domingo, 7 de setembro de 2008

Apologize para sábado à noite

Sábado pede uma boa noite de descanso, principalmente para quem não tem trabalho domingo. Então, nada melhor que, antes de deitar-se, ouvir Apologize, de Timbaland. Não se deixe contagiar por completo com as imagens do clip por ser meio triste, deixe-se apenas levar pelas batidas e bela canção. Para quem não conhece, Timothy Z. Mosley é norte americano, nascido em 10/03/71, é mais conhecido no mundo músical como Timbaland. Além de cantor, é também compositor, rapper e produtor de R&B e Hip-hop norte-americano.

As informações e foto acima, além da letra, podem ser encontradas nos sites http://www.timbalandmusic.come e http://www.bastaclicar.com.br/MUSICA/historia.asp?id_artista=546 http://letras.terra.com.br/timbaland/954675/

jr

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Curriculum Lattes de Bebéa

Quando alguém me pergunta: de que personagem da literatura brasileira você mais gosta? Não penso duas vezes e respondo: Macabéa. Respeito opiniões contrárias, afinal não conheço todas as personagens da ficção brasileira, mas reservem-me o direito de colocar a maior invenção da figura (des)humanizada de Clarice Lispector no podium. Macabéa provoca, no leitor, um misto de inúmeros sentimentos mais macabros e ternos ao mesmo tempo. Incrível!

A vez primeira que li A hora da estrela, estava ainda na oitava série, e só consegui sentir pena da nordestina que amava os pregos. Depois disso, li no final do segundo grau para fazer vestibular da Ufba. Dessa vez, senti remorsos e culpa quando a personagem foi atropelada, sentimentos que Olímpio deveria ter, e não teve. Mas tarde, li na faculdade - cujo olhar crítico, muito mais preocupado em tirar uma nota boa através da análise, me levou a não sentir nada. Conclusão: Macabéa também desperta sentimento indefinível ou vazio.

Entretanto, hoje, pela primeira vez (podem rir), assisti ao filme A hora da estrela (Diretora: Suzana Amaral e atores: Marcélia Cartaxo, Macabéa, e José Dumont, Olímpio), graças a um amigo que me passou uma cópia.

Com o olhar preso à tela do computador e os ouvidos atentos a cada poesia proferida pela personagem Bebéa (somos íntimos!), não queria que o filme terminasse nunca. Primeiro porque já sabia o destino trágico da doce menina e não queria enxergar a realidade do fim nua e crua. E, segundo, porque eu não estava preparado para encarar um novo sentimento que, certamente, me seria despertado.

Hoje, mais um poesia da personagem clariceana ficou em minha memória. Vou dar o nome de “Currículo de Macabéa” a seguinte fala:

Sou datilógrafa

Sou virgem

Gosto de Coca-Cola

É claro que ela não é só isso, mas esse diálogo resume na essência a sua pessoa. Talvez estas sejam, a meu ver, as palavras que melhor demonstram a consciência de si mesma. Se Macabéa fosse escrita hoje, creio que a poesia seria a mesma, mas quem sabe ela não diria:

Sou digitadora

Sou desvirginada

Gosto de Pepsi Twist

Eu daria o título “Curriculum Lattes de Bebéa”.

Ah, deixe eu dizer, o sentimento que tive ao terminar de assistir à película hoje foi alegria, simplesmente alegria, por saber que Bebéa morreu feliz.

E você, o que sentiu ao encará-la pela primeira, segunda, terceira...vez?

jr

Imagem superior, cena do filme; imagem inferior, capa do romance.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Pra não dizer que só falei das flores

Já deixei claro aqui no Palatus et Colirius, ano passado, que não iria falar de mim até que houvesse necessidade. Não tenho bem uma justificativa específica, mas falar de mim ainda me incomoda; fica parecendo que eu quero aparecer, odeio isso! O fato é que hoje encarei a idéia, um ano depois, de que não existe discurso unicamente objetivo...não existe mensagem separada de quem a produz.

Em minhas leituras despretensiosas sobre discurso, aprendi que a ausência é a denúncia da presença, o obscuro pressupõe a clareza numa relação dialética, o silêncio é o anverso do barulho e assim por diante. Logo entendi a filosofia da coisa: a gente só sente falta daquilo que a gente sabe que existe ou já existiu. Ficou confuso?

