sábado, 25 de setembro de 2010

A fama de um medíocre rockeiro

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Odeio artista de mente medíocre. [Peço desculpas, gente, por começar com uma frase agressiva assim.] Penso que artista, intelectual, gente pública, profissionais de comunicação, professor etc. deveriam sempre andar com um livro aberto na mão, e lendo. Não é que os outros não devam ler, atualizar-se, estudar, mas há certas atividades na qual precisamos ser mais sensível quando nos referimos à cultura.

Explico: somente em menos de dois meses, tive que pegar nove voos diferentes – Campinas – Salvador; Salvador – Rio de Janeiro - Campinas; Campinas – Rio de Janeiro; Rio de Janeiro – Campinas; Campinas – Rio de Janeiro – João Pessoa; João Pessoa – Rio de Janeiro – Campinas. Que xique!, alguém dirá. Mas isso não é xiqueza. não gente, é necessidade de pegar promoções mesmo. Pelo fato de eu tentar, nesse período, visitar minha família na Bahia, participar de dois eventos (um no Rio e outro em Jampa) aproveitando algumas destas promoções, acabei pingando em vários aeroportos.

O curioso disso tudo é que tive a oportunidade de ver alguns famosos (outros nem tããão famosos assim). E entre eles nada mais que atrizes e atores globistas, membros de bandas cariocas e baianas, jogadores de futebol, gato, cachorro e papagaios. Outra coisa curiosa é como eles se comportam: alguns abrem seus notebooks e fixam seus olhares na tela; uma atriz está sempre se retocando, olhando-se naqueles espelhinhos que trazem na bolsa. [Elas podem ser fotografadas a qualquer momento... e são mesmo fotografadas! Deve ser um saco alguém roubando sua imagem.] Um deles finge um sorriso pra gente quando, às vezes ,sem querer, acabamos lhe olhando. É como se dissessem com isso: Eu sei que você me assiste todo dia na novela ou Vocês me olham assim porque sou famoso (a). Aqui pra eles! Não dou bola. Finjo que não os conheço. Isso sim é manifestação de xiqueza.

Imediatamente, noto adolescentes pedindo autógrafos e pra posarem em fotos. São simpáticos às vezes ou indiferentes noutras.

Hoje, um guitarrista de uma banda de rock carioca [de mente medíocre] pegava o mesmo voo que eu. Antes disso, vi-o com mais três integrantes no saguão falando alto e me desconcentrando na leitura. [Sim, eu leio também quando viajo.] Deu vontade de dizer: poderiam falar mais baixo, por favor?

Cantores, músicos, jogadores são muito fáceis de ser identificados. Estes, quando não estão de ternos, vestem-se todos iguais; já aqueles estão sempre carregando um instrumento. Nas filas e corredores acostumam chocá-los contra nós. Desculpas, alguns têm a humildade de pedir.

Mas voltando ao tal rockeiro. Eu estava no assento da janela, ele sentou-se na poltrona do corredor depois de ajeitar um instrumento musical no compartimento, devia ser uma guitarra, sei lá; entre mim e ele sentava uma moça muito bonita. Eu, morto de sono, pensei: tomara que eles não conversem. 6h10 - era o primeiro voo deles naquele dia, mas eu já estava nos ares desde 3h35 da madrugada vindo de João Pessoa com escala no Rio. Apertamos o cinto e minutos depois víamos o sol iluminando os morros da Baía de Guanabara. Linda imagem pra começar o dia!

Logo o dito cujo abre um sorrisinho pra loura e começa:

_ Extá frio aqui, né? [Nem estava frio assim. Aposto que ele queria mesmo é dizer Oi gatinha, faix deix minutox que extamos aqui e você nem me deu convearsa aianda; extá se fazeando de tímida ou é desantenaada para a música brasileira da qual não se leambra que sou um famosão do róack.]

_ Realmente, ela responde meio tímida... sobre o frio.

­_ Você é daqui ou de SP?, ele insiste.

_ Sou de Campinas, tô voltando pra casa depois de uma semana no Rio.

_ Lhegal.. qual seu nome?

Pensei: meu Deus, esse cara deve provar sua teoria sobre a falta de conhecimento da moça acerca do mundo artístico carioca quando ela perguntar E o seu? Dito e certo!

_ (Risos) ... extá brincaaando. Não se recoarda?

Pensei de novo: se eu fosse ela, nessas horas responderia ‘essa cantada está vencida, meu caro, usa outra.’

_ Desculpas por não lembrar... mas tenho certeza que já te vi na TV ou na internet. [Achei excelente a saída dela, afinal, depois de orkut, facebook, blogs, qualquer pessoa pode ser vista na net, sem contar com o Faustão que volta e meia lança uma bandinha na tevê, tipo aquela do Rebolation.]

_ Ah, sou fulano de tal da banda Y – fez a moça ficar vermelha.

_ Meu Deus! como você é mais bonito pessoalmente, está diferente. No mais, eu adooooro sua banda. Sou fan-za-ça. [Pronto, depois desse elogio, aí é que a conversa iria render... meu sono iria pra casa das puuuuuuuuuuuuuuuu que os pariram.]

_ SSSSério? – obrigado!

­_ Vai fazer show hoje em Campinas?

_ Sim, à noite. Estou com a banda aqui no voo, vamos ensaiar. Amanhã tocamos em Salvador com Timbalada. Conhece Salvador?

