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domingo, 30 de janeiro de 2011

Come si fa una tesi?

(Foto: J.Ribeiro)

Come si fa una tesi, perguntou o semioticista italiano Humberto Eco a si próprio quando estava escrevendo o belo livro com esse nome. Um livro que nos faz lembrar de manuais de autoajuda. Mas a semelhança da expressão está de um lado, as diferenças entre os gêneros são quilométricas.

Busquei esse título de Eco porque me vejo em uma encruzilhada. Já já direi as razões que me fizeram escolhê-lo.

Há exatos dois anos, num fim de janeiro, estava eu me perguntando: como se faz uma dissertação? Como viver em um lugar onde não se conhece ninguém? Como se faz pesquisa? E se eu não conseguir sobreviver? E se eu ficar doente, quem vai cuidar de mim? Será que vou dar conta de meus objetivos? Quais eram? Eu suportaria o ar seco e o clima bastante frio? Haveria algum choque cultural que magoasse minha subjetividade? Como encarariam meu eu, minha voz, minha fala, meu jeito de pensar, de agir, de lidar com os outros? E se o dinheiro acabasse? E se eu não tivesse chance de sobreviver? E se minha família precisasse de mim com urgência? E como eu suportaria a saudade de meu povo, minha família?...

Eram muitas as indagações. Por outro lado, todas elas precisavam de respostas, ainda que fossem efêmeras. Mas sempre achei que quando as dúvidas me vinham, de um modo ou de outro, eu precisava respondê-las. E isso já me vazia um certo investigador. Eu precisava de respostas... isso não me fazia desistir. Sempre preferi caminhar com uma resposta pouco satisfatória do que com a dúvida de não saber o que teria ocorrido se eu tivesse ido à busca de resposta.

Hoje dois anos depois da profusão de perguntas, eu já tenho algumas e também abri espaço para tantas outras. De lá pra cá, o tempo me deu oportunidade de aprender mais um pouco da vida e evitar que o medo seja maior que meu sonho. Meu objetivo na época, o que me trouxe aqui, foi desenvolver mais uma parte de um projeto de vida, um projeto que escolhi para me sentir bem. Então, para isso, tinha que escrever uma dissertação de mestrado. E com ajuda de professores e amigos – já que nunca estive só -, acho que estou concluindo uma nova etapa, essa parte do que chamei de projeto de vida. Mas antes de concluí-la, já estava traçando novos objetivos, pensando em novos caminhos a percorrer porque devemos nos movimentar o tempo todo. É assim que vejo a vida: um eterno balanço de bambolê que dança melhor conforme o corpo que lhe serve de balanço.

Portanto, minha encruzilhada não é o limo em que me pego no sofrimento; é o ponto em que me encontro comigo e com meus projetos neste lugar de passagem. É sempre o lugar onde eu preciso olhar para trás e avaliar meu projeto anterior, olhar pra frente e ver quais novos caminhos estão diante dos meus sonhos. É o lugar onde eu posso me sentar para formular novas perguntas, encarar as dúvidas, pensar sobre o que eu escolhi para o tempo seguinte... o tempo que me põe em movimento. Por ora, tenho um novo projeto: fazer meu doutorado. E, por isso, tenho clareza de uma dúvida que vai me acompanhar pelos próximos quatro anos: como se faz uma tese?

jr

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Tiririca: o pior é que agora fica!

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Este dia de eleição, como tantos outros, foi mesmo histórico. E a história que aqui se vê não é definida somente pelos pontos positivos de uma campanha intensa, mas por características exóticas. Não diria uma característica boa, ruim, feia, bonita, mas capaz de revelar a complexidade de um eleitor brasileiro heterogêneo. Um eleitor que tem posicionamentos ideológicos distintos, o que demonstra positivamente a postura de um país que permite o funcionamento de direito democrático. Isso não significa que permissão seja ação.

Queria aqui discutir o sentido do voto atribuído ao candidato e agora eleito Tiririca. O que justifica os cerca de 1.353.640 votos para ele? Quem nele deu o voto espera o que de uma política brasileira no geral e no senhor da Florentina de Jesus em particular?

Tiririca candidatou-se para assumir uma postura antieleitoral, apolítica, antipática frente ao destino de um país pretenso a uma boa mudança... sua performance de palhaço, dizem, seria uma forma de atrair os eleitores para se eximir de suas responsabilidades políticas. Como disse, as diferentes posturas ideológicas demonstram o retrato de uma democracia. Logo, votando em Dilma, Marina, Serra, Plínio ou em qualquer candidato, o eleitor estaria apostando numa mudança, numa melhora, com suas próprias crenças. Mas quem votou em Tiririca apostou em quê?

Se eu tivesse o poder e a necessidade de apontar um culpado e as razões que levaram os 1.353.640 a agirem assim, certamente o próprio Tiririca seria o último, porque ele também é vítima de um discurso fundamentado nos ideias da indiferença. E essa indiferença é reflexo de um país que tem e teve muitos políticos que pouco deram exemplo, muitos políticos que cometeram atos ilícitos aproveitando-se do poder que lhe foi dado, muitos políticos que deixaram de lado compromissos com a educação para beneficiarem-se do poder e dos bens públicos.

