segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Uma chance para existir

Por Jocenilson Ribeiro[i]


Leiam, meus filhos, leiam... leiam para ser alguém na vida. Não consigo esquecer essa convocatória feita pela professora de matemática há exatos quinze anos. Na época, a turma tinha uns trinta alunos, cursávamos o ginasial. Poucos talvez entenderam por que a expressão imperativa da professora parecia mais com uma convocatória do que com uma ordem. Lugar de leitura é na aula de português, disse um atirado. Ser alguém na vida era, para a nossa mestra, uma metáfora, cujo significado nos remeteria um valor na sociedade que só a educação pode nos dar: dignidade. Hoje é que faço essa leitura.

O impeachment de Collor estava por vir, dias contados. Não sabíamos nós que para entendê-lo era preciso ler, não (somente) uma leitura de jornais, revistas, livros, mas uma leitura de mundo mediada pelo próprio caminhar da história. Éramos muito meninos, não sabíamos ler. Ou sabíamos? O fato é que, depois de ver tantas caras pintadas nas ruas, passei a pensar que aquela garotada estava lutando para ser alguém na vida. Podia-se ler nos olhos, na boca, nos braços, no grito, nas letras e faixas pintadas de verde e amarelo: “Fora Collor!”

O bebê que nascia naquele dia de vibração juvenil tem hoje, já adolescente, a chance de resgatar tal acontecimento através da leitura, por exemplo. E mais: pode fazer conjecturas e tirar suas próprias conclusões. É assim no processo de leitura. Sempre que lemos, ressignificamos o mundo, construímos valores, nomeamos e apagamos saberes, impomos conceitos. Imprimimos na História nossa própria história e deixamos marcas de subjetividade que só o tempo pode acender ou apagar. Diante disso, pergunta-se: como ser alguém na vida e marcar pontos na história? Respondo: lendo — tal como nos sugeriu nossa pró.

Os espaços de leitura hoje têm que ser promovido pela própria educação e não apenas em momentos específicos como em aulas de língua portuguesa e literatura, uma vez que ela é bastante ampla e carece de muitos lugares para se fazer presente. É possível ler de Os Lusíadas, de Camões (escrito há mais de 4 séculos), a um choro comovente de um bebê que deseja o leite materno. Devemos ler também do mendigo, que se encontra no chão a minguar uma moeda, a um nobre senhor que faz ponte aérea a cada semana. Nesse processo de leitura da vida, devemos entender o que os coloca em lugares tão diferentes, e o que os aproxima.

É preciso ler para conviver, para saber, para viver. Ler para não se apagar nas multidões invisíveis que perambulam a sociedade letrada e desletrada. Ler para ser alguém capaz de enxergar sua imagem do outro lado da rua, da esquina... do outro lado do muro ou da terceira margem do rio. Ler para enxergar a si mesmo e ao outro como ser que erra e, por isso, deve respeitar a diferença em cada caminho porque nunca se tem certeza se seremos alguém livre dos óbices da vida... Ler para viver com dignidade. Ler para morrer com dignidade! Devemos ler sim sem preguiça para enxergar além do que os olhos alcançam; devemos ler sim para tentar mudar a rota dos mares que nos ameaçam retirar a possibilidade de ser outro alguém... outro alguém na vida.

[i]Jocenilson Ribeiro reside em Feira de Santana-BA. Graduando em Letras pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e professor de língua portuguesa redação em cursos pré-vestibulares. Escreve crônicas, contos e poesia, tendo publicado em antologia no estado e sido premiado em concursos literários. É editor do blog Palatus et colirius (http://co-lirius.blogspot.com/). Este texto foi publicado na revista on-line Revista 7 no mês de outubro, em que se comemora 15 dia do professor. Confira no site da revista www.revista7.com.br.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Revista 7


Revista 7

é uma iniciativa de jovens internautas brasileiros que, por meio de diferentes temáticas, abordam as questões de relevância social. Em seu segundo número, a revista on-line tem se mostrado comprometida com a informação de qualidade, demonstrando originalidade nos assuntos tratados. Este mês o tema em questão é EDUCAÇÃO, seguido do primeiro número que tratou da Independência. Vale a pena conferir, ler, criticar ou simplesmente dar uma olhada.