Sim, mas o que tem isso a ver com a minha subjetividade no blog? Quando disse que não iria falar de mim, mentira, as pessoas já têm uma certa imagem de mim: mesmo de um modo superficial, fazem idéia do que gosto, do que leio, com quem falo, de onde falo, onde vivo, o que não gosto, se tenho um bom relacionamento com outros ‘bloguistas’ etc. Bem, se nunca viram aqui uma letra de pagode, p. ex., obviamente é porque não tive o menor interesse em discutir nem trazer à discussão uma letra dessa categoria (e há letra?). Pode ser que mais tarde eu mude de idéia – afinal as pessoas mudam de opinião ao longo da vida - mas até agora nada me levou a fazê-lo.

Por outro lado, esse espaço é bastante novo e há muito ainda o que dizer; linguagens e temas não faltam, felizmente. Quando eu achar que não vale mais a pena escrever/publicar por qualquer motivo, farei o mesmo que meu amigo português Ric no ano passado: C'est la vie(Até breve!), e tirarei férias. Entretanto, até então continuo produzindo e publicando, sem pressão e à minha maneira, aquilo que me faz bem e dá sentido à minha vida.

That’s it! - É só!

jr

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Contribuição de Fábio Alexandrino

Numa noite
O seu olhar era coisa fria – brasa apagada (o fogo pra sempre extinto) esquecida no meio da rua, à espera da chuva que o céu prometia. Lição de História Em 1959, meu avô (homem de pedra e Lei, a alma de chumbo) esconjurava os de barba e toda a Revolução de Cuba. Hoje, meu pai, ouriçado de tanta indignação, mas com o olho cego dos homens de seu tempo, esconjura os atuais políticos e a corrupção. Fábio Alexandrino é natural de Feira de Santana, formando em Letras pela Universidade Estadual de Feira de Santana, professor de Língua Portuguesa, Redação e Literaturas. É leitor, sobretudo, de Guimarães Rosa e Graciliano Ramos (ficção nacional) e de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de M. Neto (poesia brasileira). Entre as leituras e o constante trabalho, escreve poesia boa. E-mail: fabioredacao@hotmail.com
Imagem: Estátua de Carlos Drummond de Andrade, in Rio de Janeiro, Brasil.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Boemia pós-moderna

96 diz a 00:01:

... já vivi sim aventuras, e isso, às vezes, não é nada bom porque traz contraventuras.

69 diz a 00:02:

E...?

96 diz a 00:04:

E não espero nada muito sólido, mas estou querendo viver algo melhor... e curtir essa vida em paz.

69 diz a 00:05

Ker ser fliz então...

96 diz a 00:07:

Sim... por que não? trabalhar, ter algum dinheiro... pegar umas baladas, final de semana, não é ruim.

69 diz a 00:08

E o q mais?

96 diz a 00:10:

Beber um pouco de vinho, fumar um cigarro, estar na boemia pra não cair na monotonia da vida... fazer sexo pra não esquecer o prazer que a carne produz nem se acostumar com sua falta...

69 diz a 00:13:

Ainda ñ me respondeu...

96 diz a 00:14:

O que? Eu adoro andar de bicicleta perto da praia no final da tarde. É bom pra exercitar os joelhos...você já fez isso?

69 diz a 00:15:

Fala porra, o que vc curte?

96 diz a 00:16:

Eu? Eu curto a vida à sua medida...a vida, caralho, a vida!

69 sai da sala a 00:20...

jr

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Promessa insana

Quando eu era criança, nem todas as promessas me eram cumpridas, eu vivi sem elas até hoje e não morri; agora adulto ouço todo tipo de juramento, e até me fazem prometer; não prometo que em tudo ao meu amor serei atento porque eu erro às vezes e isso me incomoda tanto...mas não me faz infeliz.

jr

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Happy Birthday, my love!



Aug 5th, 2008

My Love's Day


"I dedicate this rose to my love!"


jr

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Diálogo ingênuo

Diálogo ingênuo


Estava eu a dormir faz algum tempo quando, de repente, senti uma forte dor. Senti um calafrio percorrendo a coluna como se fosse uma injeção de ar. Era a dor da morte! Mas não durou muito tempo, a injeção era mesmo de ar e tinha função anestésica. A sensação era outra: sentia-me como se fosse o próprio padre paranaense Adelir Carli, que desapareceu preso aos mil balões. Todavia, era a sensação de leveza sem nenhum adereço à moda Carmem Miranda.