Se os 1.353.640 de pessoas votaram em Tiririca, em um estado populoso como SP, desperdiçando seu voto, quantos dessas no Brasil fariam o mesmo? Certamente, outros tantos milhões. E pessoas que pensam assim têm uma consciência política, cidadã, particip-ativa às avessas, prova de que lhes faltam informação, criticidade, educação, sapiência de que seu papel enquanto eleitor (seja de direita, de esquerda, de centro-direita, centro-esquerda, da ala de lá ou da ala de cá) é importante para a coletividade. O senso comum repete o seguinte enunciado: os políticos não investem em educação porque querem manter o povo acrítico e fácil de ser manipulado. Agora eu poderia criar um novo: há políticos que não educam o povo e depois reclamam que este não sabe votar. Mas isso não melhora a situação, ao contrário, permite que o discurso de que política é assunto chato, é ruim, não presta e, no Brasil não funciona, só fortaleça um saber medíocre diante das decisões coletivas e um comportamento apolítico do povo.

Especula-se na mídia e fora dela que o voto ao Tiririca é conseqüência de um comportamento crítico, revoltado, inconformado do brasileiro. Será mesmo? Se esses eleitores apresentam tal criticidade, certamente pensariam duas vezes, haja vista que, agindo assim, eles próprios iam perceber que vão pagar o salário e todas as despesas deste deputado federal enquanto nada mudará, e pior que estava acaba ficando.

Agora há quem vá lutar com todas as forças, argumentos, leis eleitorais, medidas etc. a fim de desautorizar a candidatura do palhaço, acreditando que sua figura é incompatível com o cargo a que se candidatou. Recentemente se tentou fazer isso com o argumento de que ele era analfabeto. O pior não é ser analfabeto, não é ser palhaço, não é ter falta de atitude política, não é deixar de ter projeto político em prol da sociedade. O pior é saber que pagaremos também com nossas contribuições por outros tantos Tiriricas espalhados pelo Brasil, que ganharam com ele ou com argumentos semelhantes; o pior é saber também que acabaram elegendo homens e mulheres com cara, voz, discurso, promessas, projetos de políticos sérios, diferente do Tiririca, mas tiveram ou podem ter uma história de corrupção, descompromissos com o eleitor brasileiro, que acreditou que poderiam ser diferentes de um simples palhaço que só serve para fazê-los rir quando a piada tem um pingo de graça e nada mais.

Não estou aqui justificando a candidatura de Tiririca com tais argumentos, mas tentando olhar para um regime político complexo que permite eleição de candidatos como este, em que, nessas horas, reclama-se por isso e tenta, às vezes, tarde demais corrigir as arestas do processo; enquanto outras arestas mais espinhosas - como aquelas onde permeiam os corruptos - vão continuar nos espetando a paciência, e fazendo muita gente acreditar que política é mesmo coisa suja – o que não é. É coisa muita séria! Alguns políticos é que não são. Junto com Tiririca, que ainda nos faz rir, nos fazem chorar de decepção!

jr

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sábado, 2 de outubro de 2010

SERRA, MARINA, DILMA e PLÍNIO

xxxx Falas desconcertantes e civilizadas xxx XXX

A câmera ainda incomoda mesmo quem está acostumado com a alta exposição do rosto nas telas. É o caso dos quatro presidenciáveis no último debate promovido pela Rede Globo. Se falar em palanque era uma prática muito forte para os grandes comícios nas campanhas, agora é a fala pública ao vivo e civilizada que vigora em frente às câmeras.

Não se fala diretamente para o eleitor, pelo menos não como antes, mas para uma máquina e, ainda assim, ter que suportar o controle do tempo, a condução e a intervenção do jornalista e as interpelações, alfinetadas e comentários deslocados dos adversários, além de uma plateia heterogênea ali presente. É com esse olhar que avalio o debate de quinta sem ter nenhuma pretensão de me colocar no lugar de especialistas de mídia, de política, de debates etc., mas apenas observando o mirante da linguagem, meu objeto de preocupação nas práticas de discursos.

De um modo geral e tomando como ponto de vista os outros debates, não vi nenhuma evolução daqueles para este no que tange à tranqüilidade dos candidatos. De fato, estavam todos ansiosos. Via-se o balançado involuntário de pernas de Dilma nos minutos que antecederam ao evento. Quem não ficaria nervoso? Quem não tremeria as pernas? Não é fácil falar sob pressão, não é fácil falar para públicos com anseios diferentes, não é fácil falar a partir desse lugar em que o sujeito está acuado. Acuado justamente porque é preciso atender a estes elementos todos, respeitá-los, e manter a postura sem “baixar o nível”. Sim, porque em política não se é de estranhar quando as agressões verbais deslizam-se para o espaço dos ataques pessoais, partidários e, por isso, fortemente ideológicos.

Se o discurso dessa ordem exige uma língua normativa, pura, correta, e livre de palavras de baixo calão, é preciso também que cada candidato fique atento para o que diz e como diz. Nesse sentido, por não se ter chance de correção - já que se está falando ao vivo -, são inevitáveis o “erro” de concordância como “vou aumentar o salário mínimo para R$ 600 real” (SERRA), a confusão de conceito e palavras - “tráfico/tráfego” (DILMA), o erro de cálculos “De cada 10 pessoas, 4 e 3...”(MARINA) esquecendo-se dos outros 3. Houve também um problema de localização, de situação geográfica, confusão de estados. Inúmeras vezes, Dilma e Marina misturaram os estados de SP e RJ, colocando-os num mesmo saco. Ora uma dizia “aqui em SP”, ora outra fala “lá no Rio” onde visitei o morro da rocinha, o morro X, o morro Y... revelando-se um problema de dêiticos. O fato é que o debate acontecia nas dependências da Globo em Jacarepaguá, bairro da Zona Oeste do Rio.

