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sábado, 11 de junho de 2011
Amor sem I love you...
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terça-feira, 17 de maio de 2011
Oh Deus da palavra bélica!
Oh Deus! Por que fizeste de nossas línguas o instrumento da inglória? É culpa tua, Deus, que as confundiste... que permitiste que houvesse tantas línguas quando os homens subiram a maldita torre da discórdia... Agora dá nisso, Deus: a palavra é bélica, por tua causa! Oh homem onipresente, por que não deixaste as coisas como estavam caminhando, subindo, andando, caminhando? Sentiste pena dos homens e meteste as palavras em suas bocas? Por que não deixaste o homem chegar aos céus com seus grunhidos? Oh Deus, só pode ser culpa tua! Eu tenho certeza que aqueles nossos ancestrais, aqueles pais de nossos pais, de nossos pais, de nossos pais que se comunicavam com uma língua só [a bela língua, a língua pura, a mais culta, a divina e santa língua pura]... eu tenho certeza, Deus meu, que quando eles fossem subindo, subindo, subindo, subindo... e de lá do alto, quando menos percebessem, se espatifariam todos no chão em queda livre, e tudo estaria resolvido, porque eles voltariam ao pó esmigalhados. Sorte a tua, Deus, que não deste asas a estes homens ingloriosos, senão até tu estarias ferrado. Agora, só me resta culpar-te com estas palavras, oh Deus santo... Culpo-te, infelizmente, culpo-te porque sou gente, culpo-te porque foste tu, somente tu, que inventaste essa história de dar a palavra ao homem... com ela, tu o fizeste gente... que fala, que caga... não late, mas mente!
domingo, 30 de janeiro de 2011
Come si fa una tesi?
(Foto: J.Ribeiro)
Come si fa una tesi, perguntou o semioticista italiano Humberto Eco a si próprio quando estava escrevendo o belo livro com esse nome. Um livro que nos faz lembrar de manuais de autoajuda. Mas a semelhança da expressão está de um lado, as diferenças entre os gêneros são quilométricas.
Busquei esse título de Eco porque me vejo em uma encruzilhada. Já já direi as razões que me fizeram escolhê-lo.
Há exatos dois anos, num fim de janeiro, estava eu me perguntando: como se faz uma dissertação? Como viver em um lugar onde não se conhece ninguém? Como se faz pesquisa? E se eu não conseguir sobreviver? E se eu ficar doente, quem vai cuidar de mim? Será que vou dar conta de meus objetivos? Quais eram? Eu suportaria o ar seco e o clima bastante frio? Haveria algum choque cultural que magoasse minha subjetividade? Como encarariam meu eu, minha voz, minha fala, meu jeito de pensar, de agir, de lidar com os outros? E se o dinheiro acabasse? E se eu não tivesse chance de sobreviver? E se minha família precisasse de mim com urgência? E como eu suportaria a saudade de meu povo, minha família?...
Eram muitas as indagações. Por outro lado, todas elas precisavam de respostas, ainda que fossem efêmeras. Mas sempre achei que quando as dúvidas me vinham, de um modo ou de outro, eu precisava respondê-las. E isso já me vazia um certo investigador. Eu precisava de respostas... isso não me fazia desistir. Sempre preferi caminhar com uma resposta pouco satisfatória do que com a dúvida de não saber o que teria ocorrido se eu tivesse ido à busca de resposta.
Hoje dois anos depois da profusão de perguntas, eu já tenho algumas e também abri espaço para tantas outras. De lá pra cá, o tempo me deu oportunidade de aprender mais um pouco da vida e evitar que o medo seja maior que meu sonho. Meu objetivo na época, o que me trouxe aqui, foi desenvolver mais uma parte de um projeto de vida, um projeto que escolhi para me sentir bem. Então, para isso, tinha que escrever uma dissertação de mestrado. E com ajuda de professores e amigos – já que nunca estive só -, acho que estou concluindo uma nova etapa, essa parte do que chamei de projeto de vida. Mas antes de concluí-la, já estava traçando novos objetivos, pensando em novos caminhos a percorrer porque devemos nos movimentar o tempo todo. É assim que vejo a vida: um eterno balanço de bambolê que dança melhor conforme o corpo que lhe serve de balanço.