A princípio, imaginei que estivesse em ares brasileiros. A surpresa era a de Cabral; a vista, colombiana, ambas adaptadas à modernidade. Não era a América, era um paraíso. Cheguei a essa constatação quando comecei a notar que estava aterrissando num lugar muito longe, nunca dantes visitado. Nesse instante, senti meu próprio peso.

Na superfície de um lugar, que vou chamar de chão por não saber o nome, dei uma olhada 360 e vi que tudo estava quase perfeito pra mim. Quase perfeito! Faltava apenas uma coisa: alguém com quem deveria dividir aquele lugar.

Quando pensei em me deslocar, ouvi um ser puro, diferente de todos os seres que já vi em vida. Era Deus, só podia ser. O diabo não poderia ser tão bom!

“Alguma coisa, minha criatura?”

Não consegui falar uma única palavra, estava sentindo um misto de felicidade com alegria... algo inexplicável!

“Não, não... está tudo bem” – respondi.

Minha consciência parecia estar fora de mim, era como se existisse um eu e uma outra pessoa num mesmo corpo. Logo percebi que havia cometido dois pecados: o primeiro se estabeleceu quando disse “não”, a palavra proferida a Ele era negativa; o segundo pecado foi mentir para Deus. Ele sabia que eu precisava de algo. Voltei atrás:

“Sim, meu senhor, eu preciso de alguém para compartilhar este belo lugar. É tudo com que sonhei, e não posso viver tudo isso sem nenhuma companhia.”

“Isso não é possível, criatura amada. Tudo que há aqui é completo e foi feito conforme seus pedidos quando estava lá embaixo.”

“Lá embaixo? Então aqui é o céu?”

“Não, o céu está lá embaixo. Lá está a minha casa, a nossa casa. Aqui está o mundo que pediu só para você.”

“Mas não há com quem possa viver, sorrir, ter filhos, meu Deus.”

Não precisareis de filhos, vós sois as minhas criaturas...

“Disse vós? Mas eu aqui estou só!”

“Sim, aqui você está só porque criei mundos perfeitos conforme você e tantos outros andavam me pedindo. Vejo que já não está satisfeito. Ali está uma porta, criatura, ela dá acesso para o mundo de lá, o mundo coletivo. Se escolher ir para lá, poderá voltar somente uma vez, isso vai depender de sua consciência.”

Minha consciência alertava-me para não questionar a Deus, não desobedecer a Deus, não tirá-lo do sério. Mas eu não podia aceitar.

“De novo não. Você fez o mesmo com Adão e Eva. Não posso escolher, não entro nesse seu jogo”.

Nesse momento eu e minha consciência estávamos falando a sós. Deus havia partido.

Comecei a me acostumar com aquela vida, uma vida quase perfeita. Eu não tinha a noção de tempo como antes. Tudo parecia nada, e nada era o meu sentimento de angústia por saber que estava só. Minha consciência não era uma fantasia, muito menos uma companhia física.

Dirigi-me até a porta e cheguei a pensar duas vezes antes de por o pé do outro lado. Ao me dar conta, já estava lá no meio da sociedade. Andava devagar a fim de perceber com perspicácia cada detalhe daquele novo mundo. Não sentia sede, não tive fome até então, meus desejos haviam-se apagado dentro de mim, sentia-me um espírito puro. Não queria mais ter filhos, não precisava de amigos, não sentia falta de companhias. Eu era simplesmente um ser sem vontades e não sentia falta da vontade, sabia que ali nada me faltava.

As pessoas que viviam naquele mundo falavam todas as línguas que se possa imaginar, e inclusive comigo... e eu as compreendia sem nenhuma dificuldade. Todas as pessoas eram iguais a mim. A vida era uma monotonia, mas não era ruim porque tudo estava em seu devido lugar.

Eu tinha tudo que precisasse e não pagava nada por isso, o dinheiro perdera sua função. Por um instante, pensei até que estivesse de volta a terra, porém a milhares de anos de quando havia sentido a dor da morte. Os homens haviam-se evoluído e pareciam imortais. As pessoas se amavam e não mentiam umas para as outras. Inteligência já não era um valor de distinção entre elas porque em nada se podia comparar...Não havia poder porque o poder estava nas mãos de todos.

Andei mais um pouco por entre os vales e rochedos...sim...havia rochedos e jardins bem preservados compondo a paisagem, e a cidade com suas casas luxuosos preservando arquiteturas medievais. A visão era esplêndida! As relações entre os povos eram diferentes das de outrora. Só existia apenas uma família e ninguém brigava, não havia por que brigar. Não havia mentira porque não havia verdade e não havia verdade porque não havia mentira.

