"Andei pensando em alguma coisa,
mas preferi me calar;
então me pus a pressionar
algumas teclas
porque há algo em mim
que não para de pulsar
e até agora isso ainda
me inquieta."(Jocenilson Ribeiro)
Em exatos 2 anos e 3 meses completados há uma hora, o Palatus ganhou este selo muito especial. Não me atenho a aniversários. Quando lembro comemoro, quando não lembro, não me culpo por isso. Para alguns, isso é falta de educação, para mim isso é falta de atenção. E sou desatento mesmo. Bem, como nosso amigo Rubinho Lima, editor do Conversas do Sertão, nos concedeu essa proeza, nada mais justo que comemorar essa data e agradecer a ele e aos amigos que por aqui passam palatando.
Segundo regem as normas dessa premiação, o editor do blog indicado deve:
1º - Exibir a imagem do selo "olha que blog maneiro";
2º - Postar o link que o indicou;
3º - Indicar 3 blogs de sua preferência;
4º - Avisar a seus respectivos editores;
5º - Publicar estas regras;
6º - Conferir se os blogs indicados repassaram os selos e as regras.
Diante dessas regras, senti-me na berlinda e com o coração partido porque devia escolher somente três blogs. Então, resolvi também criar minhas 6 regras:
Como em premiação, existem aqueles que sempre empatam e nos apertam o coração por não entrarem na classificação, eis os dois que me fizeram me sentir injusto:
Faz muito tempo que não entro em salão de beleza. Nada contra a instituição de estética, mas, por costume doméstico, acabo sempre indo a salões com outra denominação quando o objetivo é cortar o cabelo.
Desde menino, fui encaminha ao cabeleireiro ou barbeiro, e, a este último, constantemente acompanhando meu pai que resolvia dar a cara para um tal de Zeca passar-lhe a navalha. Serviço completo, autorizava meu pai.
Menino, às vezes, pensa em muitas besteiras e, como eu não era diferente dos adultos, andava matutando umas ideias meio loucas, do tipo: “e se o cara escorrega a mão na espuma e acerta um corte no meio do queixo de meu pai? E se ele fizer de propósito?” Arrepiava-me. Não faziam sentido meus pensamentos, mas, como se diz por aí, mente fazia é oficina do diabo.
Cresci acompanhando meu pai nessa rotina que gerava um custo definido no orçamento. Sempre um fim de semana do mês era reservado ao cuidado de si e de mim, geralmente ao sábado. Pendura a conta aí, Zequinha, final do ano eu pago, brincava. Era uma mixaria naquela época.
Depois que a gente cresce, estas marcas de afeto se dissolvem. Paga-se com o próprio dinheiro, escolhe-se salão, cabeleireiro, babeiro, clínica de massagem e estética. Os nomes mudam, os valores também; outros conceitos se cristalizam na memória do povo.
Mas, hoje, depois de um mês de labuta diária sem parar um pouco para descansar, sentei-me diante da TV: gripe suína, doenças contagiosas, piolhos em crianças, caspas, micose, pele limpa, bronzeada, sujeira, sabonete, condicionador, festas, gente bonita, modelos, fotos, atores... enfim, minutos depois, me senti sujo, doente, peludo, feio e mal tratado.
Dirigi-me ao banheiro e, em frente ao espelho, não me reconheci. Sem camiseta, num segundo, imaginei-me uma fonte de bactérias, um porco selvagem. Pelos no peito, unhas grandes, barba enorme, cabelos esvoaçados e duas entradas mostrando a incoerência de minha idade com a iminente calvície. Chega um tempo que não dá para disfarçar jogando um resto de cabelo para frente, e, se forem crespos, pior ainda, eles não ajudam no disfarce.Então, com essa onda de gripe suína, pensei: “Nesse situação, posso ser confundido com o transmissor primário. Tenho que dar um jeito nisso logo”.
