domingo, 20 de dezembro de 2009

Praça da República de Valença: uma fonte sem cascata

(Foto N. Ribeiro)

O tom de fim de ano, às vezes, me incomoda, sobretudo porque começo a pensar sobre o tempo e resgatar algumas memórias. Já disso isso antes aqui, mas não serei tautológico. O fato é que - depois de quase um ano longe de casa, da cidade que nos viu crescer, da família, dos amigos - bate uma alegria por rever tudo isso e uma tristeza de muita coisa já não está mais em seu devido lugar. E a praças vão ganhando novas molduras...

As praças sempre me dizem alguma coisa, me tocam e me faz pensar. E a Praça da República, no centro de Valença, me leva a tempos de saudade. Lembro-me que era ali que, em fins de ano, juntávamos alguns colegas para conversar, falar besteiras, contar histórias, dizer muito do que vivíamos. Lembro-me também, pouco depois, início dos anos 2000, quando fazíamos colegial, que revíamos colegas adiantados nos estudos já falando de suas experiências em suas faculdades, enquanto nós nos projetávamos para viver logo a seguir um tempo de facul. Dez anos! Bem, isso era estranho para nós, mas não impossível, afinal era um novo objetivo a ser traçado. Para alguns a faculdade representava status, para outros, distinção entre o povão e o povinho, os menos pobres o os menos pobres, o medíocre e os dotados de saber. E que saber! Enfim, a praça representava, em outras situações, uma passarela para dondocas cheias de egos, mas vazias de saberes. E dez anos se passam num bater de pestanas.

Pouco depois estava eu saindo dali, e a Praça da República tornara-se cada vez menos familiar a mim - dadas as circunstâncias acadêmicas e profissionais. Os amigos e colegas também já não a frequentavam por estes ou outros motivos.

Logo o prefeito satisfez sua vontade extinguindo do espaço público o coreto. Sim, coreto. Cidades antigas costumam ter coretos. Que coisa mais antiquada uma “piiii”! Gostava sim do coreto, e daí? Então... veio outro prefeito e desfez o grande feito do anterior, mandando erigir um coretão - feio de doer! Não demorou nada e, achando que este duelo de egos precisava de muitos espectadores, um terceiro prefeito veio e refez a praça, deu uma nova cara, levou ao chão algumas árvores balzaquianas, desfez do coreto, armou uma arapuca de concreto e criou uma fonte luminosa, que vive seca e sem nada iluminar. Ao redor da praça algumas construções: Igreja Batista, uma academia, algumas farmácias, duas clínicas, um prédio de dois pisos, uns barzinhos, a velha sorveteria, uns casarões antigos (prestes a desabar?) contrastando com a “modernidade”, e o teatro dos anos 40 resistindo. Nunca o vi aberto a visitas muito menos a algum espetáculo, acredite, mas está lá mumificado, cuja fachada aparece sob uma tinta envelhecida. Ah, dizem que lá funciona o Juizado de Menores.

Andei pelos quatro cantos da praça há poucos dias à noite e tentei achar algo familiar àqueles tempos de colegial. Quase nada estava lá, exceto os casarões e o teatro; e este último não me resgatou nenhum sentimento nostálgico, afinal em nada contribui para minha cultura pessoal, já que perdera sua função muito antes de eu andar por ali ainda rapazote.

Enfim, a ironia: nestes 10 anos, a praça viu praticamente quatro mandatos municipais e passou por várias plásticas; hoje, vejo algumas luzes e uma árvore natalina figurando a maquiagem de seu rosto modernizado. Algumas crianças brincam enquanto seus pais conversam sentados nos bancos de mármore e jogam palitos de sorvetes no chão – quase não há baldes de lixo. Não se veem adolescentes paquerando como antes, muitos menos adultos. Por outro lado, a fonte luminosa aparece perenemente escura e sem cascata... o coreto já não faz parte de seu rosto, pelo menos como antes.

jr

Fonte: 2ª foto.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A falta de sentido no racismo sentido

O mundo começou sem o homem e vai terminar sem ele.” (Lévi Strauss)

O quanto é triste e vergonhoso ainda ouvir das pessoas uma manifestação de preconceito, seja contra crença ou opção sexual, seja quanto grupo social ou étnico. Quando se o escuta de alguém que não tem formação escolar, diz-se que é por conta da falta de (in)formação... O que dizer de um povo que exclui, discrimina, preconceitua e mata na contemporaneidade? O que dizer de um povo que apresente leitura, formação acadêmica e oportunidade de refletir sobre tais questões num momento em que tanto se discute sobre respeito à diferença e necessidade de se conviver com a cultura do outro?