Por outro lado, a fala pública e higienizada com a qual se tenta dizer, o máximo possível, por via de uma língua transparente, caminha para uma língua metafórica. Eis porque Dilma falava do “mundo azul do Serra”, Marina se referia a uma “onda verde”, Plínio destacava “o país das mil maravilhas” ou, ainda, “acaba-se a batalha, continua a guerra” e tantas outras que povoavam suas vozes de figuras de sentido, de estilo, de linguagem. Serra e Marina foram os chefes de construções metafóricas.

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A voz macia de Marina apresentava como de costume um tom evangélico, libertário, maternal, buscando aproximar a identidade individualizada do eleitor que se reconhece na voz dela como sendo um dos tantos seus Luíses do Brasil, quando disse “Eu vi o seu Luis Eduardo na favela me pedindo...” como se tivesse falando de meu tio, do pai de meu amigo, do avô da minha esposa, seu vizinho etc. A voz estatística de Dilma trazida de outros debates se confunde com os números (“tivemos sete doações de partidos”) quando tenta responder à pergunta do Plínio sobre o fato de ela não marcar a figura do partido (PT) em sua campanha. Alguns da plateia riem e desestabilizam a postura séira de Dilma, que não consegue evitar seu nervosismo, depois disso.

Serra, por sua vez, consegue manter o ritmo, a frieza, frente às perguntas, respostas, réplicas, tréplicas, e até se mostra seguro dadas as experiências com essa ordem do dizer... [“uma cobra criada”, diria o Plínio se não tivesse que apresentar bons modos.] Mas Serra pensa que engana quando, na ânsia de vencer, apaga a história política do país, os projetos encaminhados, junta tudo e põe no mesmo saco, homogeneizando 8 anos ou mais ao nada feito e faz promessas milagrosas. Chega ao ponto de dizer “Eu não fico fazendo promessas, eu falo coisa que efetivamente vou fazer”. O conceito de promessas, portanto, vai por água abaixo.

Em suma, poderíamos dizer que as falas foram divididas da seguinte forma: Enquanto Marina ponderava suas palavras a fim de não cair no lugar comum da generalização, do esquecimento da história; Serra fazia o contrário, tentava apagar as políticas do governo anterior, contraditoriamente destacando alguns projetos positivos como sendo copiados de seu mandato enquanto governador de SP, e tende a profetizar. Já Plínio agia em função de devolver as perguntas quando na ocasião de sua fala era para responder ao que lhe foi questionado. Era parte de sua estratégia retórica fazer com que os adversários se expusessem; deixassem cair suas máscaras, entrar em contradição, atacá-lo. Experto, eu diria. Dilma, por sua vez, apresentou uma fala trêmula, pouco futurista, mais mantenedora das práticas do governo Lula, óbvio. Eis porque o apelo à história do governo, aos números, aos quadros estatísticos era bastante recorrente. No momento final do debate, eu diria que Marina foi humilde, agradecendo aos colegas e a Bonner pelo evento tal como Dilma; Serra agradece aos adversários, mas marca o egocentrismo destacando seu currículo, suas experiências, seu EU. Plínio faz ecoar nos últimos segundos uma voz interjetiva: “Viva o Brasil!”

Percebi, pois, que o uso da fala ao vivo espremida, real, sem cortes... é, às vezes, até constrangedora, porque ela faz se sobressaírem de forma nua e crua as apreensões, as angústias, as aflições, a imediatez, a tentativa de raciocínio objetivo, o desespero, as promessas improvisadas de candidatos que apelam para ter antes do controle do poder político, o controle do discurso, esse “poder pelo qual se luta” como disse Michel Foucault. Mas o discurso, a língua, as palavras deslizam-se porque são fluidas como água que escorre entre as frestas de um balaio trançado com fios de samambaia.

jr

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sábado, 25 de setembro de 2010

A fama de um medíocre rockeiro

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Odeio artista de mente medíocre. [Peço desculpas, gente, por começar com uma frase agressiva assim.] Penso que artista, intelectual, gente pública, profissionais de comunicação, professor etc. deveriam sempre andar com um livro aberto na mão, e lendo. Não é que os outros não devam ler, atualizar-se, estudar, mas há certas atividades na qual precisamos ser mais sensível quando nos referimos à cultura.

Explico: somente em menos de dois meses, tive que pegar nove voos diferentes – Campinas – Salvador; Salvador – Rio de Janeiro - Campinas; Campinas – Rio de Janeiro; Rio de Janeiro – Campinas; Campinas – Rio de Janeiro – João Pessoa; João Pessoa – Rio de Janeiro – Campinas. Que xique!, alguém dirá. Mas isso não é xiqueza. não gente, é necessidade de pegar promoções mesmo. Pelo fato de eu tentar, nesse período, visitar minha família na Bahia, participar de dois eventos (um no Rio e outro em Jampa) aproveitando algumas destas promoções, acabei pingando em vários aeroportos.

O curioso disso tudo é que tive a oportunidade de ver alguns famosos (outros nem tããão famosos assim). E entre eles nada mais que atrizes e atores globistas, membros de bandas cariocas e baianas, jogadores de futebol, gato, cachorro e papagaios. Outra coisa curiosa é como eles se comportam: alguns abrem seus notebooks e fixam seus olhares na tela; uma atriz está sempre se retocando, olhando-se naqueles espelhinhos que trazem na bolsa. [Elas podem ser fotografadas a qualquer momento... e são mesmo fotografadas! Deve ser um saco alguém roubando sua imagem.] Um deles finge um sorriso pra gente quando, às vezes ,sem querer, acabamos lhe olhando. É como se dissessem com isso: Eu sei que você me assiste todo dia na novela ou Vocês me olham assim porque sou famoso (a). Aqui pra eles! Não dou bola. Finjo que não os conheço. Isso sim é manifestação de xiqueza.