Eu sabia que perto de casa não havia um cabeleireiro ou barbeiro sequer, e me deslocar até o centro da cidade, tendo que pegar condução, me tomaria muito tempo, e o custo seria mais alto nestas circunstâncias. Lembrei-me então de um salão situado a três quarteirões de meu apê onde uma senhora acostumava a atender sua clientela.
“Será que tem vaga pra mim?”... Se não tem tu vai tu mesmo, eu disse, avistando a inscrição em letras garrafais no toldo: SALÃO UNISSEX. Com um pé na calçada e outro na porta, preparei-me: “Boa tarde! A senhora corta cabelo de... quanto?” - Assim mesmo, com o intervalo destacando as reticências. Obviamente não era essa a pergunta, mas mudei sua estrutura sintática tentando sair pela culatra. Não ficou muito boa, mas me salvei dessa.
“Entre, meu filho. Como deseja o corte?”
Com a resposta dessa pergunta, percebi que a cabeleireira poderia estabelecer dois objetivos. Primeiro, definir o preço; segundo, induzir-me a cortar somente o cabelo, afinal ela falou em corte.
Sentei-me imediatamente frente ao espelho por onde notei duas mulheres, sentadas ao fundo olhando as minhas costas. Olharam-se! Concentrei-me inspirando e expirando como quem cumpre os comandos de um médico que nos ausculta devagar. Pouco depois, percebi que uma das mulheres era manicure, quando, num grito assustador, uma reclamou atirando um tapa na outra: “ai, vá fazer bife no açougue de sua mãe”. Senti vontade de rir, mas contive-me, afinal estava a cabeleireira com uma navalha apontando para minha orelha.
Para minha surpresa, num piscar de olhos, meus pelos estavam no chão, e as duas entradas, na testa, menos marcadas, embora minha barba estivesse intacta. Lembrei-me de meu tempo de menino e vi meu pai esperando que o barbeiro cobrisse de espuma quase o rosto inteiro à moda Papai Noel.
“Como gosta da costeleta, meu filho? Ei, tô falando com você... como gosta da costeleta? Grande, média, pequena?” – disse a senhora do salão.
Voltei-me no tempo, e respondi: “Ah, desculpa, assim está bom. Em casa, eu acerto quando for fazer a barba”. E, através do espelho, notei um senhor de meia idade entre a porta e o passeio.
“Pois não, posso ajudá-lo?”, perguntou a manicure.
“Vocês cortam cabelo de homem?”
Antes que a menina formulasse uma resposta afirmativa, a cabeleireira girou a cadeira onde eu estava sentando e, olhando nos meus olhos, perguntou: “Esse cabelo que acabo de cortar é de homem ou de mulher, meu filho?”
Respondi-lhe: “Certamente sou homem, senhora”. E ela concluiu dirigindo-se à porta: “Pergunta idiota não vale resposta”.
Fiquei confuso com essa afirmação, uma vez que eu não sabia se ela se referia à sua própria pergunta ou à daquele senhor, que já havia desaparecido do recinto. Notei um silêncio, mas logo notei a senhora voltando: “Outro dia, veio um homem todo feio, fedorento, peludo, e me pergunta: corta cabelo de homem, coroa? Não gostei desse COROA, mas respondi a ele que sim, que cortava. “E faz o serviço completo, FOFINHA? Como assim serviço completo? Claro que não! Expulsei ele do meu salão.”
Enquanto passava o espanador de penas sobre minha camiseta, disse apontando para mim com uma tesoura: “Olha pra mim e diga se tenho cara de COROA ou de FOFINHA? A gente precisa se impor. Se a gente não se impõe, meu filho, esses homens tiram a roupa aqui mesmo no meio do salão e esperam que a gente raspe tudo.”
Sem dizer-lhe uma palavra, tirei vinte reais da carteira, entreguei-lhe e dobrei a esquina.
Já em casa e em frente à TV desligada, comecei a refletir. Serviço completo, na época de meu pai, correspondia a cabelo e barba. Hoje, os conceitos mudaram de sentido ou não fazem mais sentido certos tipos de pergunta?