Portanto, minha encruzilhada não é o limo em que me pego no sofrimento; é o ponto em que me encontro comigo e com meus projetos neste lugar de passagem. É sempre o lugar onde eu preciso olhar para trás e avaliar meu projeto anterior, olhar pra frente e ver quais novos caminhos estão diante dos meus sonhos. É o lugar onde eu posso me sentar para formular novas perguntas, encarar as dúvidas, pensar sobre o que eu escolhi para o tempo seguinte... o tempo que me põe em movimento. Por ora, tenho um novo projeto: fazer meu doutorado. E, por isso, tenho clareza de uma dúvida que vai me acompanhar pelos próximos quatro anos: como se faz uma tese?
terça-feira, 23 de novembro de 2010
A descoberta de si
A descoberta de si
Por Jocenilson RibeiroAo amigo Nagai
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O homem,
a cozinha,
a escola,
a palavra.
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O homem da cozinha
O homem na escola
O homem que cozinha na escola
O homem na escola tentando, cozinhando
O homem tenta decifrar a palavra
O homem, a fome, o saber na palavra
O homem tenta unir o saber ao sabor da palavra.
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O homem e o fê
O fê e o ê
O fê, o ê e o i
O homem e o fei
O homem e o ji
O homem une o ji ao ó
O homem tenta unir o fei e o jó
O homem, feijó
O homem pega o a e o dá
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O homem,
um susto:
o mundo.
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21 de novembro de 2010
sábado, 20 de novembro de 2010
Eu, no mar de um pescador
Eu, no mar de um pescador
Ao amigo Bolongin
Olho o espelho do mar: um pescador sem rede,
e a canoa à deriva cambaleando as ondas.
Tento me ver nos passos que marco na areia:
o tempo passa nas horas que piso, que vivo.
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As nuvens ao alto anunciam a tempestade.
Que venha à força do mar - é bom pra peixe!
Chuviscos de chuvas choramingam sobre mim.
E eu - ali inerte – esperando esta vida aos pingos.
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Tento me ver no pescador, no anzol que há em mim,
mas a vida não passa, vazia, é simplesmente assim.
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Pronto para me fazer de anzol um novo pescador
apenas me vejo andando, um mero sonhador, assim.
Eu sequer percebo que o mar é outro mundo,
Eu sequer percebo que o mar está em mim.
jr
sábado, 16 de outubro de 2010
Um presente simples a um amigo
Hoje recebi esse poema de um amigo pedante. É muito “da hora”, como ele costuma falar. Trouxe para o Palatus porque sei que aqui eu nunca vou perdê-lo como geralmente acontece com tantos papeis esparramados em minha vida. Pela amizade literária, eu agradeço-o. Tá guardado, meu nobre.
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Um presente simples a um amigo
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Surgiu, assim, o escrito, que é de e por amizade,
Que não era memória e, mesmo assim, existia.
Há muita amizade quando não se espera amigos
Que é e não é nascida do acaso, mas interdiscursiva.
jr
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Tiririca: o pior é que agora fica!
Este dia de eleição, como tantos outros, foi mesmo histórico. E a história que aqui se vê não é definida somente pelos pontos positivos de uma campanha intensa, mas por características exóticas. Não diria uma característica boa, ruim, feia, bonita, mas capaz de revelar a complexidade de um eleitor brasileiro heterogêneo. Um eleitor que tem posicionamentos ideológicos distintos, o que demonstra positivamente a postura de um país que permite o funcionamento de direito democrático. Isso não significa que permissão seja ação.
Queria aqui discutir o sentido do voto atribuído ao candidato e agora eleito Tiririca. O que justifica os cerca de 1.353.640 votos para ele? Quem nele deu o voto espera o que de uma política brasileira no geral e no senhor da Florentina de Jesus em particular?
Tiririca candidatou-se para assumir uma postura antieleitoral, apolítica, antipática frente ao destino de um país pretenso a uma boa mudança... sua performance de palhaço, dizem, seria uma forma de atrair os eleitores para se eximir de suas responsabilidades políticas. Como disse, as diferentes posturas ideológicas demonstram o retrato de uma democracia. Logo, votando em Dilma, Marina, Serra, Plínio ou em qualquer candidato, o eleitor estaria apostando numa mudança, numa melhora, com suas próprias crenças. Mas quem votou em Tiririca apostou em quê?