Imediatamente, noto adolescentes pedindo autógrafos e pra posarem em fotos. São simpáticos às vezes ou indiferentes noutras.

Hoje, um guitarrista de uma banda de rock carioca [de mente medíocre] pegava o mesmo voo que eu. Antes disso, vi-o com mais três integrantes no saguão falando alto e me desconcentrando na leitura. [Sim, eu leio também quando viajo.] Deu vontade de dizer: poderiam falar mais baixo, por favor?

Cantores, músicos, jogadores são muito fáceis de ser identificados. Estes, quando não estão de ternos, vestem-se todos iguais; já aqueles estão sempre carregando um instrumento. Nas filas e corredores acostumam chocá-los contra nós. Desculpas, alguns têm a humildade de pedir.

Mas voltando ao tal rockeiro. Eu estava no assento da janela, ele sentou-se na poltrona do corredor depois de ajeitar um instrumento musical no compartimento, devia ser uma guitarra, sei lá; entre mim e ele sentava uma moça muito bonita. Eu, morto de sono, pensei: tomara que eles não conversem. 6h10 - era o primeiro voo deles naquele dia, mas eu já estava nos ares desde 3h35 da madrugada vindo de João Pessoa com escala no Rio. Apertamos o cinto e minutos depois víamos o sol iluminando os morros da Baía de Guanabara. Linda imagem pra começar o dia!

Logo o dito cujo abre um sorrisinho pra loura e começa:

_ Extá frio aqui, né? [Nem estava frio assim. Aposto que ele queria mesmo é dizer Oi gatinha, faix deix minutox que extamos aqui e você nem me deu convearsa aianda; extá se fazeando de tímida ou é desantenaada para a música brasileira da qual não se leambra que sou um famosão do róack.]

_ Realmente, ela responde meio tímida... sobre o frio.

­_ Você é daqui ou de SP?, ele insiste.

_ Sou de Campinas, tô voltando pra casa depois de uma semana no Rio.

_ Lhegal.. qual seu nome?

Pensei: meu Deus, esse cara deve provar sua teoria sobre a falta de conhecimento da moça acerca do mundo artístico carioca quando ela perguntar E o seu? Dito e certo!

_ (Risos) ... extá brincaaando. Não se recoarda?

Pensei de novo: se eu fosse ela, nessas horas responderia ‘essa cantada está vencida, meu caro, usa outra.’

_ Desculpas por não lembrar... mas tenho certeza que já te vi na TV ou na internet. [Achei excelente a saída dela, afinal, depois de orkut, facebook, blogs, qualquer pessoa pode ser vista na net, sem contar com o Faustão que volta e meia lança uma bandinha na tevê, tipo aquela do Rebolation.]

_ Ah, sou fulano de tal da banda Y – fez a moça ficar vermelha.

_ Meu Deus! como você é mais bonito pessoalmente, está diferente. No mais, eu adooooro sua banda. Sou fan-za-ça. [Pronto, depois desse elogio, aí é que a conversa iria render... meu sono iria pra casa das puuuuuuuuuuuuuuuu que os pariram.]

_ SSSSério? – obrigado!

­_ Vai fazer show hoje em Campinas?

_ Sim, à noite. Estou com a banda aqui no voo, vamos ensaiar. Amanhã tocamos em Salvador com Timbalada. Conhece Salvador?

_ Não, mas morro de vontade de ir. Tenho uma amiga que foi lá esse ano, disse que era muito legal. [Conclusão minha: Eu não conheço uma pessoa no estado de SP que não tenha um amigo ou um conhecido que foi a Salvador ou não teve um amigo que teve outro amigo que não tenha ido à BA.]

_ Você precisa conhecer... Meu pai é baiano, tenho 51 primos baianos e meus 8 tios moram lá. Todo ano vou lá.

_ Legal. Sua família é grande então, ela conclui sem pensar muito como se tivesse resolvendo uma questão de vestibular com alternativas A, B e C.

­_ É sim. Mas isso no Nordeste é muito comum. As pessoas têm muitos filhos, sabe? Não têm controle de natalidade...? [Ele dá uma de professor de geografia. Por outro lado, deve achar que nas favelas do Rio há um projeto de Lula que permite apenas um filho por família.]

_ Sei! – ele olha pra ele.

Pensei pela enésima vez: esse cara vai me irritar com o grau de ignorância sobre a BA a ponto de ouvir de mim uma frase assim: “Que decepção para o povo carioca!” Mas... onde no Brasil há controle de natalidade? De que família ele está falando? Certamente a dos avós dele do século XIX, claro. Pra que generalizar tanto como se ,conhecendo a BA ,conhecesse todo o NE? Bem se diz por aqui que para carioca, do Rio pra cima tudo é Paraíba ou Bahia. E eu, que acabava de sair de João Pessoa, vi o quanto somos parecidos e diferentes ao mesmo tempo.

_ Agora uma coisa que me irrita na BA é a lentidão... continuou o medíocre rockeiro... como eles são caaaaalmos, bem calmiiiiiiinhos. Quase dormem quando falam com a gente.