Faz algum tempo que não posto aqui uma música que nos toca o coração, a pele, a voz, os olhos... Geralmente, escolhia a sexta-feira para postar este tipo de linguagem. Primeiro porque sexta é o portão do fim de semana e parece que a rotina, para muitos, fica mais dissimulada; segundo porque gosto da sexta-feira mais do que outros dias - já disse isso antes e não me canso. Por essas duas razões, penso que qualquer canção cantada por Vander Lee abra esta primeira noite de fim de semana de setembro.
Mas quem é Vander Lee?
Cantor e compositor mineiro, nasceu em 1966. Seu nome de registro é Varderli Catarina, mas preferiu reconstruir seu primeiro nome e dar-lhe um toque artístico estrangeirado. Já tem alguns aninhos de pé na estrada, cujas gravações datam de meados dos anos 80. Opa! Falando assim, parece fato histórico de livro didático. Bem, o fato é gravou com grandes nomes da música brasileira como Nando Reis e Zeca Baleiro. De seu repertório, temos a oportunidade de ouvir música romântica, samba, rock, além da poesia pura que marca as canções. De uma coisa é certa: difícil ouvir suas canções e continuar o mesmo. Poesia é a arte que nos lapida e nos transforma a partir da catarse, e essa música tem essa função libertadora.
Perdão, Vander, por resumir em duas linhas sua vida e trabalho... Vale que te escutemos - isso já nos basta.
Professora se exibe em festa da banda O Troco, na Bahia, e a sociedade cai em cima da coitadinha a pauladas verbais em pleno século XXI; isso porque teve sorte ao fugir das pedradas.
Uma professora de educação infantil, licenciada em Pedagogia, depois de apresentar uma performance dançando a música “Todo enfiado”, em junho deste ano, acabou perdendo o emprego por não servir de exemplo para a educação brasileira, como argumentam as más línguas. Eis mais uma prova de que a corda quebra sempre de um lado, o do mais fraco. No caso da professora, não foi de fato uma corda, mas um fio dental esticado pelo cantor pagodeiro que quase a fez dançar na boca da garrafa.
O século das luzes
Escuta-se muito a expressão “em pleno século XXI” em diversas situações em que se referem aos problemas sociais do mundo inteiro. Tal expressão parece marcar uma mudança de perspectiva do olhar do homem sobre o meio, avanços na tecnologia, novos comportamentos, valores, postura; estrutura midiática muito mais avançada, defesa da liberdade sexual, respeito às diferenças etc. Mas poucos se dão conta de que não houve nenhuma ruptura gritante do século passado para este capaz de marcar a história e inaugurar um novo mundo... talvez a derrubada das Torres Gêmeas tenha sacudido a mídia e gerado alguns burburinhos sensacionalistas, fora isso, nada mudou. Os problemas persistem, os políticos não se entendem, nova gripe aparece, a crise se repercute, Michael Jackson continua vendendo, e o pagode permanece empregando uns e desempregando outros. Educar que é bom, nada!
Se este século XXI é o do puritanismo social é também o da hipocrisia, não o das luzes; se estamos na época do “pode tudo”, é também o das limitações, proibições, censuras. controles .Se aplaudimos a lei da liberdade de expressão, condenamos a expressão livre do corpo nos estilos pagode funk ou forró eletrônico quando há uma pobre que dança de graça; se um destes gêneros musicais usa uma letra (quando há letra) capaz de depreciar a imagem da mulher e deseducar as crianças brasileiras, ninguém reclama, mas se uma professora em seu horário de “recreio” usa o corpo pleiteando um mísero espaço de fama entre os amigos, é exposta ao ridículo e perde seu “ganha-pão”. São incontáveis as pessoas que dão audiência e pagam bem o pornopagode para verem as dançarinas (e os bailarinos) apresentarem suas performances exibindo seus corpos quase nus. As festas de pagode, funk e outros estilos similares estão sempre lotadas pelos mesmos que acham inoportuno uma pessoa subir num palco e se expor como fez a professora. Reação desse tipo só nos mostra o quanto há pessoas hipócritas, dementes e, no mínimo, contraditórias na sociedade.