Minha consciência me fez refletir por um milésimo de segundo quando me levou a perguntar a mim: há aqui alguma religião? Eu não sabia ao certo o que era religião, muito menos para que servia. Minha consciência até tentou me explicar que religião tinha o objetivo de “unir as pessoas novamente através de um líder maior”. Mas eu não entendia já que as pessoas ali nunca haviam sido desunidas. Todos ali viviam na eternidade e de nada reclamavam. Os homens e mulheres nada criavam para vender porque sabiam que os outros podiam criar também. As invenções que se conhecem hoje já não faziam sentido no mundo coletivo, já que todos ali se utilizavam apenas do necessário e não sabiam enganar o próximo.

Logo notei que não existia nenhuma criança, nenhum idoso porque ninguém nascia, ninguém envelhecia muito menos tinha que morrer. Aí minha consciência me colocou de prova diante de um tempo criado pela minha cabeça. Minha consciência nada mais era que o resquício de um passado do qual não havia me desprendido de vez. Minha consciência era a minha memória e o meu maior pecado juntos. Quando olhei para trás, avistei a porta pela qual tive acesso àquele mundo. Comecei a voltar e a me recordar de cada passo dado, das colinas, das cachoeiras, do campo, das flores, dos pássaros, pessoas sorrindo inocentemente, os castelos medievais, os animais, o ar puro, a conversa com Deus, a última palavra dirigida a Ele: “jogo”. Lembrei-me também dos meus dois pecados. Enfim, parei no meio da porta e tive dúvidas: não sabia se voltava para o mundo coletivo e monótono ou se entrava no meu mundo quase completo, e isolado. Na minha triste indecisão, ainda vi Deus olhando para mim e balançando a cabeça como se tivesse a dizer: “Minha criatura, nem eu te entendo.”

Acordei com meu cachorro lambendo a minha boca, e eu já não sentia a dor da morte como antes.

By J. Ribeiro


sábado, 2 de agosto de 2008

No meio do caminho há uma pedra para ser tirada

Andei pensando: não vale a pena parar no meio do caminho simplesmente quando há algumas pedras espalhadas. Elas podem até servir de limites, mas o mais agradável é poder olhar por cima dos ombros e perceber como vão ficando pequenas até desaparecerem ao longe.

Essa reflexão pode parecer meio fútil e vazia, porém nasceu da própria condição deste blog. A última vez que postei aqui foi a cinco de janeiro deste ano. Passaram-se exatos cinco meses e vinte e sete dias. Quase seis meses! Durante esse tempo, perdi muito por não ter lido excelentes textos publicados por amigos brasileiros e estrangeiros em seus respectivos sitios. Eis uma lacuna irreparável... peço-lhes desculpas pela ausência. Por outro lado, diversas foram as razões que me levaram a não postar aqui neste período, mas vejo que não vale a pena citá-las. Confesso que a preguiça foi uma delas!

Hoje, ao ler por duas vezes o poema No meio do caminho, do célebre Carlos Drummond de Andrade, só me veio à mente o estado enfermo do Palatus et Colirius. Tinha que retirar a pedra do seu caminho e voltar a postar. Então, para retomar essa nova ‘era’, nada mais justo que começar com a simples (e nunca ingênua) obra de arte do poeta itabirense. É mais um Colirius para curar cegueiras.

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no mei do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

(Fonte:www.algumapoesia.com.br/drummond)