_ Ah, tá brincando... meus amigos dizem - e eu vejo pela TV - que eles são os mais animados... veja o carnaval. São alegres. [Enfim, ouvi da moça uma frase que destoava da ignorância cultural acerca do nosso país homogeneizado na conversa daquele rockeiro, que é bem capaz de só conhecer as cordas da guitarra. Sei que tal opinião também é estereotipada, tanto a minha quanto a deles. Claro que somos animados, alegres, mas ... e os maranhenses, os paraibanos, os paulistanos, os amazonenses, os acreanos, os paraenses, os pernambucanos, os mineiros não os são?]

_ É ... mas fora o carnaval, o ritmo lá é de catraca – refutou ele depois de ouvir a moça.

Não agüentei e me intrometi na conversa chata dos dois com a seguinte opinião: “Vai ver que é preciso um carioca pra animar o carnaval da Bahia, vocês não acham? Vejam a Claudinha, por exemplo, é carioca... teve que ir pra lá para animar o povo. Não é verdade?” Ambos riram, concordando.

Tenho certeza que eles não entenderam nada. O bom da metáfora é isso, poucos roqueiros e patricinhas louras conseguem interpretá-la. A ironia é uma metáfora letal, mata neurônios ao invés de recompor as sinapses. E quando alguns conseguem compreender, já é tarde.

“Tripulação, preparar para o pouso.” – anuncia o comandante.

Olhei para a janela, eles não mais falaram desse assunto. Será que me acharam grosso, mal educado, entrão de conversa alheia? – perguntei pra mim mesmo. Com minha cara de cearense, impossível eles terem pensado que eu era um baiano apaixonado pelo estado. Lugar onde lendo, estudando, eu aprendi a reconhecer que o meu umbigo é apenas um espaço em que se acumulam algumas sujeiras de meu corpo e não um palco de rock ou o centro do universo.

Ah, tem mais uma que ainda não contei: eu não iria perder a oportunidade de ver a campinense se despedir do dito cujo com uma troca de beijos no momento em que nós três esperávamos pelas nossas respectivas malas na esteira do saguão de desembarque. Então, fiz um vídeo a partir do qual recortei algumas fotos. Eu não iria pagar o mico de atirar flashes sobre eles. Fui muito mais discreto que os paparazzi, óbvio, e não iria lhes dar ibope assim de graça nem correr o risco de perder a câmera.

jr
Imagens: arquivo pessoal.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morre José Saramago, um transgressor entre vírgulas

Conheci José Saramago quando tinha cerca de 18 anos, já tarde para um cara como eu. Também não faz muito tempo assim. O fato é que foi um professor de história que havia me indicado. Foi numa daquelas aulas em que o professor, muito empolgado sobre a história européia contemporânea, a influência da igreja, a hipocrisia social portuguesa, falava da importância da literatura, da arte como discurso transgressor. E eu nem sabia o que era um sujeito transgressor. Perguntei-lhe, e me respondeu: quer saber o que é um transgressor? Leia Saramago!

Li o Memorial do Convento (1982). Confesso que minha maturidade literária fragilizada e a estética do português distinta da encontrada noutras obras me assustaram. Quase nada entendi. Dois anos depois, reli a obra. Um ganho indiscutível. Daí fui mergulhar no Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991). Outra constatação de que eu pouco sabia sobre a vida, sobre a força do catolicismo e seu discurso sobre nós por muitos séculos. Daí, lembrei-me do professor de história. E entendi porque Saramago é um escritor transgressor. Indiscutivelmente o maior transgressor da língua portuguesa, pois não calou suas palavras entre dedilhados toques na máquina, entre uma vírgula e outra, um pensamento e outro, um amor pelas palavras lusófonas.

Agora começo a ler Ensaio sobre a cegueira (2004).

Quando eu estava concluindo a faculdade eu havia criado um blog de cujo domínio acabei com o tempo desgostando. Naquela época, descobri que ele também escrevia o Outros Cadernos de Saramago. Quantas vezes eu acompanhava suas sábias palavras na página!

Hoje, com a notícia da morte do escritor, volto lá, depois de mais de um ano sem visitá-lo, e dou-me de cara com uma lição para os homens deixada por dirigentes da Fundação José Saramago. Eis abaixo seu recado para nós:

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Pensar, pensar

“Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.”

(Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008)

jr

domingo, 20 de dezembro de 2009

Praça da República de Valença: uma fonte sem cascata

(Foto N. Ribeiro)

O tom de fim de ano, às vezes, me incomoda, sobretudo porque começo a pensar sobre o tempo e resgatar algumas memórias. Já disso isso antes aqui, mas não serei tautológico. O fato é que - depois de quase um ano longe de casa, da cidade que nos viu crescer, da família, dos amigos - bate uma alegria por rever tudo isso e uma tristeza de muita coisa já não está mais em seu devido lugar. E a praças vão ganhando novas molduras...

As praças sempre me dizem alguma coisa, me tocam e me faz pensar. E a Praça da República, no centro de Valença, me leva a tempos de saudade. Lembro-me que era ali que, em fins de ano, juntávamos alguns colegas para conversar, falar besteiras, contar histórias, dizer muito do que vivíamos. Lembro-me também, pouco depois, início dos anos 2000, quando fazíamos colegial, que revíamos colegas adiantados nos estudos já falando de suas experiências em suas faculdades, enquanto nós nos projetávamos para viver logo a seguir um tempo de facul. Dez anos! Bem, isso era estranho para nós, mas não impossível, afinal era um novo objetivo a ser traçado. Para alguns a faculdade representava status, para outros, distinção entre o povão e o povinho, os menos pobres o os menos pobres, o medíocre e os dotados de saber. E que saber! Enfim, a praça representava, em outras situações, uma passarela para dondocas cheias de egos, mas vazias de saberes. E dez anos se passam num bater de pestanas.