A imagem do santo professor
Um acontecimento inusitado que expõe a pedagoga ao ridículo e ganha espaço na mídia impressa e televisiva só serve para duas coisas: 1) dar pontos em audiência a esta mídia que não tem se preocupado com a informação educativa aos jovens; 2) dirigir a atenção das pessoas para uma questão fácil de se resolver na educação: demissão do profissional que não consegue ser santo. Não ganhamos nada com a dança da pró e nem perdemos, ela foi quem dançou... e dançou duas vezes. Mas será que perdemos alguma coisa quando encontraram dinheiro na cueca de ex-assessor parlamentar? Prosseguimos...
Bastou-se saber, através do You Tube, do feito da prozinha que logo deram um jeito de substituí-la... certamente porque não sustentou a imagem esperada pelos membros da escola nem pelos pais. Será que o que ela aprendeu em 4 anos de graduação não conta mais, foi tudo por água abaixo? Será que ela ensinava às crianças e à sua filha a dança do “Todo enfiado”?
O professor é um santo no Brasil, não pode errar nunca, e ganha muito bem por isso. Professor não dança, não fuma, não bebe álcool; professor não faz sexo, não xinga, não vai a festas; professor não pode vestir uma roupa diferente do seu guarda-pó, professor não é gente. O professor brasileiro ganha muito bem para sustentar essa imagem, só lhe falta uma coisa no seu Estatuto do Magistério: um espaço no céu, já que ele é santo, e, em seu currículo, estão todas os sermões para salvar essa sociedade. Por outro lado, para formar uma banda de pagode nem é preciso estudar (muito)... Estudar pra quê, dirão os adolescentes? Basta ter criatividade e “visão de negócio” para produzir percussão, montar uma coreografia que represente atos ou posições sexuais e rabiscar no papel algumas palavras referentes ao corpo físico da mulher e do homem bem como tais posições... ah, e dá um título à música, como “Todo enfiado”.
A corda mais forte
Mas voltemos ao outro lado da corda. Enquanto pais hipócritas exigem que uma professora seja expulsa de seu trabalho acusada de não servir de exemplo para a educação de seus filhos, estes mesmos pais podem ser políticos, empresários, enfermeiras, militares, cantores, médicos, engenheiros, pedreiros, motoristas, manobristas, jornalistas, pastores, advogados etc. que, diariamente, percebemos que, em diversas ocasiões, também não servem de exemplos aos jovens. - Educação se começa em casa, dizem por aí! - Não nos esqueçamos que a tal professora lecionava em escola privada, rede onde boa parte dos filhos da elite brasileira estuda.
Quantos políticos respaldados no discurso da política limpa e da democracia brasileira estão envolvidos com a corrupção e a lavagem de dinheiro público? Quantos empresários sonegam impostos ou criam empresas-laranja para alimentarem o contrabando nacional e internacional de mercadorias ilícitas? Quantos médicos e enfermeiros já foram cúmplices no roubo de bebês em hospitais quando não cometeram outros crimes, por exemplo? Quem nunca ouviu falar de crime organizado no Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia , Pará e outras capitais envolvendo militares? Quantos advogados estão envolvidos em organizações criminosas, corrupção, tráfico de influência, tráfico internacional de drogas? Quantos padres e pastores já cometerem o crime da pedofilia quando não outros? Enfim, quantos pais e mães neste país não cometem e cometeram algum erro capaz de envergonhar a sociedade e deseducar as crianças?