sábado, 5 de janeiro de 2008

Ruschi, um raro beija-flor


Ruschi, um raro beija-flor*

Recriar o paraíso agora para
merecer quem vem depois”
(Beto Guedes)
Os efeitos da Revolução Industrial e de uma sociedade consumidora, no decorrer das décadas, foram, sem dúvidas, as principais causas da agressão à natureza. A extração descontrolada de matérias-primas, durante muitos anos, resultou em danos irreparáveis ao meio ambiente. Porém, só no século XX, alguns pensadores passaram a preocupar-se com os danos provocados pelas grandes devastações ambientais e pelos gases nocivos lançados à atmosfera. É nesse contexto que surge Augusto Ruschi, patrono da ecologia e defensor de uma atuação humana atenta a uma natureza equilibrada. O objetivo maior de seu projeto era, sobretudo, manter uma sociedade capaz de desenvolver-se de forma sustentável.
Augusto Ruschi destacou-se entre célebres pesquisadores do século passado e foi defensor árduo da flora e fauna brasileiras. Lutou incansavelmente pela preservação ambiental e manutenção da vida animal e vegetal em equilíbrio. O capixaba, dentre outros títulos, é conhecido como naturalista, advogado, agrônomo e ecologista. Segundo a literatura a que se teve acesso, Ruschi tornou-se o maior especialista em beija-flores no mundo. Ele contribuiu também com estudos de morcegos, macacos; bromélias, orquídeas, além de ter feito estudos sobre impactos ambientais.
Esse grande cientista escreveu 22 livros, fundou duas instituições científicas (o Museu de Biologia Professor Mello Leitão e a Estação de Biologia Marinha Ruschi) e a Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza dentre várias reservas naturais. Ruschi foi também o idealizador da Agroecologia — ciência através da qual se defendia o desenvolvimento sustentável, ou seja, uma relação ética e justa entre o homem e o meio natural. Pode-se perceber, portanto, que o advogado da natureza sobrepunha à própria ordem de sua época para defender a perfeita relação homem-natureza hoje e amanhã.
Atualmente, ouve-se falar muito em desmatamento e queimadas. Estes problemas iniciaram-se já há muitos anos com o crescimento da população brasileira, aumento do número de latifúndios, intensificação da monocultura e, consequentemente, com a exploração desenfreada de recursos naturais. Nessa perspectiva, foram devastadas grandes áreas de florestas tropicais e equatoriais para dar lugar a novas cidades, além de terrenos para a prática da agricultura. Em decorrência do desmatamento nestas áreas florestais, outros impactos ambientais foram surgindo e se intensificando, dentre eles, a desertificação.

O desmatamento rompe o equilíbrio ecológico resultando em diversos impactos ambientais. Um dos que se tem notado é a desertificação, termo dado às áreas que, antes ocupadas por florestas, transformaram-se em áreas inférteis. Os fatores que contribuem para a desertificação estão, na maioria das vezes, relacionados à ação humana, tendo em vista o uso intensivo da terra para a agricultura, pecuária e outras atividades. A transformação dessas áreas atinge, geralmente, tanto regiões úmidas quanto semi-áridas. Por outro lado, as conseqüências correspondem à redução da biodiversidade, desgastes do solo por ora explorado pelo homem, transferências de pessoas do campo para a cidade e, atrelada a este fator, o desemprego iminente.

Outro preocupante problema ambiental, e que hoje é discutido no mundo inteiro, é o efeito estufa, cuja causa é manifestada com o aumento de CO2 na atmosfera. As queimadas realizadas por diferentes culturas ou até mesmo a transformação de áreas florestais em pastos, bem como o aumento do consumo de combustíveis fósseis, vêm afetando a qualidade dos recursos naturais disponíveis para a sobrevivência humana na Terra.

Nota-se, portanto, que o aumento da temperatura global, sobre a qual a mídia tem dedicado sua atenção com bastante ênfase, é nocivo à sociedade. Tal ocorrência mundial pode gerar mudanças drásticas no comportamento da natureza. A sociedade possivelmente terá que mudar de postura diante de uma nova ordem estabelecida pelas condições físico-climáticas da Terra, caso contrário, pagará um preço bastante alto, isto é, com a Vida.

Responsável por fornecer alimentos para a humanidade há séculos, a agricultura foi também um dos fatores que impulsionaram o rompimento do equilíbrio ambiental. No decorrer dos anos, novas técnicas de produção de alimentos foram implantadas para suprir a população mundial. Os avanços tecnológicos no campo proporcionaram o aumento na produção alimentícia. Entretanto, a utilização intensiva de produtos químicos na agricultura provocou a contaminação das águas e do solo, caracterizando um dos principais impactos do homem no meio rural.

Nesse contexto, os defensores agrícolas causam danos à saúde dos trabalhadores, provocam a contaminação de alimentos, contribuem para o aparecimento de pragas mais resistentes a tais pesticidas e afeta, sobretudo, a diversidade biológica. Diante de todas as questões acerca da temática, pergunta-se: o que fazer para conciliar os novos processos tecnológicos e a necessidade de consumo do homem com a conservação do ambiente? Foi atento a esta e outras interrogações que Augusto Ruschi, no campo da Agroecologia, apontava em seus estudos científicos o perigo dos agrotóxicos e os impactos da monocultura.