Pouco depois estava eu saindo dali, e a Praça da República tornara-se cada vez menos familiar a mim - dadas as circunstâncias acadêmicas e profissionais. Os amigos e colegas também já não a frequentavam por estes ou outros motivos.

Logo o prefeito satisfez sua vontade extinguindo do espaço público o coreto. Sim, coreto. Cidades antigas costumam ter coretos. Que coisa mais antiquada uma “piiii”! Gostava sim do coreto, e daí? Então... veio outro prefeito e desfez o grande feito do anterior, mandando erigir um coretão - feio de doer! Não demorou nada e, achando que este duelo de egos precisava de muitos espectadores, um terceiro prefeito veio e refez a praça, deu uma nova cara, levou ao chão algumas árvores balzaquianas, desfez do coreto, armou uma arapuca de concreto e criou uma fonte luminosa, que vive seca e sem nada iluminar. Ao redor da praça algumas construções: Igreja Batista, uma academia, algumas farmácias, duas clínicas, um prédio de dois pisos, uns barzinhos, a velha sorveteria, uns casarões antigos (prestes a desabar?) contrastando com a “modernidade”, e o teatro dos anos 40 resistindo. Nunca o vi aberto a visitas muito menos a algum espetáculo, acredite, mas está lá mumificado, cuja fachada aparece sob uma tinta envelhecida. Ah, dizem que lá funciona o Juizado de Menores.

Andei pelos quatro cantos da praça há poucos dias à noite e tentei achar algo familiar àqueles tempos de colegial. Quase nada estava lá, exceto os casarões e o teatro; e este último não me resgatou nenhum sentimento nostálgico, afinal em nada contribui para minha cultura pessoal, já que perdera sua função muito antes de eu andar por ali ainda rapazote.

Enfim, a ironia: nestes 10 anos, a praça viu praticamente quatro mandatos municipais e passou por várias plásticas; hoje, vejo algumas luzes e uma árvore natalina figurando a maquiagem de seu rosto modernizado. Algumas crianças brincam enquanto seus pais conversam sentados nos bancos de mármore e jogam palitos de sorvetes no chão – quase não há baldes de lixo. Não se veem adolescentes paquerando como antes, muitos menos adultos. Por outro lado, a fonte luminosa aparece perenemente escura e sem cascata... o coreto já não faz parte de seu rosto, pelo menos como antes.

jr

Fonte: 2ª foto.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A falta de sentido no racismo sentido

O mundo começou sem o homem e vai terminar sem ele.” (Lévi Strauss)

O quanto é triste e vergonhoso ainda ouvir das pessoas uma manifestação de preconceito, seja contra crença ou opção sexual, seja quanto grupo social ou étnico. Quando se o escuta de alguém que não tem formação escolar, diz-se que é por conta da falta de (in)formação... O que dizer de um povo que exclui, discrimina, preconceitua e mata na contemporaneidade? O que dizer de um povo que apresente leitura, formação acadêmica e oportunidade de refletir sobre tais questões num momento em que tanto se discute sobre respeito à diferença e necessidade de se conviver com a cultura do outro?

Num país que se instituiu, já há mais de 500 anos, sob a força e a luta de um povo negro em sua maioria - além de imigrante europeu, asiático e ameríndio – como encarar enunciados racistas que apenas expressam uma ignorância humana desmedida capaz de segregar grupos e provocar dor? Falo em dor porque, mais que feridas seculares sofridas na pele de um escravo, o povo preto - herdeiro daquele - ainda sente suas marcas cravadas na voz e nas palavras daquele que o renega, o exclui, o discrimina... e o relega à condição de inferior, de improdutivo, de incapaz de atender aos ideias de uma cultura midiatizada sob a ordem de uma beleza construída, mas jamais vivida no real.

A dureza do racismo se manifesta nas práticas simbólicas diariamente neste Brasil que, sem mirar-se no próprio espelho de sua história, ataca o outro com um gesto, uma palavra, uma torcida de olhar, um silêncio, uma eliminação em entrevista por conta da cor, um salário menor, um papel secundário num filme, uma piada de bom ou mau gosto. Há quem diga que no Brasil não exista manifestação de racismo... Mas basta recorrer às marcas simbólicas que traduzem o pensar deste povo, à semiologia que revela sua cultura, à história e o próprio silêncio de quem “prefere se calar” ou fechar os olhos para se notar o quanto o racismo está ao nosso lado quando não dentro de nós mesmos.

É triste sair por ir e sentir qualquer gesto de desprezo, mesmo que sutil, contra a minha diferença, a sua diferença, a diferença de nosso outro, porque pior que seus efeitos é a falta de fundamento lógico e científico que legitima a recorrência do racismo e da discriminação pela cor, sexo, religião, etc. O pior de tudo é que as cicatrizes de uma vítima do racismo e do preconceito só se apagam quando o outro percebe que ele nada tem a mais e nem é melhor nem pior que o negro, o pardo, o índio, o gay, o branco, o pobre capaz de lhe acender à condição de ser sobreumano.