Num país que se instituiu, já há mais de 500 anos, sob a força e a luta de um povo negro em sua maioria - além de imigrante europeu, asiático e ameríndio – como encarar enunciados racistas que apenas expressam uma ignorância humana desmedida capaz de segregar grupos e provocar dor? Falo em dor porque, mais que feridas seculares sofridas na pele de um escravo, o povo preto - herdeiro daquele - ainda sente suas marcas cravadas na voz e nas palavras daquele que o renega, o exclui, o discrimina... e o relega à condição de inferior, de improdutivo, de incapaz de atender aos ideias de uma cultura midiatizada sob a ordem de uma beleza construída, mas jamais vivida no real.

A dureza do racismo se manifesta nas práticas simbólicas diariamente neste Brasil que, sem mirar-se no próprio espelho de sua história, ataca o outro com um gesto, uma palavra, uma torcida de olhar, um silêncio, uma eliminação em entrevista por conta da cor, um salário menor, um papel secundário num filme, uma piada de bom ou mau gosto. Há quem diga que no Brasil não exista manifestação de racismo... Mas basta recorrer às marcas simbólicas que traduzem o pensar deste povo, à semiologia que revela sua cultura, à história e o próprio silêncio de quem “prefere se calar” ou fechar os olhos para se notar o quanto o racismo está ao nosso lado quando não dentro de nós mesmos.

É triste sair por ir e sentir qualquer gesto de desprezo, mesmo que sutil, contra a minha diferença, a sua diferença, a diferença de nosso outro, porque pior que seus efeitos é a falta de fundamento lógico e científico que legitima a recorrência do racismo e da discriminação pela cor, sexo, religião, etc. O pior de tudo é que as cicatrizes de uma vítima do racismo e do preconceito só se apagam quando o outro percebe que ele nada tem a mais e nem é melhor nem pior que o negro, o pardo, o índio, o gay, o branco, o pobre capaz de lhe acender à condição de ser sobreumano.

Só consigo pensar num ser humano capaz de banir o pensamento e as práticas nazistas e, esquecendo-os, deixar sair suas vozes racistas via percurso da própria contradição humana. Visto dessa maneira, é neste trajeto que encontro o povo brasileiro caminhando - não para construir um país melhor, mais crítico, mais educado e produtivo e menos distante da violência física e simbólica – mas para duas bolhas: a do eu e a do outro; a do negro e a do branco. Talvez com o tempo, quando o homem estiver só em suas bolhas, vai perceber que sua vida não faz mais sentido, já que não tem mais o outro para sentido lhe dar. Se continuarmos assim, a frase do recentemente falecido Claude Levi Strauss fará sentido: O mundo começou sem o homem e vai terminar sem ele.”

Imagens e fonte (comentários de leitores do blog do A Tarde Online "Cidadão Repóster").
jr

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

"Palatus" de cara nova

Resisti, resisti, resisti...mas dessa vez não teve jeito: mudei a cara do Palatus. Claro que gostava da cara antiga. Achava legal entrar na página e ser recebido com uma luz forte. Gosto de luzes, embora me sinta cego com seu excesso. Contudo, comecei a perceber que ele estava ficando envelhecido. Tenho uma concepção de blog como um gênero que não deve envelhecer, mas rejuvenescer a cada mudança, a cada postagem, a cada comentário, a cada visita nova. Então, pensando assim, tomei a seguinte decisão: vou dar um banho no Palatus uma vez por ano senão fica mofado. Para matar a saudade, eis a foto de até ontem...

jr

sábado, 31 de outubro de 2009

Por uma leitura política menos medíocre e generalizada

(Fonte)

É incrível como boa parte de pessoas sem criticidade política ama a arte da generalização, quando não particulariza ao extremo um ponto que deveria ser visto por mais de uma perspectiva. Não pretendo aqui defender nenhuma bandeira sobre política, partidos, eleitores ou outra questão semelhante. Quero apenas falar o quanto o tema da generalização me incomoda e serve para avaliar a postura superficial de muitos brasileiros que, dando uma de conhecedores de política, confundem as coisas. Também não me coloco em lugar de bom conhecedor do assunto nem cientista político, longe de mim, mas, sem querer ser modesto, me ponho no lugar de alguém atento às linguagens utilizadas para dizer alguma coisa quando o assunto se volta à política e aos políticos. Quando me refiro à linguagem, valem fotos, vídeos, textos escritos, falados, sincréticos, charges, matérias jornalísticas, filmes, capas de Veja, outdoors...