Por volta da década de 70, surge uma nova ciência multidisciplinar que visava uma harmoniosa relação entre a produção de alimentos e a conservação do meio ambiente, não a disputa entre eles. Anna Elisa Nicolau dos Santos em seu artigo Agroecologia: Respeito à Terra define-a como “um sistema de produção que procura imitar os processos como ocorrem na natureza, evitando romper o equilíbrio ecológico que dá a estabilidade aos ecossistemas naturais”. Nesse sentido, a Agroecologia leva em consideração a propriedade agrícola como um todo e busca uma interação entre todos os seres vivos. Tal ciência defende o cultivo de alimentos de forma natural – sem a utilização de agrotóxicos – com o objetivo de se chegar a uma agricultura sustentável. Com a atuação da Agroecologia, garante-se a preservação do solo, dos recursos hídricos, da vida silvestre e dos ecossistemas naturais, sem interferir na segurança alimentar. Augusto Ruschi, além de sugerir uma agricultura sustentável baseada nos princípios deste campo científico, mostrou que é possível sim aliar o progresso com a conservação do patrimônio natural.

Contudo, restam-nos outras questões: existe mesmo desenvolvimento sustentável? A humanidade está preocupada com os efeitos do “progresso”? Estas dúvidas estão presentes no cotidiano da sociedade. Hoje se sabe que países emergentes como Brasil, China, Índia — cujo sistema econômico visa apenas ao lucro sem muito se preocupar com os impactos futuros — devastam milhares de hectares de florestas ou as inundam com construção de hidrelétricas, expulsando inúmeros animais de seu habitat. Os EUA e o Japão correspondem aos países desenvolvidos que mais consomem os recursos naturais e poluem a Terra. Para eles, o importante é apenas lucrar, crescer economicamente, todavia esse ideal é sem dúvida o principal causador da destruição da biodiversidade. Isso torna a relação humana conflituosa com o meio em que se vive, ficando cada vez mais difícil desenvolver e preservar simultaneamente.

A natureza fornece-nos recursos para a sobrevivência: alimento, energia, combustível, água, oxigênio etc. O homem, no intuito de crescer comercialmente, ignora a importância de se conservar o meio. O desenvolvimento dos países em nível industrial e tecnológico é de grande importância para a humanidade, pois promove empregos e fornece produtos. Contudo, esse progresso ilimitado durante muitos anos resultou no desequilíbrio, causando danos irreversíveis ao meio ambiente e, consequentemente, ao próprio ser humano.

Com amor à natureza, o “beija-flor” Ruschi lançou no mundo a semente da conservação ambiental, mostrando que pode haver desenvolvimento conciliado à sustentabilidade ecológica. Mas hoje, 21 anos após a morte deste ilustre homem, nos questionamos: quando iremos adotar suas idéias sócio-ambientais e conservacionistas? Quantos animais terão de ser extintos, quantas florestas terão de ser queimadas e quantos rios terão de secar para o homem ter consciência da gravidade de seus atos? Precisamos mudar a nossa postura e adotar medidas de desenvolvimento que levem em conta a preservação da natureza e supra as necessidades atuais sem comprometer as futuras gerações. Assim faremos germinar a semente plantada por Augusto Ruschi - um beija-flor num universo de tantos pássaros - e conciliaremos o progresso com o respeito ao meio ambiente, tornando o projeto do Patrono da Ecologia Brasileira em ações e dando continuidade ao desafio de progredir sem destruir. Enfim, é necessário que nós humanos nos portemos como o beija-flor da fábula. Por mais difícil que seja controlar as chamas desse incêndio (a destruição), é preciso que tenhamos consciência de que não iremos solucionar sozinhos os problemas do mundo, mas o importante é que nós façamos nossa parte...
Feira de Santana, agosto de 2007.
*Esse texto foi produzido por Emile Caroline Silva Lopes, estudante do 2º ano do Ensino Médio do Instituto de Educação Gastão Guimarães (Feira de Santana-BA) e orientado pelo Prof. Jocenilson Ribeiro na ocasião em que ministrava o curso de redação pelo Núcleo de Estudos Canadenses (UEFS). O texto foi construído a partir do tema AUGUSTO RUSCHI PATRONO DA ECOLOGIA BRASILEIRA indicado para o 13º Prêmio Nacional Assis Chateaubriand de Redação/Projeto Memória - Fundação Banco do Brasil.