Acesse o site:




Editorial de outubro/equipe

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Al otro da del río-Jorge Drexler

Película: Diario de motociclo


AL OTRO LADO DEL RÍO

Jorge Drexler

Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
Creo que he visto una luz
al otro lado del río

El día le irá pudiendo
poco a poco al frío
Creo que he visto una luz
al otro lado del río

Sobre todo creo que
no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima
y yo, soy un vaso vacío

Oigo una voz que me llama
casi un suspiro
Rema, rema, rema-a
Rema, rema, rema-a

En esta orilla del mundo
lo que no es presa es baldío
Creo que he visto una luz
al otro lado del río

Yo muy serio voy remando
muy adentro sonrío
Creo que he visto una luz
al otro lado del río

Sobre todo creo que
no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima
y yo, soy un vaso vacío

Oigo una voz que me llama
casi un suspiro
Rema, rema, rema-a
Rema, rema, rema-a

Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
Creo que he visto una luz
al otro lado del río

domingo, 30 de setembro de 2007

Jorge Drexler



Jorge Drexler nació a 21 de septiembre de 1964 en Montevideo, Uruguay. Estudió medicina y trabajó como médico por siete años en Urugauy. Su especialidad es Otorrinolaringología. Pero decidió hace diez años mudarse para España, donde fue vivir y cantar, su arte elegida. A él le parecía que iba quedar allá solamente por un mes y ni tuvo recursos para mantenerse en la Europa. Pero vive en la España hasta hoy. Drexler fue casado con una cantante sueca Ana van der Laan con quien tiene un hijo de siete años. Jorge Drexler es el músico de la canción Al otro lado del río, canción que le dió el Oscar de mejor música en la película Diario de Motocicleta (2005), del brasileño Valter Salles. Sus músicas le dieran muchas premios.



“La luz que sabe robar” (1992) AYUI
“Radar” (1994)AYUI
“Vaivén”(1996)VIRGIN ESPAÑA
“Llueve”(1998)VIRGIN ESPAÑA
“Frontera”(1999)VIRGIN ESPAÑA
“Sea”(2001) VIRGIN ESPAÑA
“Eco”(2004) DRO-WARNER

quarta-feira, 26 de setembro de 2007


Por Franklin Ramos
INTERLINGUAGEM

As palavras se beijam,
Abraçam-se
Ofendem a lingüística
Honram a linguagem
Desfazem desrítmos
E se apresentam autoritárias
Chutando as letras,
Emendando as sílabas
Desficam em ordem
In-fluem nas curvas
Trans-bordam na teia das idéias
Expressando interconexão
Uma palavra pra cada coisa
Que não se limita à palavra
Entonações diversas
Significados vários
A descobrir, a inventar.
FRASE TORTA

Passam pela minha frente
as frases sem contexto
pretexto de ser inteligível
voltam-se para mim as crases
reflexionam-se-me
usam de má semântica
a oração romântica
nomes sem renomes
codinome desconhecido
fugido do dicionário
sem significado conhecido
perdeu-se o itinerário
no começo da viagem

Entrevista: Franlkin Ramos

Palatus et Colirius - Há quanto tempo você escreve e quem o incentivou?

Franklin - Escrevo desde 1997. Como meu avô é poeta e eu cresci convivendo com as poesias dele então foi fácil começar a escrever. Mas daí vem uma questão: para poetizar depende de aprendizado ou inspiração? Bem, de uma ou de outra eu posso dizer que a veia poética me acompanha desde 1997.

PC - Você tem um tema que predomina na escrita prefere ser livre?

Franklin - Os temas variam de acordo as fazes da minha vida. Comecei escrevendo poesias pessimistas e de protestos sob as influências de Augusto dos Anjos e Gregório de Matos, como uma "metralhadora giratória". Sempre negando o amor por considerar o ser humano desprovido de sentimento tão nobre, até que, por ironia do destino, o deus Cupido me flechou com o amor de Eros e eu passei a escrever movido pela paixão que se encanta em saber-se amante e amada. A partir de então eu nada escrevo, mas o amor me toma como instrumento e se expõe no papel. Mas, claro, que eu nada me obrigo, nada me imponho. A pura e livre inspiração bate à minha porta e diz sobre o quer falar, versejar para quem puder sentir.

PC - Como um físico pode lidar com razão, lógica, ciências físicas, filosofia, arte, poesia e literatura?

Franklin
- Uma vez, antes de eu fazer Física, um primo meu me disse que Física era poesia. Eu acreditei. Na realidade, a arte pulsa em minha visão de mundo, a natureza em sua dança harmônica, em seu bailado singelo nos convida à contemplação e a Física me ajuda a entender como essa ciranda cósmica se integra à minha própria natureza. A Física, para mim, enquanto ciência da natureza, é muito mais do que o mecanicismo dos livros, do que a insensível linearidade cartesiana que meus professores tentam mostrar. Se a natureza é bela, sutil, misteriosa, artesanal, descabida, a ciência que a estuda deve beirar essas qualidades.

PC - Existe um projeto para possível publicação? Quando?