Circula, no Youtube, até o momento, um vídeo muito interessante de 2 minutos e 23 segundos sobre o título Vou morar numa propaganda do Governo da Bahia - Jaques Wagner. Trata-se de uma crítica profissionalmente elaborada mostrando as contradições do governador que veiculou, em todo o estado, seus feitos durante seu mandato. Poupo o leitor das descrições de ambos os vídeos e a mim de analisar seus conteúdos.

Penso que o governo deve sim mostrar os resultados de seus projetos; é uma forma de prestar conta da administração pública e cumprir com as propostas dos tempos de candidatura. Penso também que o povo deve, sim, exigir que as diversas ações sejam efetivadas em suas cidades, municípios, ruas, região rural etc. E um vídeo como esse funciona como uma ferramenta eficaz para dizer que os problemas não têm sido resolvidos, que tais ações não têm atingido boa parte da sociedade como lhe é de direito. Que mais vídeos desse circulem, ao menos!

Entretanto, o que não vale é o espectador tomar o vídeo do governo como uma verdadeira mentira e o vídeo do Youtube, por exemplo, como verdade verdadeira. Assim se cai no que chamo de generalização ou no reducionismo. Até porque, em muito do que a linguagem expressa duas ou mais realidades, os embates ideológicos e os confrontos de poderes estão em voga. E, no caso em questão, não é diferente. O problema se dá mais ainda quando o povo começa a enunciar: “Culpa do PT”, “A BANDIDAGEM TOMOU CONTA DA BAHIA”, “QUE TRAGÉDIA DE GOVERNO”, PT fudeu com a Bahia assim como ta fudendo Fortaleza”, “esse é o BraZil do PT”, “PT nunca mais”, “Quem manda votar no PT”, “O pessoal do PT costuma ler Marx demais. Assim fica mais fácil alienar o povo”, como estas retiradas dos comentários no site.

Gente!, o problema não está no PT, afinal de contas se puséssemos todos os projetos idealizados pelos partidos, se lêssemos todos os documentos que os regem, o Brasil seria perfeito. Seria preciso até fazer uma espécie de vestibular para os estrangeiros entrarem aqui, porque todos iriam querer vir para cá. Acho até que seria preciso fazer uma Muralha para o Brasil. Seria o céu; o inferno seria o Iraque, os EUA, o Afeganistão, a França, a Coreia, por exemplo. Mas não é o caso. O problema está no próprio povo brasileiro (com suas ressalvas), pois não consigo pensar em povo brasileiro sem pensar em políticos e eleitores, sem partidos e sem propostas, sem corrupção e sem políticos honestos e com boas intenções. - Não nos esqueçamos que político também é povo brasileiro. - Mas, como se diz que de boas intenções o inferno anda cheio, talvez seja por isso que muitos de nós não acreditam mais no governo e esquecem-se das mazelas do governo anterior e brevemente em quem votou.

Não vou defender político A ou B e muito menos o governador Jaques Wagner, que precisa provar ser melhor do que o grupo carlista, imperador por décadas no estado baiano, e deixou seu vírus com o DEM(o). Alguém esqueceu que muitos vídeos mostrando uma Bahia virtuosa, senão um paraíso, já eram mostrados no governo de César Borges, de “a-acm salvadooooooooor, a-acm meu amooooor”, Paulo Solto (não necessariamente nessa ordem)? O fato é que os três governadores anteriores a Wagner - nem falo dos outros porque eu ainda era muito criança –, tal como o próprio, construíram sim alguma coisa, deixaram de levar aos baianos outras centenas de ações, mostraram vídeos embelezados por uma retórica pró-voto e fincaram o Estado a tantos anos de atraso e lentidão. A prova disso se vê com o metrô de Salvador.