Só consigo pensar num ser humano capaz de banir o pensamento e as práticas nazistas e, esquecendo-os, deixar sair suas vozes racistas via percurso da própria contradição humana. Visto dessa maneira, é neste trajeto que encontro o povo brasileiro caminhando - não para construir um país melhor, mais crítico, mais educado e produtivo e menos distante da violência física e simbólica – mas para duas bolhas: a do eu e a do outro; a do negro e a do branco. Talvez com o tempo, quando o homem estiver só em suas bolhas, vai perceber que sua vida não faz mais sentido, já que não tem mais o outro para sentido lhe dar. Se continuarmos assim, a frase do recentemente falecido Claude Levi Strauss fará sentido: O mundo começou sem o homem e vai terminar sem ele.”

Imagens e fonte (comentários de leitores do blog do A Tarde Online "Cidadão Repóster").
jr

sábado, 31 de outubro de 2009

Por uma leitura política menos medíocre e generalizada

(Fonte)

É incrível como boa parte de pessoas sem criticidade política ama a arte da generalização, quando não particulariza ao extremo um ponto que deveria ser visto por mais de uma perspectiva. Não pretendo aqui defender nenhuma bandeira sobre política, partidos, eleitores ou outra questão semelhante. Quero apenas falar o quanto o tema da generalização me incomoda e serve para avaliar a postura superficial de muitos brasileiros que, dando uma de conhecedores de política, confundem as coisas. Também não me coloco em lugar de bom conhecedor do assunto nem cientista político, longe de mim, mas, sem querer ser modesto, me ponho no lugar de alguém atento às linguagens utilizadas para dizer alguma coisa quando o assunto se volta à política e aos políticos. Quando me refiro à linguagem, valem fotos, vídeos, textos escritos, falados, sincréticos, charges, matérias jornalísticas, filmes, capas de Veja, outdoors...

Circula, no Youtube, até o momento, um vídeo muito interessante de 2 minutos e 23 segundos sobre o título Vou morar numa propaganda do Governo da Bahia - Jaques Wagner. Trata-se de uma crítica profissionalmente elaborada mostrando as contradições do governador que veiculou, em todo o estado, seus feitos durante seu mandato. Poupo o leitor das descrições de ambos os vídeos e a mim de analisar seus conteúdos.

Penso que o governo deve sim mostrar os resultados de seus projetos; é uma forma de prestar conta da administração pública e cumprir com as propostas dos tempos de candidatura. Penso também que o povo deve, sim, exigir que as diversas ações sejam efetivadas em suas cidades, municípios, ruas, região rural etc. E um vídeo como esse funciona como uma ferramenta eficaz para dizer que os problemas não têm sido resolvidos, que tais ações não têm atingido boa parte da sociedade como lhe é de direito. Que mais vídeos desse circulem, ao menos!

Entretanto, o que não vale é o espectador tomar o vídeo do governo como uma verdadeira mentira e o vídeo do Youtube, por exemplo, como verdade verdadeira. Assim se cai no que chamo de generalização ou no reducionismo. Até porque, em muito do que a linguagem expressa duas ou mais realidades, os embates ideológicos e os confrontos de poderes estão em voga. E, no caso em questão, não é diferente. O problema se dá mais ainda quando o povo começa a enunciar: “Culpa do PT”, “A BANDIDAGEM TOMOU CONTA DA BAHIA”, “QUE TRAGÉDIA DE GOVERNO”, PT fudeu com a Bahia assim como ta fudendo Fortaleza”, “esse é o BraZil do PT”, “PT nunca mais”, “Quem manda votar no PT”, “O pessoal do PT costuma ler Marx demais. Assim fica mais fácil alienar o povo”, como estas retiradas dos comentários no site.

Gente!, o problema não está no PT, afinal de contas se puséssemos todos os projetos idealizados pelos partidos, se lêssemos todos os documentos que os regem, o Brasil seria perfeito. Seria preciso até fazer uma espécie de vestibular para os estrangeiros entrarem aqui, porque todos iriam querer vir para cá. Acho até que seria preciso fazer uma Muralha para o Brasil. Seria o céu; o inferno seria o Iraque, os EUA, o Afeganistão, a França, a Coreia, por exemplo. Mas não é o caso. O problema está no próprio povo brasileiro (com suas ressalvas), pois não consigo pensar em povo brasileiro sem pensar em políticos e eleitores, sem partidos e sem propostas, sem corrupção e sem políticos honestos e com boas intenções. - Não nos esqueçamos que político também é povo brasileiro. - Mas, como se diz que de boas intenções o inferno anda cheio, talvez seja por isso que muitos de nós não acreditam mais no governo e esquecem-se das mazelas do governo anterior e brevemente em quem votou.

Não vou defender político A ou B e muito menos o governador Jaques Wagner, que precisa provar ser melhor do que o grupo carlista, imperador por décadas no estado baiano, e deixou seu vírus com o DEM(o). Alguém esqueceu que muitos vídeos mostrando uma Bahia virtuosa, senão um paraíso, já eram mostrados no governo de César Borges, de “a-acm salvadooooooooor, a-acm meu amooooor”, Paulo Solto (não necessariamente nessa ordem)? O fato é que os três governadores anteriores a Wagner - nem falo dos outros porque eu ainda era muito criança –, tal como o próprio, construíram sim alguma coisa, deixaram de levar aos baianos outras centenas de ações, mostraram vídeos embelezados por uma retórica pró-voto e fincaram o Estado a tantos anos de atraso e lentidão. A prova disso se vê com o metrô de Salvador.