Se eu tivesse o poder e a necessidade de apontar um culpado e as razões que levaram os 1.353.640 a agirem assim, certamente o próprio Tiririca seria o último, porque ele também é vítima de um discurso fundamentado nos ideias da indiferença. E essa indiferença é reflexo de um país que tem e teve muitos políticos que pouco deram exemplo, muitos políticos que cometeram atos ilícitos aproveitando-se do poder que lhe foi dado, muitos políticos que deixaram de lado compromissos com a educação para beneficiarem-se do poder e dos bens públicos.
Se os 1.353.640 de pessoas votaram em Tiririca, em um estado populoso como SP, desperdiçando seu voto, quantos dessas no Brasil fariam o mesmo? Certamente, outros tantos milhões. E pessoas que pensam assim têm uma consciência política, cidadã, particip-ativa às avessas, prova de que lhes faltam informação, criticidade, educação, sapiência de que seu papel enquanto eleitor (seja de direita, de esquerda, de centro-direita, centro-esquerda, da ala de lá ou da ala de cá) é importante para a coletividade. O senso comum repete o seguinte enunciado: os políticos não investem em educação porque querem manter o povo acrítico e fácil de ser manipulado. Agora eu poderia criar um novo: há políticos que não educam o povo e depois reclamam que este não sabe votar. Mas isso não melhora a situação, ao contrário, permite que o discurso de que política é assunto chato, é ruim, não presta e, no Brasil não funciona, só fortaleça um saber medíocre diante das decisões coletivas e um comportamento apolítico do povo.
Especula-se na mídia e fora dela que o voto ao Tiririca é conseqüência de um comportamento crítico, revoltado, inconformado do brasileiro. Será mesmo? Se esses eleitores apresentam tal criticidade, certamente pensariam duas vezes, haja vista que, agindo assim, eles próprios iam perceber que vão pagar o salário e todas as despesas deste deputado federal enquanto nada mudará, e pior que estava acaba ficando.
Agora há quem vá lutar com todas as forças, argumentos, leis eleitorais, medidas etc. a fim de desautorizar a candidatura do palhaço, acreditando que sua figura é incompatível com o cargo a que se candidatou. Recentemente se tentou fazer isso com o argumento de que ele era analfabeto. O pior não é ser analfabeto, não é ser palhaço, não é ter falta de atitude política, não é deixar de ter projeto político em prol da sociedade. O pior é saber que pagaremos também com nossas contribuições por outros tantos Tiriricas espalhados pelo Brasil, que ganharam com ele ou com argumentos semelhantes; o pior é saber também que acabaram elegendo homens e mulheres com cara, voz, discurso, promessas, projetos de políticos sérios, diferente do Tiririca, mas tiveram ou podem ter uma história de corrupção, descompromissos com o eleitor brasileiro, que acreditou que poderiam ser diferentes de um simples palhaço que só serve para fazê-los rir quando a piada tem um pingo de graça e nada mais.
Não estou aqui justificando a candidatura de Tiririca com tais argumentos, mas tentando olhar para um regime político complexo que permite eleição de candidatos como este, em que, nessas horas, reclama-se por isso e tenta, às vezes, tarde demais corrigir as arestas do processo; enquanto outras arestas mais espinhosas - como aquelas onde permeiam os corruptos - vão continuar nos espetando a paciência, e fazendo muita gente acreditar que política é mesmo coisa suja – o que não é. É coisa muita séria! Alguns políticos é que não são. Junto com Tiririca, que ainda nos faz rir, nos fazem chorar de decepção!
jr
sábado, 2 de outubro de 2010
SERRA, MARINA, DILMA e PLÍNIO
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Falas desconcertantes e civilizadas
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A câmera ainda incomoda mesmo quem está acostumado com a alta exposição do rosto nas telas. É o caso dos quatro presidenciáveis no último debate promovido pela Rede Globo. Se falar em palanque era uma prática muito forte para os grandes comícios nas campanhas, agora é a fala pública ao vivo e civilizada que vigora em frente às câmeras.
