horas leves numa lua inerte Desce o céu no clarão do mar Agosto puro num lugar insano E eu aqui de olhos vedados O que é mesmo o luau? Luau é coisa de outro mundo Dos vagabundos imundos eu só sei falar Vagam aqui letras num poema sujo Cuja rima pobre não me faz pensar
jr

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Noites sem teu pulsar

Os dias não me são nada iguais, e as noites me torturam por completo. Tua ausência me acompanha e apenas compreende minhas súplicas em vão. Já não sei se as horas me acalentam como antes porque esperar é matar-me aos poucos por dentro e comprimir o peito a cada batida. Pulsa, pulsa o coração, e nada acalma a fúria do silêncio que irrompe todos os dias e me leva a cama imensa para dormir, simplesmente só. Procuro-te por toda a noite, e ainda não sei por que insisto. Apenas a luz, que reflete no espelho contra o quarto, mostra-me tuas fotos espalhadas sobre a mesa de estudos. E tuas imagens voltam como flechas a me acertarem a memória. Tudo recomeça, tudo se dispõe, tudo é promessa, porque tu estás no centro das forças que me mantêm em vida. Fico a contemplar-te na dança em meio aos raios e brisa que entram pela janela ao limiar do meio sol, que parece emergir da superfície marinha. Ainda na cama toda desforrada, tento segurar teu corpo com as mãos, não consigo. O sol te leva aos poucos, mas minha cabeça desenha-te falsamente pra que me acostume com tua ausência todos os dias. Só o coração não se engana com tuas partidas porque cada vez mais acorda clamando só sem a resposta do teu pulsar. Por que ainda amo? Me diz por quê?
jr

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

As enes maneiras de fazer um ano novo diferente

Passou-se o Natal e mais um fim de ano é iminente. Não há mais tempo pra repararmos os erros, pra concertarmos as catracas soltas no depósito de badulaques. Não há como cumprirmos aquelas metas estabelecidas no Natal passado. E vocês vão descobrir que esse foi mais um ano que acabou passando rápido. Sentir saudades não adianta. O tempo praticamente já é outro.
Para o novo ano, vocês terão chances de planejar tudo de novo e tentar fazer alguma coisa que realmente valha à pena, porque “hoje a festa é sua, a festa é nossa, é de quem quiser, de quem vier...” Se não conseguirem, haverá novos natais, novos Anos Novos, e sempre existirão chances de começar de novo, numa infinita repetição. Lembrem-se: quanto menos criamos projetos, mais se tem chances de não haver cobranças e menos são as frustrações por não terem visto resultados.
Diante das contradições da vida moderna, seguem algumas instruções para o povo brasileiro, principalmente para os mais jovens, neste novo ano: a) não escutem seus pais antes de saírem para as baladas, escutem-nos na volta se ainda tiverem chances de ouvi-los; b) não assistam aos noticiários durante a semana, a menos que seu fã ou seu jogador favorito estiver sofrendo algum tipo de calúnia; c) não juntem grana durante o ano nem trabalhem muito pra conseguir, a menos que seu banco seja tão bom que não pareça banco; d) não votem em plebiscito nem campanhas milagrosas, a menos que se volte a vender indulgências como promessa de salvação da pátria amada; e) não doem sangue nem use camisinha, a menos que se sintam forçados a fazê-lo; f) não sejam transgressores quando o ideal é lutar pela democracia, acomodem-se com o sistema, pois é isso o que se espera de vocês; g) usem fármacos entorpecentes, com produção rudimentar ou industrializada, a menos que sua missão seja lutar pela desorganização do crime organizado; h) não leiam a Bíblia nem sequer um minuto no ano, a não ser que nela vejam mais um canal pra falar com Deus; i) não respeitem os mais velhos nem lhes passem o assento na condução, a menos que sejam capazes de se verem a meio século além do presente; j) não acreditem no governo, e continuem dizendo que eles são mesmo corrutos e ladrões...a menos que vocês se lembrem que todos são resultados de suas escolhas e comungam do mesmo direito de cidadão; k) não leiam - se tiverem coragem - queimem os livros, a menos que se tenha um bom livro de autoajuda ensinando-lhes as dez maneiras de se aproveitar o tempo lendo algo que valha à pena; l) não escutem as crianças, não leiam histórias para elas, não as deixem um segundo expostas à chuva nem ao sol; enfim, não as eduquem nem as deem bons exemplos, deixem que o governo tome partido dessa função quando elas crescerem, afinal, há tempo para tudo nessa vida, a menos que a vida não nos dê tempo pra mudar o rumo das coisas; m) ah, não sigam manuais de instruções por um ano, a menos que seja pra trocar um pneu... n) ...n...n...n... Não desejemos feliz ano novo apenas, sejamos felizes.
jr

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Vida e arte na praça da catedral