O buraco é mais embaixo
Está mais do que na hora, neste século XXI, de pararmos de atirar a pedra nos pequenos e juntarmos as pedrinhas, contabilizando nossos erros e os de muitos profissionais responsáveis pela estrutura educacional do país. Está na hora de começarmos a não dar audiência aos estilos musicais cariocas, paulistas, baianos, pernambucanos, cearenses, gaúchos que deseducam os jovens, que ridicularizam a imagem da mulher brasileira, que sustentam, em seus discursos, a vulgaridade do exotismo brasileiro, e que promove um turismo sexual, economicamente, muito lucrativo. Está na hora também de o Ministério da Educação e o da Cultura (antes um só Ministério) desenvolverem políticas capazes de fazer da música um meio de emancipação dos indivíduos - que não têm pensado mais sobre seus conteúdos, mas apenas os absorvem e dançam, como a professora que acabou dançando não mais na boca da garrafa, mas na garrafa inteira. Se o MEC tem controle dos livros didáticos sobre seus conteúdos bem como o currículo dos cursos de educação básica e superior, por que os Ministérios da Cultura e da Comunicação não passam a acompanhar mais de perto a funcionalidade da música e, da mesma maneira o papel da mídia de modo geral? Ah, perdão, esqueci da Liberdade de Expressão - tão cara a esta sociedade santa!
Sempre soube que, durante o percurso de minha luta, haveria pedras no caminho e flores às margens. Quando as pedras acertavam meus pés, eu sentia dor, mas logo o perfume das flores me curava. Quando as pedras eram grandes nas ladeiras, eu as usava para descansar um pouco – ou sentado sobre ela ou de pé - enquanto mirava o horizonte preenchido de margaridas.
Percebi, então, que as pedras no meu caminho só tinham dois destinos: ficavam paradas, imobilizadas, ou rolavam-se sempre para baixo, deixando o meu caminho livre – elas, apesar de serem mais duras que as flores, não têm força de vida. As flores, ao contrário, são diferentes: perfumam meu caminho e embelezam meu horizonte. Isso só me deu e ainda dá força para continuar o rumo.
Eis porque devo escavar as palavras... e o farei a golpe de enxada se necessário, já que nessa arqueologia do saber, tenho vontade.
O que, para muitos, a atividade escrita serve apenas para representar pensamento, tramitar atividades oficiais ou preencher pastas e arquivos, para mim é muito mais que isso. Considerações desse tipo reduzem a palavra a mais insignificante função, uma vez que, dessa forma, se poderia substituí-la por qualquer outra coisa capaz de expressar ideias, o que não é o caso.
Hoje, com as inovações técnico-científicas, cuja virtualidade do dizer adquire uma nova forma de relações humanas, a palavra, o discurso, o pensamento, os conceitos, as ideologias, os enunciados, as relações de poder... tudo isso simplesmente adquiriu novos sentidos e fez a língua do homem ser revestida de mais valor, embora poucos são os que pensem assim. Mas a palavra é o fenômeno ideológico por excelência, já dizia o russo Mikhail Bakhtin no início do século passado.
Certa feita, ao me ver defendendo a palavra como instrumento-saber privilegiado entre as diferentes formas de relações sociais, um contador de história oficial me perguntou com tom irônico:
- Mas o que é que vocês linguistas veem tanto nas palavras que os outros não conseguem e vivem dizendo, desdizendo, remontando-as, escavando-as a golpe de enxada?”
Respondi-lhe:
- Queremos descobrir a história dos homens, essa história que você conta, queremos ver os homens, dar-lhe sentido em seu tempo... queremos ensinar os homens a ler o saber, a sentir o sabor, não procurando o conhecimento em cada palavra solta nos dicionários, mas observando o modo em que elas foram arranjadas e acorrentadas pelas mãos de quem a teceu nos mais diversos gêneros.
- Achei bonito isso, mas não entendi, disse ele.
Foi quando concluí:
- O bonito que você destaca faz parte da arte do dizer, do modo como eu disse e como você as vê; mas a compreensão só é possível quando se passa a tomar o texto não como representação de meu pensamento, de uma história aquém das palavras, mas como o próprio pensamento, a própria história construída por mim, por ti e, sobretudo, com arte e saber.