Não se fala diretamente para o eleitor, pelo menos não como antes, mas para uma máquina e, ainda assim, ter que suportar o controle do tempo, a condução e a intervenção do jornalista e as interpelações, alfinetadas e comentários deslocados dos adversários, além de uma plateia heterogênea ali presente. É com esse olhar que avalio o debate de quinta sem ter nenhuma pretensão de me colocar no lugar de especialistas de mídia, de política, de debates etc., mas apenas observando o mirante da linguagem, meu objeto de preocupação nas práticas de discursos.
De um modo geral e tomando como ponto de vista os outros debates, não vi nenhuma evolução daqueles para este no que tange à tranqüilidade dos candidatos. De fato, estavam todos ansiosos. Via-se o balançado involuntário de pernas de Dilma nos minutos que antecederam ao evento. Quem não ficaria nervoso? Quem não tremeria as pernas? Não é fácil falar sob pressão, não é fácil falar para públicos com anseios diferentes, não é fácil falar a partir desse lugar em que o sujeito está acuado. Acuado justamente porque é preciso atender a estes elementos todos, respeitá-los, e manter a postura sem “baixar o nível”. Sim, porque em política não se é de estranhar quando as agressões verbais deslizam-se para o espaço dos ataques pessoais, partidários e, por isso, fortemente ideológicos.
Se o discurso dessa ordem exige uma língua normativa, pura, correta, e livre de palavras de baixo calão, é preciso também que cada candidato fique atento para o que diz e como diz. Nesse sentido, por não se ter chance de correção - já que se está falando ao vivo -, são inevitáveis o “erro” de concordância como “vou aumentar o salário mínimo para R$ 600 real” (SERRA), a confusão de conceito e palavras - “tráfico/tráfego” (DILMA), o erro de cálculos “De cada 10 pessoas, 4 e 3...”(MARINA) esquecendo-se dos outros 3. Houve também um problema de localização, de situação geográfica, confusão de estados. Inúmeras vezes, Dilma e Marina misturaram os estados de SP e RJ, colocando-os num mesmo saco. Ora uma dizia “aqui em SP”, ora outra fala “lá no Rio” onde visitei o morro da rocinha, o morro X, o morro Y... revelando-se um problema de dêiticos. O fato é que o debate acontecia nas dependências da Globo em Jacarepaguá, bairro da Zona Oeste do Rio.
Por outro lado, a fala pública e higienizada com a qual se tenta dizer, o máximo possível, por via de uma língua transparente, caminha para uma língua metafórica. Eis porque Dilma falava do “mundo azul do Serra”, Marina se referia a uma “onda verde”, Plínio destacava “o país das mil maravilhas” ou, ainda, “acaba-se a batalha, continua a guerra” e tantas outras que povoavam suas vozes de figuras de sentido, de estilo, de linguagem. Serra e Marina foram os chefes de construções metafóricas.
A voz macia de Marina apresentava como de costume um tom evangélico, libertário, maternal, buscando aproximar a identidade individualizada do eleitor que se reconhece na voz dela como sendo um dos tantos seus Luíses do Brasil, quando disse “Eu vi o seu Luis Eduardo na favela me pedindo...” como se tivesse falando de meu tio, do pai de meu amigo, do avô da minha esposa, seu vizinho etc. A voz estatística de Dilma trazida de outros debates se confunde com os números (“tivemos sete doações de partidos”) quando tenta responder à pergunta do Plínio sobre o fato de ela não marcar a figura do partido (PT) em sua campanha. Alguns da plateia riem e desestabilizam a postura séira de Dilma, que não consegue evitar seu nervosismo, depois disso.
Serra, por sua vez, consegue manter o ritmo, a frieza, frente às perguntas, respostas, réplicas, tréplicas, e até se mostra seguro dadas as experiências com essa ordem do dizer... [“uma cobra criada”, diria o Plínio se não tivesse que apresentar bons modos.] Mas Serra pensa que engana quando, na ânsia de vencer, apaga a história política do país, os projetos encaminhados, junta tudo e põe no mesmo saco, homogeneizando 8 anos ou mais ao nada feito e faz promessas milagrosas. Chega ao ponto de dizer “Eu não fico fazendo promessas, eu falo coisa que efetivamente vou fazer”. O conceito de promessas, portanto, vai por água abaixo.