Perdão para os amantes das canções de Vinícius de Moraes, mas passar uma tarde numa bela praça pública não é o mesmo que “Passar uma tarde em Itapuã/Ao sol que arde em Itapuã/Ouvindo o mar de Itapuã [e]Falar de amor em Itapuã”. São ações totalmente diferentes, e, diga-se de passagem, muito mais interessantes que a sugestão preguiçosa do poeta. Permitam-me iniciar este texto fazendo referência comparativa à música do saudoso Vinícius, que nos presenteou com o Soneto de Fidelidade. Entretanto, de tudo aos meus olhos fui atento e, com muita atenção e zelo, que mesmo se houvesse desespero, o encanto da praça marcaria meus pensamentos. Dizem que a arte imita a vida, outros preferem acreditar que a vida imita a arte. Prefiro pensar que arte e vida são as mesmas coisas, nós é que não paramos pra pintar o quadro que as compõe. Digo isso porque , ao percorrer algumas avenidas da cidade de São Carlos, interior paulista, tentando desvendar seus segredos, entender a arquitetura de alguns casarões, contornar as esquinas e atravessar as ruas disputadas por carros e transeuntes, concluí que nada me custava sentar um pouco no banco da praça. Fiz então. Pus a mochila no chão e olhei para o céu por entre a copa das frondosas árvores. Respirei um ar mais puro. Queria apenas fazer isso enquanto descansava e tomar o rumo a passos leves, sem pressa. Não consegui levantar os pés. A energia da praça era muito mais forte que meu entusiasmo para continuar a andança. Olhei o relógio, 17h no horário de verão. Não era cedo, não era tarde...ah, pouco me importava o tempo naquele instante. Só se é cedo ou tarde quando se tem hora marcada pra fazer alguma coisa. Pus-me de pé, girei a 360º e voltei a contemplar o chafariz no centro. Fazia tempo que não observava um chafariz. Fiquei ali olhando por um bom tempo. Não me cansava em ver as flechas d’água atirarem-se contra a lei da gravidade numa briga contínua e interminável. À minha esquerda, notei algumas pessoas conversando sabe-se lá sobre o quê, cujos sotaques lhes eram peculiares. Podiam-se ver vários grupos separando-se em categorias distintas – uma metáfora da sociedade organizada dentro de desordem. Num banco, quatro senhoras de aproximadamente 65 anos pareciam conversar sobre religião; uma tentava provar algo com a Bíblia aberta. Logo depois saíam rumo à catedral. Mais à frente, vi uns senhores jogando dominó. Apenas um mantinha-se de pé com uma mão na cintura e a outra mexendo a alva barba bastante compenetrado, como se tivesse jogando por todos. Alguns xingavam... podia-se notar pelas feições sisudas. Vi também umas crianças de uniformes escolares brincando de bola. Riam felizes. À minha direita, pude contemplar um casal de jovens namorados aos beijos. Curtiam um ao outro sem vulgaridades. Fazia tempo que não contemplava um casal tão harmônico. Eles compunham a fotografia da praça, diríamos ser uma escultura se o rapaz não mexesse tantos as mãos tocando os cabelos da moça. Às vezes, não somos acostumados, na contemporaneidade, a compor a paisagem como personagem romântica, em muitas outras somos espectadores dos feitos e fatos atrelados ao sexo explícito negociado ali mesmo na praça pública, o que não era o caso. Ainda assistia à cena fílmica por trás dos chuviscos do chafariz colorido, quando uma mãe roubou minha atenção ao gritar seu filho, que arriscava passar por entre as grades da fonte. “Saia daí, filho, já te disse que não pode fazer isso”. Fiquei observando o menino de uns 4 anos de idade, e passei a refletir acerca da pureza de um indivíduo e o quanto o tempo é capaz de apagar tamanha virtude à medida que vão crescendo. Naquele instante, eu queria ser criança e atirar-me com roupa e tudo na fonte de águas cristalinas. Que se danem os não-podes! Ironicamente, notei, vindo em minha direção, duas motos. Eram policiais à paisana. Por um segundo, pensei em três possibilidades capazes de os trazer à praça: retirar a criança da grade do chafariz; expulsar o casal que continuava aos beijos e apertos ou prender-me por estar ali sozinho, sentado num banco, numa posição de suspeito, já que mantinha-me na praça por muito tempo. Tocaram suas motos adiante, e nada disseram. Depois disso, eu já não tinha mais ânimo para continuar a contemplar a paisagem que compunha a vida (ou a arte?). Levantei-me, pus a mochila nas costas e fui me afastando da praça. Antes de deixá-la de vez, recebi um punhado de grãos e tive dificuldade de livrar-me dos pombos famintos. Logo notei que foi um senhor quem o fizera, como se tivesse a me dar uma lição: “Alimente os pombos, meu filho, enquanto é cedo; eu já faço isso há muitos anos e ainda não morri”. Mas ele nada me disse. Montei um sorriso quando o mirei nos olhos e partir. A praça da catedral ensinou-me, naquela tarde, que as tintas, a tela e os pincéis estão sempre nos lugares certos, só precisamos deixar de pintar o sete e sair das prisões que nos cercam e nos cegam diante dessa vida efêmera e marcada pelas proibições. Proibições que nos atrapalham a pintar o quadro de nossas vidas a seu tempo e nos roubam a possibilidade de sermos felizes.
jr
Fonte: Foto: http://www.visitesaocarlos.com.br/fotofontecatedral.htm, acesso nesta data.