Queria dizer com isso que a vontade de saber (utilizando-me da expressão do filósofo francês Michel Foucault) se faz pela linguagem, e a palavra, nesse aspecto, adquire um status com e através da qual, senão na qual, se luta, se dita, se cumpre, se mata, se vive. Diante disso, não consigo pensar sem que não me venha as palavras assim como nada compreendo se elas não estiverem ao meu alcance, e garanto que um indivíduo que nasceu desprovido das faculdades para o domínio da palavra escrita ou oral consiga pensar sem que possa ter outro meio capaz de relacionar-se com o outro e fazer-se entender e produzir sentido.
Logo, a escrita, a meu ver, é uma arte que, em se tratando de relatar uma composição farmacológica ou um romance de grandes aventuras, por exemplo, se define pelos indivíduos que a manipulam. Não há homens sem palavras (ou qualquer outro material semiológico), não há história sem homens, assim como não há história separada das palavras. Os três são indissociáveis para o que se concebe como entendimento humano. Por essa razão, é preciso espalhá-las no mundo como quem semeia sementes de girassóis para que os herdeiros de nossos genes aprimorem nossos grandes feitos, mas jamais levem consigo as cinzas da ignorância que acabem pairando sobre os escombros desse tempo.
ANTES que me acusem ou atirem a primeira pedra, defendo-me: não conheço nada de música, mas sei o mínimo necessário para identificar som, melodia, ritmo ou letra que tenham sido bem trabalhados. Pra mim, avaliar se uma arte é boa ou ruim é uma questão que precisa, entre outros quesitos, verificar forma, contudo, expressão, técnica e, sobretudo, capacidade de transformar os interlocutores. Por que essa minha retórica “fora de cena”? Porque faz 52 dias que não ouço pagado, arrocha ou outro estilo similar tocados na BA. Não disse que não há outro ritmo, mas estes se sobressaem devido ao fato de ali ser o grande nascedouro.
MAS hoje, pertinho de casa, Praça XV de novembro, São Carlos, entre as 16 e 19h, tive a oportunidade de reviver algumas composições musicais clássicas do Chorinho e do Samba, além de outras canções folclóricas. Na oportunidade, três grupos de músicos - DóBemol, Cortesia da Casa e Formigueiro – formados por estudantes e professores de música da UFSCar apresentaram-se gratuitamente canções do samba e choro. O objetivo foi, antes de tudo, comemorar o dia do choro que ocorre em 23 de abril.
NA oportunidade, pude ouvir composições de Chiquinha Gonzaga, Cartola, Pixinguinha, Sivuca, Chico Buarque (vivo) e outros me fizeram fazer uma ponte entre cantores imortais e alguns fazedores de funk carioca, ou arrastadores de trio que esbanjam sucesso e dinheiro nos carnavais baianos.
PERGUNTEI-ME nos intervalos entre a apresentação de um grupo e outro: que legado musical estes cantores deixarão a fim de que mais tarde, quando não estiverem mais aqui, revivam seu repertório pra fazer-lhes uma digna homenagem? Talvez Pagod’Art, Pisirico,Parangolé, bem como funkeiros e arrocheiros espalhados por aí deixem seus repertórios pra que seus admiradores as usem em praça pública, e não as enterrem junto. Ou será que o “Dói um tapinha não dói” ainda sobrevive?
ENFIM, esse domingo à tarde não poderia ser melhor pra os transeuntes da Praça XV, local em que muitos pararam de pé ou sentados pela grama pra assistir aos três grupos. Músicos e públicosforam movidos por melodias que, por muito, vão se manter em nossas memórias, porque dizem alguma coisa que nos toca e a alma.
jr
(Imagem: capa da Enciclopédia da música brasileira: choro e samba, de Zuza Homem de Mello, 1a. ed. Publifoha:2000)
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