Por outro lado, quando se atribui a culpa generalizada ao PT, se esquecem que o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB) - que não é PT – mostrou uma “cidade maravilhosa” para a candidatura da capital carioca nas Olimpíadas de 2016 e escondeu uma cidade da violência capaz de abaterem helicóptero militar, por exemplo; esquecem-se que José Serra do PSDB (que não é PT) governa o estado mais rico do país, mostrando uma SP perfeita, mas não conseguiu reduzir os problemas na área de saúde e segurança, diminuir o crime provocado pelos menores com a Fundação Casa/FEBEM, melhorar a qualidade do ensino e reduzir a violência na escola, combater o tráfico - ao contrário do que seus vídeos mostram.

De 27 cadeiras de governador no país (incluída a do DF), apenas 5 (Acre, Bahia, Pará, Piauí e Sergipe) têm representante do PT, contra 9 do PMDB, sem citar outros partidos. Pergunto: em qual(ais) destes estados podem ser veiculados vídeos capazes de representar a realidade da administração do governo sem que se possa notar as mazelas ocultadas por eles? Nenhuma, certamente. O que não vale é atribuir ao partido X nem a Y a culpa de uma administração mal qualificada – por exemplo, aquela vista na BA ou no Rio – quando na verdade o descaso parte do grupo político que governa o estado. Se fosse apenas uma questão de partido, o que poderíamos dizer do governo Lula que passou por fortes abalos, crises e escândalos (mensalão, correios, cuecas etc.) perdendo, nestes dois mandatos, quase todos os ministros escolhidos “sabiamente” a quase-dedo? Há quem não admita que o Brasil nunca teve um presidente como este nordestino. No entanto, diante de tantos problemas que não nos carece enumerá-los, qual anterior pode levar políticas para atender a populações desprovidas de ações mínimas em grande números de pessoas? Quem criou antes um projeto de ampliação e implantação de universidades federais e escolas técnicas pelo país oferecendo mais oportunidade e inclusão de jovens? Quantos brasileiros estão com nível superior ou obtendo? Obviamente quantidade não é mesmo qualidade, mas, levando em conta a “boa vontade” da qual falei antes “enchendo ou não o inferno”, percebe-se que o problema não está no partido, mas na conjuntura política do país e de suas unidades federativas, cujos eleitores reclamam, criticam, esquecem, comparam, abominam, julgam, particularizam demais, generalizam sem refletir e acabam esquecendo-se - também – de três pontos importantes: a) são eleitores e responsáveis por levar candidatos ao poder como Wagner, Aécio, Maluf, Cabral, Yeda Crusius, Serra etc.; b) são passíveis de serem candidatos como qualquer cidadão que goze de direitos eleitorais; c) têm o voto como ferramenta de poder para mudar a realidade.

Uma coisa é certa: enquanto continuaremos não vendo o voto como importante mecanismo de poder, que só funciona coletivamente para mudar a realidade política do Brasil, eles vão continuar usando a linguagem - seja ela em forma de vídeos ou em outra materialidade - como um importantíssimo mecanismo de poder que, silenciosamente, vai apagando memórias e construindo outras, quando, de fato, o objetivo é continuar nos enganando. Atentemo-nos para isso e evitemos, pois, as reduções de leituras políticas ou as generalizações sem fundamentos, porque é isso que muitos querem: que continuemos medíocres por toda a vida.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Do Morro de São Paulo, saudade

Salvador, bem feliz quem pode nesta hora

Ruas da cidade, sol da Barra em meus olhos

Deságuam em mim desde noites de outrora

E os mares farreiam em clara areia d’Abrolhos

xxxxxxxx

Bahia que te quero em mim, oh minha Bahia

Fitas de braços abertos, varrei os mares tufão!

Ruelas de pretos e brancos, acarajés de Maria

Colher de pau vai catar quindim com pirão

xxxxxxxxxxxx

Do sertão, homem! Sê resistente à saudade

Da Bahia, eis aos olhos o Morro de São Paulo

Queria, por hoje, fugir do frio de São Carlos

E sentir em mim o quente dessa baianidade!

jr

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Contemplar o mundo

Contemplar o mundo e o que nos cerca não é uma atitude tomada por qualquer pessoa - e tem sido cada vez menos comum. Contemplar o mundo também não é uma questão que depende de crenças ou de ensinamentos, é de vontade que nasce de nós, de cada um de nós. Por outro lado, em meio às técnicas que moldam nosso comportamento na dinâmica da vida moderna, para contemplar o mundo não basta por o binóculo para ver sua beleza camuflada ao longe e em outros horizontes; basta dirigirmos os nossos olhares para logo ali, porque no instante do aqui está o lugar que se mantém ocupado por nós mesmos, impossível de ser visto por mim e por ti ao mesmo tempo. Talvez tenha sido por isso que o fotógrafo Marcello Lima, num gesto poético, materializou seu instante de percepção do mundo sancarlense num clic de luz, cor, palavras e olhar auxiliado pela noite e pelo tempo.