­Franklin - Se para um estudante de Letras a publicação de um livro de poesias já representa uma verdadeira via crucis, imagine para um de Física. Publicar um livro de poesias é um sonho pra mim. Uma vez eu cheguei a organizar algumas, digitar e enviar em disquete para uma editora, mas me falaram que não trabalham com livros desse tipo. Será?

Franklin Ramos (28) é natural de Itabuna-BA. Atualmente reside em Feira de Santana, onde cursa Física pela Uefs. Desde os 18 anos escreve poesia, tendo publicado em jornais locais e em concursos literários. Em 2006, foi classificado com a poesia “Verboiando” no concurso Bahia de Todas as Letras, promovido pela editora da Uesc (Editus) em parceria com a Via Litterarum. E-mail: verboiando@yahoo.com.br .

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Poema: Silencio e brisa


Silêncio e Brisa


Vago tu me deixas
no impulso do silêncio,
e vago tu me levas
à brisa do teu cheiro.

A brisa é teu corpo
que em meu corpo briga,
a brisa é teu beijo
que me mata a sede.

E meio vago,
me falo em tua fala
onde me afagas
onde me há fogo
onde me afago
e me desvago.

{jr}

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

dias e vida...

...depois de uma luta de vai e volta e sobe e desce e fala, fala, fala, cala, sala, ensina, em cima, embaixo, ali, lá, além, o bem, o bem, também, não mal; e pensa, a crença, reflete, insiste... é tarde, corrige, moral, palavra, palavra e verbo e segue e sigla e corre e pega e sobe e paga e senta, levanta e liga e atende e fala e fala e paga alto e paga a conta a comida, ingere, digere na sala, na fala... são muitos os olhos, os dentes, as caras, as bocas caladas, um fala, não fala, se cala... É tarde e cansa e senta, mas pensa no banho, relaxa e come, ler, ler, redige, ler, redige, apaga, digita, imprime os olhos que pedem a cama, acalma, pestana... e deita, apaga, levanta e bebe às pressas, alenta, coragem é tudo de novo, o novo não basta, não chega, não fala, não cansa... mas cansa a luta, a cuca que funde a labuta...o sol não se vê, a lua ao longe, minguando as estrelas, o fim da semana, o céu aparece e as preces, os carros, as luzes, a noite, a chuva no vidro, na porta da rua, barulho, cachorro, miado do gato no teto, menino inquieto, falando, falando, falando... e ouve, cantando, cantando, cantando, vanessa da mata, amando poesia...vinho...poesia...vinho...poesia...poesia...oh vida, que bom que você chegou, fique à vontade, fica comigo mais uma noite...
{jr}
Capa do cd Sim, de Vanessa Da Mata

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Poesia - Lívia Gaertner

Por Lívia Gaertner
DISLEXIA

Como me perturba essas linhas retas
A esperar qualquer hálito de ego
Nelas se impregnar.
A ausência de cálculos palavreados
Causa me uma desmesura plana,
Regular, sem alguma pedra no meio do caminho,
Sem nenhum Drummond.
É de uma sinceridade repulsiva,
Passiva com o branco,
Com a falta de traço, passo
A exemplo da inércia dominical
Regada a macarrão e à televisão.
Quisera eu poder programar o despertador
Na manhã da segunda
À hora do alvorecer dos pensamentos
Mais disléxicos,
Do meu penar mais patético.



TORMENTA

Induzem-te ao sono ao apagar as luzes.
Em tempos de fast food,
Padrões embalam pensamentos
Enquanto a normalidade desfila na falta de atitude.
Até a liberdade não escapa de orçamento
E o bom-senso há muito perdeu a saúde.
Cadáveres glamourizam etiquetas.
Sucesso: revista despida, carreira cometa.
Fiéis seguem a procissão da deusa high-tech
“De hoje, nada lhe serve,
Amém!”
Aquém de uma felicidade que se inventa
Fetiche por bit
Tormenta!
Foto: Edemir Rodrigues


HORIZONTE DE XARAÉS

No final da tarde, o arco
Que brotava do úmido lençol
A se estender por léguas de vista
Esperava, solenemente, a hora, o marco
De desfazer qualquer pista,
De consumir o Sol

Paciência de aquarela luminosa:
Da hipnose azul ao feminino rosa,
O salmão de conhecido batom
Exagerava-se até laranjado tom,
Esforço que esmaecia lento, amarelado,
E, da noite, apenas um esboço acinzentado

Tudo o que se transmutava naquele momento
Em peregrinação ao escuro
Era sentimento,
Tudo o que permanecesse naquele lugar
Longe dos olhos do apuro
Fazia se em agigantar.

Entrevista: Lívia Gaertner


Palatus et Colirius - Desde quando você escreve e o que o levou a fazê-lo?