Por outro lado, quando se atribui a culpa generalizada ao PT, se esquecem que o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB) - que não é PT – mostrou uma “cidade maravilhosa” para a candidatura da capital carioca nas Olimpíadas de 2016 e escondeu uma cidade da violência capaz de abaterem helicóptero militar, por exemplo; esquecem-se que José Serra do PSDB (que não é PT) governa o estado mais rico do país, mostrando uma SP perfeita, mas não conseguiu reduzir os problemas na área de saúde e segurança, diminuir o crime provocado pelos menores com a Fundação Casa/FEBEM, melhorar a qualidade do ensino e reduzir a violência na escola, combater o tráfico - ao contrário do que seus vídeos mostram.

De 27 cadeiras de governador no país (incluída a do DF), apenas 5 (Acre, Bahia, Pará, Piauí e Sergipe) têm representante do PT, contra 9 do PMDB, sem citar outros partidos. Pergunto: em qual(ais) destes estados podem ser veiculados vídeos capazes de representar a realidade da administração do governo sem que se possa notar as mazelas ocultadas por eles? Nenhuma, certamente. O que não vale é atribuir ao partido X nem a Y a culpa de uma administração mal qualificada – por exemplo, aquela vista na BA ou no Rio – quando na verdade o descaso parte do grupo político que governa o estado. Se fosse apenas uma questão de partido, o que poderíamos dizer do governo Lula que passou por fortes abalos, crises e escândalos (mensalão, correios, cuecas etc.) perdendo, nestes dois mandatos, quase todos os ministros escolhidos “sabiamente” a quase-dedo? Há quem não admita que o Brasil nunca teve um presidente como este nordestino. No entanto, diante de tantos problemas que não nos carece enumerá-los, qual anterior pode levar políticas para atender a populações desprovidas de ações mínimas em grande números de pessoas? Quem criou antes um projeto de ampliação e implantação de universidades federais e escolas técnicas pelo país oferecendo mais oportunidade e inclusão de jovens? Quantos brasileiros estão com nível superior ou obtendo? Obviamente quantidade não é mesmo qualidade, mas, levando em conta a “boa vontade” da qual falei antes “enchendo ou não o inferno”, percebe-se que o problema não está no partido, mas na conjuntura política do país e de suas unidades federativas, cujos eleitores reclamam, criticam, esquecem, comparam, abominam, julgam, particularizam demais, generalizam sem refletir e acabam esquecendo-se - também – de três pontos importantes: a) são eleitores e responsáveis por levar candidatos ao poder como Wagner, Aécio, Maluf, Cabral, Yeda Crusius, Serra etc.; b) são passíveis de serem candidatos como qualquer cidadão que goze de direitos eleitorais; c) têm o voto como ferramenta de poder para mudar a realidade.

Uma coisa é certa: enquanto continuaremos não vendo o voto como importante mecanismo de poder, que só funciona coletivamente para mudar a realidade política do Brasil, eles vão continuar usando a linguagem - seja ela em forma de vídeos ou em outra materialidade - como um importantíssimo mecanismo de poder que, silenciosamente, vai apagando memórias e construindo outras, quando, de fato, o objetivo é continuar nos enganando. Atentemo-nos para isso e evitemos, pois, as reduções de leituras políticas ou as generalizações sem fundamentos, porque é isso que muitos querem: que continuemos medíocres por toda a vida.

domingo, 11 de outubro de 2009

A uma dama, abre-se até a porta de um fusca

E quem disse que abrir porta de carro para uma dama é cafonice?

Andava eu meio desatento numa destas ruas tímidas da cidade luminosa de São Carlos. Ainda era cedo se levarmos em conta que às 19h não é hora para se encher os bares no sábado à noite! Mão única numa rua não muito plana. O vento frio levava minhas mãos gélidas aos bolsos do casaco e contrastava com o ar quente que saia de minha boca ‘esfumaçante’.

Brinquei um pouco com isso como um menino que descobre o lado bom do frio pela primeira fez. Em poucos segundos, transpus-me dali a outros lugares, às margens do Sena talvez, na velha Paris, tendo a meu lado uma dessas personagens cinematográficas de filmes de romance fajuto. (Às vezes, quando caminho sozinho à noite, por lugares que não me manifestam algum medo da violência urbana, apresenta minhas divagações).

Um pouco mais adiante, um fusca preto (modelo novo) passou por mim naquela rua calada e parou a dois quarteirões do semáforo, que permitia minha passagem. Vi então um rapaz sair do carro e dirigir-se a outra porta abrindo-a para a saída de uma moça, que segurava sua mão. Inicialmente, imaginei que se tratasse de uma mulher chegando do hospital talvez e devesse ser acompanhada com bastante cuidado. Todavia, notei que se tratava de uma bela moça em traje de cerimônia acompanhada de seu deferente parceiro.

Segui o rumo imaginando o destaque daquela linguagem quase anacrônica se não fosse a importância de sua funcionalidade nas relações afetivas. Obviamente, mandar cartas perfumadas ao outro, puxar a cadeira, abrir ou fechar a porta do carro para a parceira hoje serve apenas como histórias de nossas avós, motivos de piadas e risos e saudosismo de um tempo que não vivemos, mas que permanece no imaginário coletivo, na memória de leituras e de conversas antigas. Deve ter sido por isso que seria mais coerente para mim imaginar que o fato que me chamou a atenção só poderia tratar-se de um caso de saúde, não de um romantismo à moda antiga como apresentou aquele casal balzaquiano.

Num momento em que as notícias sobre violência contra a mulher são mais comuns, se eu dissesse que teria visto um homem atropelando dolosamente uma moça, talvez convencesse mais o leitor; no entanto, acredite, a cena romântica naquela rua pacata foi verdadeiramente um clássico da vida real.

jr