_ Não, mas morro de vontade de ir. Tenho uma amiga que foi lá esse ano, disse que era muito legal. [Conclusão minha: Eu não conheço uma pessoa no estado de SP que não tenha um amigo ou um conhecido que foi a Salvador ou não teve um amigo que teve outro amigo que não tenha ido à BA.]

_ Você precisa conhecer... Meu pai é baiano, tenho 51 primos baianos e meus 8 tios moram lá. Todo ano vou lá.

_ Legal. Sua família é grande então, ela conclui sem pensar muito como se tivesse resolvendo uma questão de vestibular com alternativas A, B e C.

­_ É sim. Mas isso no Nordeste é muito comum. As pessoas têm muitos filhos, sabe? Não têm controle de natalidade...? [Ele dá uma de professor de geografia. Por outro lado, deve achar que nas favelas do Rio há um projeto de Lula que permite apenas um filho por família.]

_ Sei! – ele olha pra ele.

Pensei pela enésima vez: esse cara vai me irritar com o grau de ignorância sobre a BA a ponto de ouvir de mim uma frase assim: “Que decepção para o povo carioca!” Mas... onde no Brasil há controle de natalidade? De que família ele está falando? Certamente a dos avós dele do século XIX, claro. Pra que generalizar tanto como se ,conhecendo a BA ,conhecesse todo o NE? Bem se diz por aqui que para carioca, do Rio pra cima tudo é Paraíba ou Bahia. E eu, que acabava de sair de João Pessoa, vi o quanto somos parecidos e diferentes ao mesmo tempo.

_ Agora uma coisa que me irrita na BA é a lentidão... continuou o medíocre rockeiro... como eles são caaaaalmos, bem calmiiiiiiinhos. Quase dormem quando falam com a gente.

_ Ah, tá brincando... meus amigos dizem - e eu vejo pela TV - que eles são os mais animados... veja o carnaval. São alegres. [Enfim, ouvi da moça uma frase que destoava da ignorância cultural acerca do nosso país homogeneizado na conversa daquele rockeiro, que é bem capaz de só conhecer as cordas da guitarra. Sei que tal opinião também é estereotipada, tanto a minha quanto a deles. Claro que somos animados, alegres, mas ... e os maranhenses, os paraibanos, os paulistanos, os amazonenses, os acreanos, os paraenses, os pernambucanos, os mineiros não os são?]

_ É ... mas fora o carnaval, o ritmo lá é de catraca – refutou ele depois de ouvir a moça.

Não agüentei e me intrometi na conversa chata dos dois com a seguinte opinião: “Vai ver que é preciso um carioca pra animar o carnaval da Bahia, vocês não acham? Vejam a Claudinha, por exemplo, é carioca... teve que ir pra lá para animar o povo. Não é verdade?” Ambos riram, concordando.

Tenho certeza que eles não entenderam nada. O bom da metáfora é isso, poucos roqueiros e patricinhas louras conseguem interpretá-la. A ironia é uma metáfora letal, mata neurônios ao invés de recompor as sinapses. E quando alguns conseguem compreender, já é tarde.

“Tripulação, preparar para o pouso.” – anuncia o comandante.

Olhei para a janela, eles não mais falaram desse assunto. Será que me acharam grosso, mal educado, entrão de conversa alheia? – perguntei pra mim mesmo. Com minha cara de cearense, impossível eles terem pensado que eu era um baiano apaixonado pelo estado. Lugar onde lendo, estudando, eu aprendi a reconhecer que o meu umbigo é apenas um espaço em que se acumulam algumas sujeiras de meu corpo e não um palco de rock ou o centro do universo.

Ah, tem mais uma que ainda não contei: eu não iria perder a oportunidade de ver a campinense se despedir do dito cujo com uma troca de beijos no momento em que nós três esperávamos pelas nossas respectivas malas na esteira do saguão de desembarque. Então, fiz um vídeo a partir do qual recortei algumas fotos. Eu não iria pagar o mico de atirar flashes sobre eles. Fui muito mais discreto que os paparazzi, óbvio, e não iria lhes dar ibope assim de graça nem correr o risco de perder a câmera.

jr
Imagens: arquivo pessoal.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Águas entre os dedos...

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Ainda sentia a água escorrendo entre os dedos. Notei a força do vento batendo em meu rosto enquanto o sol invadia meu quarto por entre as frestas da persiana. Um abraço cruzava meu corpo descamisado, senti uma mão encontrar com meus dedos como um cinto de segurança. As chaves trancavam as portas do prédio, e o carro esperava por mim ali mesmo no meio do asfalto. Andante, eu vi um farol vermelho pedir-me pra que não o esperasse, e os papeis caiam da pasta de uma velhinha de olhos assustados, ainda vi que usava cabelo Chanel quando sofria o impacto. O som da aeronave rompia o silêncio do céu azul-verde, e a asa do voo da águia rompia as nuvens em flocos de creme-avelã. A noite brincava com a lua de esconde-esconde. E eu? Estava ali bem debaixo do chuveiro frio cantando Velha infância tribalisticamente. Calcei uma meia preta e outra escura, pouco importava. Tomei um copo de leite morno com um fio de mel. Não estava só: cobri-me com um lençol de algodão e acordei nesse instante sonhando que alguém estava aqui pra lavar minhas mãos.