Contemple-se!

xxxx

as cores

que sinto

em luzes

e sombras

em forma

xxx

o tempo

presente

que fica

xxx

fotograficamente

xxx

ao futuro

em síntese

na metáfora

do olhar

da alma

do lugar

na memória

xxx

xxx

Marcello de Castro Lima Jr. - é de São Carlos, São Paulo. Licenciado em Letras pela UFSCar e especialista em Fotografia pela UEL. (Veja outros trabalhos no Flickr do autor).

jr

domingo, 11 de outubro de 2009

A uma dama, abre-se até a porta de um fusca

E quem disse que abrir porta de carro para uma dama é cafonice?

Andava eu meio desatento numa destas ruas tímidas da cidade luminosa de São Carlos. Ainda era cedo se levarmos em conta que às 19h não é hora para se encher os bares no sábado à noite! Mão única numa rua não muito plana. O vento frio levava minhas mãos gélidas aos bolsos do casaco e contrastava com o ar quente que saia de minha boca ‘esfumaçante’.

Brinquei um pouco com isso como um menino que descobre o lado bom do frio pela primeira fez. Em poucos segundos, transpus-me dali a outros lugares, às margens do Sena talvez, na velha Paris, tendo a meu lado uma dessas personagens cinematográficas de filmes de romance fajuto. (Às vezes, quando caminho sozinho à noite, por lugares que não me manifestam algum medo da violência urbana, apresenta minhas divagações).

Um pouco mais adiante, um fusca preto (modelo novo) passou por mim naquela rua calada e parou a dois quarteirões do semáforo, que permitia minha passagem. Vi então um rapaz sair do carro e dirigir-se a outra porta abrindo-a para a saída de uma moça, que segurava sua mão. Inicialmente, imaginei que se tratasse de uma mulher chegando do hospital talvez e devesse ser acompanhada com bastante cuidado. Todavia, notei que se tratava de uma bela moça em traje de cerimônia acompanhada de seu deferente parceiro.

Segui o rumo imaginando o destaque daquela linguagem quase anacrônica se não fosse a importância de sua funcionalidade nas relações afetivas. Obviamente, mandar cartas perfumadas ao outro, puxar a cadeira, abrir ou fechar a porta do carro para a parceira hoje serve apenas como histórias de nossas avós, motivos de piadas e risos e saudosismo de um tempo que não vivemos, mas que permanece no imaginário coletivo, na memória de leituras e de conversas antigas. Deve ter sido por isso que seria mais coerente para mim imaginar que o fato que me chamou a atenção só poderia tratar-se de um caso de saúde, não de um romantismo à moda antiga como apresentou aquele casal balzaquiano.

Num momento em que as notícias sobre violência contra a mulher são mais comuns, se eu dissesse que teria visto um homem atropelando dolosamente uma moça, talvez convencesse mais o leitor; no entanto, acredite, a cena romântica naquela rua pacata foi verdadeiramente um clássico da vida real.

jr

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O tempo de uma saudade

a-ma-amie-geu

As horas passam, o tempo é longo demais; o tempo de uma saudade não anda. Ele já não tem fim, ao menos para mim. Os tiques tacam meus ouvidos e apenas a saudade marca os dias pra te ver no calendário. Vou te esquecer? Não, jamais. Apenas quero não lembrar tanto na tristeza porque me faz incapaz - ao menos hoje - de evitar que a saudade me deixe em paz nestes segundos, nestes mundos. E o coração bate, bate, bate: tuntum tuntum tuntum contando o tempo para te ver mais outra vez, ma amie.

jr
(Foto: arquivo pessoal de G. Fróes, modificada)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Te fuiste Alfonsina Sosa, La Negra del mar...

"...¿Qué poemas nuevos fuiste a buscar?"