Em suma, poderíamos dizer que as falas foram divididas da seguinte forma: Enquanto Marina ponderava suas palavras a fim de não cair no lugar comum da generalização, do esquecimento da história; Serra fazia o contrário, tentava apagar as políticas do governo anterior, contraditoriamente destacando alguns projetos positivos como sendo copiados de seu mandato enquanto governador de SP, e tende a profetizar. Já Plínio agia em função de devolver as perguntas quando na ocasião de sua fala era para responder ao que lhe foi questionado. Era parte de sua estratégia retórica fazer com que os adversários se expusessem; deixassem cair suas máscaras, entrar em contradição, atacá-lo. Experto, eu diria. Dilma, por sua vez, apresentou uma fala trêmula, pouco futurista, mais mantenedora das práticas do governo Lula, óbvio. Eis porque o apelo à história do governo, aos números, aos quadros estatísticos era bastante recorrente. No momento final do debate, eu diria que Marina foi humilde, agradecendo aos colegas e a Bonner pelo evento tal como Dilma; Serra agradece aos adversários, mas marca o egocentrismo destacando seu currículo, suas experiências, seu EU. Plínio faz ecoar nos últimos segundos uma voz interjetiva: “Viva o Brasil!”
Percebi, pois, que o uso da fala ao vivo espremida, real, sem cortes... é, às vezes, até constrangedora, porque ela faz se sobressaírem de forma nua e crua as apreensões, as angústias, as aflições, a imediatez, a tentativa de raciocínio objetivo, o desespero, as promessas improvisadas de candidatos que apelam para ter antes do controle do poder político, o controle do discurso, esse “poder pelo qual se luta” como disse Michel Foucault. Mas o discurso, a língua, as palavras deslizam-se porque são fluidas como água que escorre entre as frestas de um balaio trançado com fios de samambaia.
jr
Imagenssábado, 25 de setembro de 2010
A fama de um medíocre rockeiro
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Odeio artista de mente medíocre. [Peço desculpas, gente, por começar com uma frase agressiva assim.] Penso que artista, intelectual, gente pública, profissionais de comunicação, professor etc. deveriam sempre andar com um livro aberto na mão, e lendo. Não é que os outros não devam ler, atualizar-se, estudar, mas há certas atividades na qual precisamos ser mais sensível quando nos referimos à cultura.
Explico: somente em menos de dois meses, tive que pegar nove voos diferentes – Campinas – Salvador; Salvador – Rio de Janeiro - Campinas; Campinas – Rio de Janeiro; Rio de Janeiro – Campinas; Campinas – Rio de Janeiro – João Pessoa; João Pessoa – Rio de Janeiro – Campinas. Que xique!, alguém dirá. Mas isso não é xiqueza. não gente, é necessidade de pegar promoções mesmo. Pelo fato de eu tentar, nesse período, visitar minha família na Bahia, participar de dois eventos (um no Rio e outro em Jampa) aproveitando algumas destas promoções, acabei pingando em vários aeroportos.
O curioso disso tudo é que tive a oportunidade de ver alguns famosos (outros nem tããão famosos assim). E entre eles nada mais que atrizes e atores globistas, membros de bandas cariocas e baianas, jogadores de futebol, gato, cachorro e papagaios. Outra coisa curiosa é como eles se comportam: alguns abrem seus notebooks e fixam seus olhares na tela; uma atriz está sempre se retocando, olhando-se naqueles espelhinhos que trazem na bolsa. [Elas podem ser fotografadas a qualquer momento... e são mesmo fotografadas! Deve ser um saco alguém roubando sua imagem.] Um deles finge um sorriso pra gente quando, às vezes ,sem querer, acabamos lhe olhando. É como se dissessem com isso: Eu sei que você me assiste todo dia na novela ou Vocês me olham assim porque sou famoso (a). Aqui pra eles! Não dou bola. Finjo que não os conheço. Isso sim é manifestação de xiqueza.
Imediatamente, noto adolescentes pedindo autógrafos e pra posarem em fotos. São simpáticos às vezes ou indiferentes noutras.