Lívia – Comecei a escrever quando os hormônios de minha adolescência me apresentaram a possibilidade de sentir ‘coisas estranhas’ como a paixão. Momento nada original, mas enfim, foi assim. Era uma tentativa de sepultar a sensação de imensidão que não podia ser concretizada, afinal os amores platônicos da adolescência me renderam bons versos – adjetivo não pela qualidade, mas pela quantidade (risos).

Palatus et Colirius -
Há alguém que o inspire ou que você toma como referência?

Lívia – Possuo um poema intitulado ‘Referências’ onde exponho algum desses nomes que me fascinam. Clarice Lispector e Vinícius de Moraes dispensam apresentações. Manoel de Barros, nome mais recentemente popularizado também pode soar familiar a alguns, já Lobivar Matos, que se alcunhou de ‘o poeta desconhecido’ começa a ser redescoberto pelos conterrâneos, corumbaenses como eu. Orientado por uma temática extremamente ligada ás questões sociais é um marco na poesia do MS ao intitular seu primeiro livro com o nome de um dos bairros mais desprovidos da cidade na década de 30: Sarobá.

Palatus et ColiriusFalando em temática, existe alguma que domine seus textos?

Lívia
– Para falar a verdade, ainda são poucos os poemas que fogem do lírico. Tento ser mais engajada e algumas vezes acredito que valha o esforço, mas na maioria, ainda não superei a adolescente apaixonada. Apesar disso, me acho, hoje, mais interessante do que quando na casa dos meu 13 anos. Em grande parte isso é influência de um grande amigo, poeta e confidente de versos, o Riccell. Ele me embeleza e me ‘desorienta’ com seus versos; é a instabilidade que preciso.

Lívia Galharte Gaertner (1981), natural de Corumbá - MS, é graduada em Letras (habilitação Português/Inglês) pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Campus do Pantanal, onde está cursando a segunda habilitação, em Língua Espanhola. É também jornalista do Diário Corumbaense e professora colaboradora na UFMS tendo sob a responsabilidade a disciplina de Prática do Ensino da Língua Portuguesa I. Junto à professora Rosangela Villa da Silva coordenou e participou da antologia Olhai os Versos do Campus, publicada em junho deste ano como parte das comemorações dos 40 anos de instalação da UFMS em Corumbá.

Capa da Antologia em que publicou

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Somos todos iguais, braços dados ou não...

Há muitos anos, alguns países vêm lidando com duas forças que se somaram para comprometerem o desenvolvimento humano e provocarem, silenciosamente, o desequilíbrio das nações. Tratam-se da pobreza e da desigualdade social — ambas oriundas do processo de dominação e concentração de riquezas. Nessa ótica, a primeira força sustenta o atraso daqueles que buscam sobreviver à grande desordem; enquanto a segunda vem dividindo a sociedade em dois blocos, dois mundos, tornando-os habitáveis por “alienígenas” de espécies antagônicas: rico, pobre; dominador, dominado; patrão, (des)empregado.

Mas não existem dois mundos. Existem, porém, desordem, desconstruções, desequilíbrios sociais fundados a partir de uma lógica egoísta produzida através da prática de acumulação de riquezas; uma lógica daqueles que promovem o crescimento econômico apenas com o intuito de atender aos interesses de um seleto grupo. É fato que o desenvolvimento científico e tecnológico, impulsionador desse crescimento, nasce com a Educação, nasce com os homens, e o seu produto deve-se voltar para todos eles, sem distinção; no entanto, essa premissa ainda é pouco levada a sério nos dias atuais.

Os países mais ricos do mundo têm se aproveitado, na maioria das vezes, do importante potencial técnico-científico para desenvolverem formas de enriquecer–se e de dominar os mais fracos, por meio até da força bélica. Porém, seria mais significativo se promovessem ações em nível cultural, desportivo, educativo e de outras políticas públicas em benefício das populações mais pobres do mundo, a fim de diminuírem a desigualdade social cada vez mais acirrada.
Por outro lado, quando se trata de uma sociedade como a brasileira em que os mais ricos ganham em média vinte e cinco vezes mais que os mais pobres, pensa-se em alternativas imediatas. Uma delas é buscar apoio nas grandes e médias instituições privadas para diminuir o índice de pobreza. Dessa forma, haveria descentralização de responsabilidades, menos concentração de renda, além de estabelecer um certo grau de conscientização das pessoas nessa luta.

O combate à pobreza no mundo e especialmente no Brasil, cabe à sociedade civil, à iniciativa privada e aos governos. Só não nos cabe mais continuar culpando estes últimos por não terem conseguido de fato extinguir este problema nem encurtado a diferença entre pobre e rico. Também não nos cabe tornar-nos indiferentes diante de tal situação, cuja conseqüência já conhecemos de perto. Compete-nos, junto a esses três segmentos, criar um plano de ação sustentado nas bases da educação, do emprego e da assistência social aos mais necessitados, com intuito de reduzir-lhe a diferença sócio-econômica.