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Te fuiste Alfonsina vestida del mar. Dejaste para nosotros tu poesía, tu bella voz que aquí tenemos que nunca olvidar. El mar te ha llevado para cantar mientras caminas por las arenas. Te vas oh La Negra con toda vida que ha dado tanto, y toda la fuerza de tus canciones. Te pregunto: "¿Qué poemas nuevos fuiste a buscar?" Ahora tenemos la responsabilidad de cantar por los rincones y por donde habemos de caminar. Te vas argentina indígena de mi corazón con las sirenitas fosforescentes guiando los caballos marinos a tu alrededor. Pido a tí que no me olvide porque estaré siempre acá a escucharte a traves de los vientos que llegan a mis oídos… Canta, Alfonsina, canta. chica mía... canta por favor más una vez “Alfonsina y el mar”…pero no me hace llorar outra vez.

Alfonsina Y El Mar

Mercedes Sosa

Composición: Ariel Ramirez / Felix Luna

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Por la blanda arena

Que lame el mar

Su pequeña huella

No vuelve más

Un sendero solo

De pena y silencio llegó

Hasta el agua profunda

Un sendero solo

De penas mudas llegó

Hasta la espuma.

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Sabe Dios qué angustia

Te acompañó

Qué dolores viejos

Calló tu voz

Para recostarte

Arrullada en el canto

De las caracolas marinas

La canción que canta

En el fondo oscuro del mar

La caracola.

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Te vas Alfonsina

Con tu soledad

¿Qué poemas nuevos

Fuiste a buscar?

Una voz antigua

De viento y de sal

Te requiebra el alma

Y la está llevando

Y te vas hacia allá

Como en sueños

Dormida, Alfonsina

Vestida de mar.

.........................................

Cinco sirenitas

Te llevarán

Por caminos de algas

Y de coral

Y fosforescentes

Caballos marinos harán

Una ronda a tu lado

Y los habitantes

Del agua van a jugar

Pronto a tu lado.

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Bájame la lámpara

Un poco más

Déjame que duerma

Nodriza, en paz

Y si llama él

No le digas que estoy

Dile que Alfonsina no vuelve

Y si llama él

No le digas nunca que estoy

Di que me he ido.

.........................................

Te vas Alfonsina

Con tu soledad

¿Qué poemas nuevos

Fuiste a buscar?

Una voz antigua

De viento y de sal

Te requiebra el alma

Y la está llevando

Y te vas hacia allá

Como en sueños

Dormida, Alfonsina

Vestida de mar.

xxxxxxxxxxxxxxx

(Video You Tube)

(Fonte: imagem1, imagem2, letra)

jr

sábado, 3 de outubro de 2009

País “maravilhoso” em 7 anos, eis o desafio...

Em sete anos, o Brasil tem mais um desafio a superar dentre os tantos desafios seculares que ele carrega em sua história: o de mostrar essa “cidade maravilhosa” (leia-se, por extensão, país maravilhoso) de fato ao vivo e em cores. Não como foi discursivizado romanticamente hoje para convencer o Comitê Olímpico de que temos condições de sediar a edição das Olimpíadas de 2016, mas como realmente é um país com capacidades reais de mostrar seus valores e o que aqui há de mais belo para o mundo.

Se Juscelino Kubitschek quis modernizar o Brasil em 5 anos, o que se faria em 50, o novo presidente da República Brasileira terá que maravilhar o país em 7 o que não se fez em 200. Seria isso possível?

Não quero tirar aqui o mérito da beleza carioca, afinal é sim uma cidade maravilhosa se levarmos em conta a paisagem vista de binóculos ou nos cartões postais. Contudo, como beleza não alimenta todas as mesas, há aparências não tão belas que também compõem o grande mosaico brasileiro. Se o país for metonimicamente tomado como o Cristo Redentor que elevará a tocha ao ponto mais alto do Corcovado, é preciso dar uma reformada geral em sua aparência.

a) primeiro, levemo-no ao pneumologista para tratar do câncer da violência instalada faz muitos anos em seu pulmão;

b) depois, levemo-no ao cardiologista para limpar o coração da corrupção, inclusive a corrupção esportiva;

c) em seguida, encaminhemo-no à fisioterapia e aos educadores físicos a fim de tirá-lo do sedentarismo;

e) por numa academia de esporte em que se treine 30h por dia para deixar umas medalhas aqui;

d) e, dentre milhares de reformas necessárias, é preciso reformar a cabeça do cristo, isto é, a EDUCAÇÃO (no sentido mais lato possível). Acredito que concertando a cabeça o resto do corpo possa funcionar... Como acho difícil mudar a cabeça deste cristo em 7 anos haja vista que, em se tratando de educação brasileira, este tempo seja muito pouco, é possível que deem uma maquilada no rosto, passem umas pinceladas nas sobrancelhas, um pó-de-arroz na bochecha e no nariz, cuide da parte externa, e pronto...eis o país maravilhoso.