Hoje, um guitarrista de uma banda de rock carioca [de mente medíocre] pegava o mesmo voo que eu. Antes disso, vi-o com mais três integrantes no saguão falando alto e me desconcentrando na leitura. [Sim, eu leio também quando viajo.] Deu vontade de dizer: poderiam falar mais baixo, por favor?
Cantores, músicos, jogadores são muito fáceis de ser identificados. Estes, quando não estão de ternos, vestem-se todos iguais; já aqueles estão sempre carregando um instrumento. Nas filas e corredores acostumam chocá-los contra nós. Desculpas, alguns têm a humildade de pedir.
Mas voltando ao tal rockeiro. Eu estava no assento da janela, ele sentou-se na poltrona do corredor depois de ajeitar um instrumento musical no compartimento, devia ser uma guitarra, sei lá; entre mim e ele sentava uma moça muito bonita. Eu, morto de sono, pensei: tomara que eles não conversem. 6h10 - era o primeiro voo deles naquele dia, mas eu já estava nos ares desde 3h35 da madrugada vindo de João Pessoa com escala no Rio. Apertamos o cinto e minutos depois víamos o sol iluminando os morros da Baía de Guanabara. Linda imagem pra começar o dia!
Logo o dito cujo abre um sorrisinho pra loura e começa:
_ Extá frio aqui, né? [Nem estava frio assim. Aposto que ele queria mesmo é dizer Oi gatinha, faix deix minutox que extamos aqui e você nem me deu convearsa aianda; extá se fazeando de tímida ou é desantenaada para a música brasileira da qual não se leambra que sou um famosão do róack.]
_ Realmente, ela responde meio tímida... sobre o frio.
_ Você é daqui ou de SP?, ele insiste.
_ Sou de Campinas, tô voltando pra casa depois de uma semana no Rio.
_ Lhegal.. qual seu nome?
Pensei: meu Deus, esse cara deve provar sua teoria sobre a falta de conhecimento da moça acerca do mundo artístico carioca quando ela perguntar E o seu? Dito e certo!
_ (Risos) ... extá brincaaando. Não se recoarda?
Pensei de novo: se eu fosse ela, nessas horas responderia ‘essa cantada está vencida, meu caro, usa outra.’
_ Desculpas por não lembrar... mas tenho certeza que já te vi na TV ou na internet. [Achei excelente a saída dela, afinal, depois de orkut, facebook, blogs, qualquer pessoa pode ser vista na net, sem contar com o Faustão que volta e meia lança uma bandinha na tevê, tipo aquela do Rebolation.]
_ Ah, sou fulano de tal da banda Y – fez a moça ficar vermelha.
_ Meu Deus! como você é mais bonito pessoalmente, está diferente. No mais, eu adooooro sua banda. Sou fan-za-ça. [Pronto, depois desse elogio, aí é que a conversa iria render... meu sono iria pra casa das puuuuuuuuuuuuuuuu que os pariram.]
_ SSSSério? – obrigado!
_ Vai fazer show hoje em Campinas?
_ Sim, à noite. Estou com a banda aqui no voo, vamos ensaiar. Amanhã tocamos em Salvador com Timbalada. Conhece Salvador?
_ Não, mas morro de vontade de ir. Tenho uma amiga que foi lá esse ano, disse que era muito legal. [Conclusão minha: Eu não conheço uma pessoa no estado de SP que não tenha um amigo ou um conhecido que foi a Salvador ou não teve um amigo que teve outro amigo que não tenha ido à BA.]
_ Você precisa conhecer... Meu pai é baiano, tenho 51 primos baianos e meus 8 tios moram lá. Todo ano vou lá.
_ Legal. Sua família é grande então, ela conclui sem pensar muito como se tivesse resolvendo uma questão de vestibular com alternativas A, B e C.
_ É sim. Mas isso no Nordeste é muito comum. As pessoas têm muitos filhos, sabe? Não têm controle de natalidade...? [Ele dá uma de professor de geografia. Por outro lado, deve achar que nas favelas do Rio há um projeto de Lula que permite apenas um filho por família.]
_ Sei! – ele olha pra ele.