Vencer os problemas nacionais, regionais e locais para anular a atuação dessas duas forças negativas e promover uma melhor qualidade de vida não é, portanto, tarefa fácil nem possível de ser executada em uma ou duas décadas. É um projeto para longo prazo, que só tem eficácia se construído mediante visão educadora, cujo objetivo é formar indivíduos críticos capazes de produzir conhecimento e, conseqüentemente, solucionar os problemas humanos... Por que não começaremos agora?
{jr}

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Ecoa, voz de Felinto, ecoa!

Sou professor, estudante de Letras. Leitor assíduo da revista Caros Amigos (http://carosamigos.terra.com.br/). Ainda no ensino médio vi na revista um rico meio de adquirir conhecimento, hábitos de leitura, interesse pela escrita e, sobretudo, uma maneira de enxergar a sociedade (em seus diferentes ângulos) de forma crítica. Mas isso não seria possível se não houvesse grandes nomes como Ana Miranda, Emir Sader, Gilberto Felisberto Vasconcelos, Nicodemus Pessoa, Frei Betto, Marilene Felinto, dentre outros. Hoje, já na academia, percebo que muito este veículo me foi e tem sido útil.

Aos artigos de Marilene Felinto sempre dediquei a primeira atenção, porque me serviriam de remédio, ora para fazer-me refletir acerca de notícias muitas vezes mal repassadas ora para proteger-me contra futuras informações distorcidas e intencionalmente mal elaboradas por veículos “globistas”ou não que se dizem imparcial e responsável. Com o artigo da edição n.124, “desumanizando a empregada-puta”, Marilene Felinto me fez outra vez repensar em como podemos ser facilmente manipulados por uma mídia medíocre e – ao contrário do que se espera – tão deseducadora.

Sem pensar duas vezes, levei-o para minhas aulas de Redação e Língua Portuguesa e senti-me feliz ao ouvir no final da aula alunos me dizerem: “Professor, como não tinha pensado dessa forma! A partir de agora vou analisar as informações construídas pela mídia com uma olhar diferente” – isso para mim não tem preço! No último artigo “a TV que não ensina a morrer”, a mesma autora, ao relatar sua visita a um sebo e concluir que seus livros estão esquecidos, declara “Tudo o que eu quero – esquecimento”. Confesso que isso não vai ser possível (e ela sabe disso!), porque, assim como ainda se ouve uma voz que ecoa ao longe e chega até nós por meio de veículos como este, há de se estender os ouvidos aqueles que a lêem; há de não se calar os jovens diante de uma mídia que não espera que eles enxerguem com os próprios olhos e pensem com a própria cabeça.
{jr}

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Voyage

Kandinsy, Composição IV, 1911
Voyage

(A Rozenn)

Aqui estamo-nus
com algumas palavras e
sobre a mesa, garrafas vazias
pratos sujos...
Alguém busca os escritos
Alguém arrisca um sussurro
Outro, um sentido torpe
para sujas palavras
línguas, línguas
línguas soltas
tribos de tribalhistas:
descançam canción chanson
em nossos ouvidos
Mas eu... só enxergo de dentro
para fora
numa voyage sem retorno.
{jr}

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Colaboração


(Quadro de Juraci Dórea,


Por Angelo Riccell Piovischini




(A Geisa, Roque e Jocenilson)

Entrevista

Palatus et Colirius - Desde quando você escreve e o que o levou a fazê-lo?

Riccell
- Comecei a escrever poesias com 13 anos quando cursava a sétima série do ensino fundamental numa escola pública no município de Feira de Santana-Ba. Um professor de história naquela série foi um dos meus grandes incentivadores à escrita. Ele recitava as suas poesias para toda a sala, o que fazia com que boa parte da turma ficasse admirada. Eu, em particular, me encantava. A escrita tem esse poder da sedução.

Palatus et Colirius -
Você tem apresentado forte inclinação para a escrita poética, tendo publicado algumas poesias em concurso nacional. Há alguém que o inspire ou que você toma como referência?

Riccell - Comecei então a querer escrever poesias. De lá pra cá, hibernei muitas e muitas vezes. Tive o privilégio de estudar com professores como Juraci Dórea, Antônio Brasileiro e Roberval Pereyr que me são presentes referências literárias. Em minhas andanças pelas letras não poderia deixar de destacar meu gosto e admiração pela belíssima literatura de Clarince Lispector... Pela poesia anti-tradicional e quotidiana de Manoel de Barros. Por enquanto são os autores que mais tenho admirado. Minhas andanças não pararam e muito ainda tenho que aprender e descobrir. Experimentar para revivescrever em poesia.