É um desafio a ser superado com forças sobre-humanas, mas como estamos representados pelo cristo de braços abertos, que terá sobre si os olhos do mundo em 2016, acredito que não temos por que temer. Vamos torcer para que, em 7 anos, possamos falar em cidades maravilhosas na pátria amada Brasil livre de tantos problemas que hão de ser superados por nosso cristo, amém!

jr

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O cadáver do ET panamenho

Circularam na mídia brasileira e de vários países, na última semana, imagens e notícias de um suposto “ET” encontrado por quatro jovens do Panamá dia 12 deste mês. Segundo jornais panamenhos, os jovens encontraram o aliem, caracterizado como criatura bizarra, saindo de uma gruta nas imediações do lago Cerro Azul. Os adolescentes com idade entre 14 e 16 anos, assustados, atiraram pedras no “animal” até tirar-lhe a vida e, em seguida, jogaram-no na água. Especialistas agora procuram identificar o ser através de exames genéticos e revelar se se trata apenas de um animal ainda não identificado pela biologia ou é mesmo um alienígena.

Diante deste acontecimento curioso, fiz três reflexões: uma de ordem linguística; outra de ordem biológica e a última ligada à conduta humana. É curioso nossa capacidade humana de querer dar nomes às coisas. Eis um princípio semiológico já tratado por filósofos gregos como Aristóteles e gramáticos há milhares de anos – é preciso nomear as coisas, por mais estranho que sejam e mesmo de forma provisória. E no caso em questão, o processo de nomeação é sempre tomado com um exotismo que só nos aproxima para assistir e excluir, ver e descartar. Daí não nos é estranho nominar o ser de nome provisório “estranho, bicho feio, aliem, ET, ser de outro mundo, alienígena etc.” Se for animal, que seja de outra espécie mais distante possível da minha, porque espécie pura e bela é a nossa. A classificação pautada em adjetivos negativos é a prática mais viável em situações como essa.

Do ponto de vista biológico, diríamos que a teoria da Evolução das espécies acaba mais uma vez de se afirmar; e se o suposto ET veio a morrer é porque na luta entre as espécies vence o mais forte e dotado de características mais adaptáveis à sobrevivência e continuidade genética.

Sem entrar no mérito da teoria, uma vez que não sou especialista na questão, parto da referência grosseira que fiz ao pensamento de Charles Darwin para apresentar minha reflexão sob a última ordem: a conduta humana. Geralmente, um animal ao se sentir ameaçado parte paro o ataque a menos que ele deseje satisfazer suas necessidades fisiológicas. No entento, com a nossa espécie – a mais evoluída – as coisas obedecem a outro princípio. Quer eu me sinta ameaçado quer não, o ideal é matar, tirar a vida, excluir, nomear, classificar e, depois, por em museu ou em laboratórios para estudos.

Os jovens panamenhos fizeram o certo, pelo menos mais uma vez se confirmou a ideia recorrente acerca da conduta do ser humano, já que - dotado de racionalidade e intelecto para apreender e compreender o universo – usa de seus extintos mais perversos para matar, extinguir, quando não o fazem com membros de sua própria espécie, fazem com a espécie do outro; além de comprometer a qualidade do ar, dos rios, desmatando e poluindo os recursos naturais.

Se no futuro houver o Armagedom causado pelos conflitos entre os estranhos, espero achar uma caverna platônica para me esconder, porque se os irmãos do suposto aliem vierem cobrar explicação, eles estarão com a razão e terão direito à réplica. Enquanto os resultados classificatórios e nominativos não saem, vamos aguardar a “família” do “exótico” animal vir recolher o cadáver, ops!, cadáver é para os homens, devo dizer corpo estranho.

jr