Pensei pela enésima vez: esse cara vai me irritar com o grau de ignorância sobre a BA a ponto de ouvir de mim uma frase assim: “Que decepção para o povo carioca!” Mas... onde no Brasil há controle de natalidade? De que família ele está falando? Certamente a dos avós dele do século XIX, claro. Pra que generalizar tanto como se ,conhecendo a BA ,conhecesse todo o NE? Bem se diz por aqui que para carioca, do Rio pra cima tudo é Paraíba ou Bahia. E eu, que acabava de sair de João Pessoa, vi o quanto somos parecidos e diferentes ao mesmo tempo.
_ Agora uma coisa que me irrita na BA é a lentidão... continuou o medíocre rockeiro... como eles são caaaaalmos, bem calmiiiiiiinhos. Quase dormem quando falam com a gente.
_ Ah, tá brincando... meus amigos dizem - e eu vejo pela TV - que eles são os mais animados... veja o carnaval. São alegres. [Enfim, ouvi da moça uma frase que destoava da ignorância cultural acerca do nosso país homogeneizado na conversa daquele rockeiro, que é bem capaz de só conhecer as cordas da guitarra. Sei que tal opinião também é estereotipada, tanto a minha quanto a deles. Claro que somos animados, alegres, mas ... e os maranhenses, os paraibanos, os paulistanos, os amazonenses, os acreanos, os paraenses, os pernambucanos, os mineiros não os são?]
_ É ... mas fora o carnaval, o ritmo lá é de catraca – refutou ele depois de ouvir a moça.
Não agüentei e me intrometi na conversa chata dos dois com a seguinte opinião: “Vai ver que é preciso um carioca pra animar o carnaval da Bahia, vocês não acham? Vejam a Claudinha, por exemplo, é carioca... teve que ir pra lá para animar o povo. Não é verdade?” Ambos riram, concordando.
Tenho certeza que eles não entenderam nada. O bom da metáfora é isso, poucos roqueiros e patricinhas louras conseguem interpretá-la. A ironia é uma metáfora letal, mata neurônios ao invés de recompor as sinapses. E quando alguns conseguem compreender, já é tarde.
“Tripulação, preparar para o pouso.” – anuncia o comandante.
Olhei para a janela, eles não mais falaram desse assunto. Será que me acharam grosso, mal educado, entrão de conversa alheia? – perguntei pra mim mesmo. Com minha cara de cearense, impossível eles terem pensado que eu era um baiano apaixonado pelo estado. Lugar onde lendo, estudando, eu aprendi a reconhecer que o meu umbigo é apenas um espaço em que se acumulam algumas sujeiras de meu corpo e não um palco de rock ou o centro do universo.
Ah, tem mais uma que ainda não contei: eu não iria perder a oportunidade de ver a campinense se despedir do dito cujo com uma troca de beijos no momento em que nós três esperávamos pelas nossas respectivas malas na esteira do saguão de desembarque. Então, fiz um vídeo a partir do qual recortei algumas fotos. Eu não iria pagar o mico de atirar flashes sobre eles. Fui muito mais discreto que os paparazzi, óbvio, e não iria lhes dar ibope assim de graça nem correr o risco de perder a câmera.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Águas entre os dedos...
Ainda sentia a água escorrendo entre os dedos. Notei a força do vento batendo em meu rosto enquanto o sol invadia meu quarto por entre as frestas da persiana. Um abraço cruzava meu corpo descamisado, senti uma mão encontrar com meus dedos como um cinto de segurança. As chaves trancavam as portas do prédio, e o carro esperava por mim ali mesmo no meio do asfalto. Andante, eu vi um farol vermelho pedir-me pra que não o esperasse, e os papeis caiam da pasta de uma velhinha de olhos assustados, ainda vi que usava cabelo Chanel quando sofria o impacto. O som da aeronave rompia o silêncio do céu azul-verde, e a asa do voo da águia rompia as nuvens em flocos de creme-avelã. A noite brincava com a lua de esconde-esconde. E eu? Estava ali bem debaixo do chuveiro frio cantando Velha infância tribalisticamente. Calcei uma meia preta e outra escura, pouco importava. Tomei um copo de leite morno com um fio de mel. Não estava só: cobri-me com um lençol de algodão e acordei nesse instante sonhando que alguém estava aqui pra lavar minhas mãos.