Angelo Riccell Piovischini (1981), natural de Feira de Santana-BA, é graduando em Letras com Inglês pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). É também professor de língua inglesa pelo Núcleo de Estudos Canadenses/Projeto Portal Universitário vinculado a esta universidade. Escreve poesias desde 13 anos de idade. Faz parte da antologia Olhai os versos do campus, sob a coordenação de Rosangela Villa da Silva com a colaboração de Lívia Galharte Gaertner. A antologia poética é fruto da comemoração dos 40 anos da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) - Corumbá.


sexta-feira, 24 de agosto de 2007

desolação

Fonte: http://thefuckingshit.org/images/perdido_angeladini.jpg


desolação

estavatoanavida
estavatoanapraia
estavatoanomundo
cortadopelanavalha

estiveórfaodavida
estivividaferida
estivemortonaporta
dosemiteriodavida

esperochuvanaroça
esperopovonaluta
esperorangonaboca
elivroabertonacuca

{jr}

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

O amanhã e nós


Amanhã e nós


E se o sol não brilhar novamente, e se a água fresca e pura deixar de cair sobre nossas cabeças, e se uma criança gritar por socorro noutro quarteirão, e se uma mãe nos roubar para alimentar seu filho, e se nós não acertarmos pôr a linha numa agulha, e se o governo nos trair outra vez, e se Deus nos devolver o peso dos feitos humanos, e se as noites tornarem-se mais longas, e se a agonia e a angústia cantarem aos nossos ouvidos constantemente, e se a guerra não acabar, e se o alimento faltar em nossas dispensas, e se a vida estiver a ponto de perder sua essência? Instauremos, companheiros, uma nova revolução, pois os tempos cansaram-se de nós, mas nós não o deixaremos caminhar sozinho.

{jr}

domingo, 12 de agosto de 2007

Promessas cotidianas

Promessas cotidianas
à república
Não prometi
votar na democracia
amar todos os irmãos
ainda de olho fechado
ser um filho perfeito
ser um neto querido
ser a pessoa mais justa
ser o grande namorado

Não prometi
cantar o Hino à Bandeira
honrar as datas festivas
tirar notas brilhantes
chegar à reunião antes
ler esportes no jornal
por a toalha na corda
chegar ao trabalho cedo
depois de um festival

Não prometi
rezar todas as noites
ler a Bíblia Sagrada
ir a culto aos domingos
vigiar na madrugada
jejuar toda Quaresma
comer peixe à Santa-Sexta
cumprir todos mandamentos

Não prometi
dominar a norma culta
seguir as leis de trânsito
respeitar o bom sinal
não jogar lixo na rua
não correr de bicicleta
não xingar em praça puta
a mulher de um poeta

Não prometi

levar as crianças no parque
ser o mais fiel parceiro
ser um pai mais tolerante
dormir na praia em janeiro
dar moedas aos mendigos
parecer homem-diamante
em noites de carnaval

Não prometi
cumprir logo as promessas
ler poesia em outra língua
beber vinho no almoço
conhecer o litoral
ver o pôr do sol na praia
falar com novos vizinhos
nem que saiba o essencial

Não prometi
devorar Literaturas
escrever a melhor obra
defender sempre a verdade
enveredar os sertões
nas linhas de grandes rosas
ensinar às criancinhas
o valor da Liberdade
{jr}

sábado, 11 de agosto de 2007

Fuga

"Bebeu suas angústias
em cálices avidraçados
procurando fugir
do encontro
consigo mesmo.''
{jr}

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Meu repúdio contra Diogo Mainardi, um vejista!

No dia 25 de julho de 2007, o colunista (foto) da revista brasileira Veja n. 2018 publicou o seguinte texto de opinião:

Morremos todos
A posse do ministro da Defesa, na última quarta-feira, foi o espetáculo mais indecoroso da história política brasileira. Lula ria. Nelson Jobim ria. Tarso Genro ria. Guido Mantega ria. Celso Amorim ria. Juniti Saito ria. Marco Aurélio Garcia ria. Por algum motivo, até mesmo o demitido Waldir Pires ria. Lula provavelmente se regozijava por ter se safado, segundo seus cálculos, de mais uma fria. No caso, os 200 mortos da tragédia da TAM. Ele repetiu despudoradamente, com sua risada, o gesto de escárnio feito por Marco Aurélio Garcia em seu gabinete, no Palácio do Planalto.

Que espécie de gente tripudia sobre 200 mortos? Como alguém pode atingir esse grau de pusilanimidade? Se um dos militares presentes naquela sala batesse vigorosamente as botas, Lula e seus ministros com certeza sairiam em disparada, aos gritos, acotovelando-se e pisoteando-se no carpete verde. Eles só sabem cuidar da própria pele e do próprio bolso. Dane-se todo o resto. Ninguém derrubará Lula. O que vai acontecer conosco é muito pior: um progressivo desmoronamento da sociedade. É sempre complicado tentar apontar o momento em que um país se perde irremediavelmente. Mas, se eu fosse apostar, apostaria todas as fichas que ele ocorreu na posse de Nelson Jobim, na quarta-feira passada. Entre uma tirada de bar e outra, Lula profanou os 200 corpos dando a entender que o desastre poderia servir pelo menos para diminuir as filas da ponte aérea. Uma sociedade resiste a um governo corrupto. Ela resiste também a um presidente incapaz. O que elimina qualquer possibilidade de convívio é o triunfo dessa boçalidade predatória que caracteriza Lula e sua gente. Eles cercaram a cidadela e ficaram esperando que nossas reservas de civilidade acabassem. Elas acabaram.


Estamos desarmados e rendidos.O Brasil é um buraco. Nunca fizemos algo que prestasse. Mas até outro dia ainda tínhamos uma vaga idéia de como nos comportar. E era essa vaga idéia que mantinha o país andando. Andando de lado, mas andando. Uma das regras de comportamento que a gente seguia era manter certa dose de compostura diante da dor pela mort
e de alguém. Lula violou essa regra. Depois de violá-la, tripudiou mais uma vez, ensinando aos familiares dos mortos do desastre da TAM que é preciso que a gente tenha momentos de descontração para tornar a vida menos sofrível'. Um dia Lula morrerá. Mas nós já teremos morrido antes dele.”
In. Revista Veja. n. 2018. 25/07/2007. Brasil.
Hoje, após tê-lo recebido de um amigo, escrevi-lhe uma carta, manifestando a minha opinião acerca texto e do autor.
"Caro colega Marcelo,

Depois da leitura de Chauí e agora deste texto. Faço algumas perguntas um tanto idiotas: De quem é a culpa sobre o aquecimento global? De quem é a culpa a respeito da guerra no Iraque? De que é a culpa a respeito da queda das torres gêmeas? De que é a culpa a respeito da prática exacerbada de corrupção brasileira? De que é a culpa a respeito da crise aérea no Brasil? De quem é a culpa a respeito de tantos outros problemas nacionais, internacionais, globais? Ah, ainda tens dúvidas? A culpa, meu amigo, é do Lula! Antes, o mundo era um paraíso. Bastou Deus (ou sabe quem) dar o direito de voto ao nordestino Lula para o caos instaurar-se sobre nós, os inocentes, os pobres anjinhos – o povo.

Antes, não havia nenhum destes problemas. Depois o Diogo Mainardi vai dizer que a Veja - na qual ele “vende seu peixe”, e diga-se de passagem, peixe podre – este veículo midiático “inocente” ficou assim ruim por conta de Lula. Ora pois! Dizer: “Lula ria (...).O Brasil é um buraco. (...) Lula violou essa regra(...) Mas até outro dia ainda tínhamos uma vaga idéia de como nos comportar. E era essa vaga idéia que mantinha o país andando. Andando de lado, mas andando (...)” é ridículo! É claro que o Presidente da República tem lá suas culpas em “cartório”, uma vez que parte de sua equipe é capenga; entretanto um jornalista que se presa não se dá o direito de formar uma opinião tão bem distorcida e vulgarmente tendenciosa.

“Ninguém derrubará Lula”. Lembra –se do que M. Chauí disse? Há todo um projeto para este objetivo.

Lutemos, pois, caro colega, para que com a educação possamos ensinar aos nossos alunos a enxergar além, enxergar os implícitos e salvar-se da mediocridade e da ignorância que por vez mata!

Desculpa-me por me estender tanto!
Um abraço,
Nilson Ribeiro"

sábado, 4 de agosto de 2007

Metade - Oswaldo Montenegreo


de oswaldo montenegro


Metade

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...


Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...


Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...


Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...


Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...


Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para faze-la florescer;
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção...


E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.


Oswaldo Viveiros Montenegro (direita)nasceu em 15 de março de 1956, no Grajaú, Rio de Janeiro, filho mais velho de quatro irmãos. Sempre adorou ler e devorava coleções de Júlio Verne, Monteiro Lobato, Malba Tahan".
"Um dos mais consagrados nomes de nossa MPB, com uma das mais privilegiadas vozes de nossa música e técnica vocal e instrumental invejáveis, Oswaldo construiu, nestes 31 anos, sólida carreira como cantor, arranjador, compositor, autor e diretor de teatro, com peculiaridades pra lá de interessantes. Tem 34 discos lançados, mais de 14 peças musicais, todas recorde de público e algumas – como Noturno, A Dança dos Signos, Aldeia dos Ventos, em cartaz há mais de 15 anos. Como compositor, tem músicas gravadas por Ney Matogrosso, Sandra de Sá, Paulinho Moska, Zé Ramalho, Alceu Valença, Zizi Possi, Glória Pires, Zélia Duncan, Jorge Versilo, Altemar Dutra, Gonzaguinha, Sivuca e outros nomes consagrados. Seu livro infantil “O Vale Encantado” virou disco, musical e vídeo e foi indicado pelo MEC (Ministério da Educação)".
Texto e foto retirados do Sitio oficial:

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Responsabilidade: uma conquista cara

Não tenho a menor pretensão de fazer deste blog um diário, até porque não foi com este objetivo que o criei. No entanto, já que é aqui que me coloco também na condição de leitor, então posso dizer que uma escrita pessoal tem caráter de memória... logo, a arte literária por aqui passeia. Ou não?

Bem, passeando ou não aproveito o momento para deixar aqui o que mesmo quero dizer.
Hoje, para mim, foi um daqueles dias. Dias de guerra interior. Se as mulheres têm tempo para ficarem “naqueles dias” todos os meses, conforme rege a natureza biológica, os homens têm seu tempo de glórias e inglórias. A diferença é que não perdemos sangue (com o perdão da intimidade!), mas perdemos a paciência e deixamos de lado a tal da responsabilidade.

Se tivermos contas atrasadas para pagar, desesperadamente nos preocuparemos; se o cachorro do vizinho (eliminemos a ambigüidade) invadir nosso quintal deixando fezes lá, outra confusão; se o nosso estiver solto, perderemos o ônibus porque vamos gastar muito tempo correndo atrás para pôr-lhe a coleira; se o trabalho da faculdade não estiver pronto meia hora antes de entregar, a cabeça esquentará a ponto de explodir – já não há como pensar! E ainda: se tivermos relatório de trabalho para apresentar ao chefe e este possivelmente encontrar mil defeitos na primeira olhada, a desejo é de desaparecer da empresa para o resta da vida.

Isso é apenas uma suposição para justificar como às vezes somos levados a pensar que, para eliminar os problemas, seria mister dormir por semanas ou até meses e só acordar quando tudo estiver conforme a nossa vontade. Foi nisso que pensei hoje...Tive vontade de não sair da cama, sim! Ficar lá até a vida resolver sozinha todos os meus problemas. E por que não os do mundo?

Não estou entediado, não estou aborrecido, nem em crise existencial. Não! Não é crise de identidade o que vivo nesse momento... como muitos hoje adoram adotar tal conceito para justificar seus conflitos. Sabe quando estamos naqueles dias que se pudéssemos não sairia da cama? Pois é, é assim que estou me sentido. Este tipo de comportamento faria minha avó dizer - se estivesse comigo - "é coisa de quem levanta da cama de cueca ao inverso!" Mas não é. É coisa de quem tem muita coisa a resolver e não sabe por onde começar. Daí surge o desejo de se eximir das ‘responsabilidades’ (palavra que meu pai tanto me martelou aos ouvidos). Responsabilidade, responsabilidade, responsabilidade: quando a gente a adquire, sente seu peso e o desejo de dormir e acordar criança.

jr

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Acordando com o pé esquerdo*

Por Cristiano Uzêda Teixeira**
Você já ouviu falar na lei de Murphy? Ela diz que se há possibilidade de alguma coisa dar errado, dará; e mais: dará errado da pior maneira, no pior momento e de forma a causar o maior estrago possível. Pois é, hoje a conheci na prática.
Às seis da manhã o celular toca, ninguém levanta. Às seis e dez, mais uma vez, nada. Por força do hábito e contra a vontade do corpo, levanto enquanto todos dormem. O celular está na sala. O corredor parece não ter fim.
— Porra! Não acredito nisso... como é que pode? Ninguém ouviu?
Acordei minha filha, levei-a ao colégio, depois fui ao supermercado. Até então estaria tudo bem a não ser uma dor no dedo que começava a me incomodar.
Ao retornar à minha casa, todos ainda dormiam tranqüilamente. Não demora muito e todos acordam, e as “visitas” de sempre chegam, são os pedreiros... Martelo, prego, cano, forro, telhado, tudo junto. Da área de serviço, ouço uma conversa, são eles, no telhado.
— Acho que vai chover.
— Que nada! É só uma nuvem.
De repente começa a chuviscar. A chuva aumenta. Do corredor, ouço vozes desesperadas.
—Mãe, mãe....tem um pingueirão no quarto, um pingueirão, um pingueirão...
Com o susto, corro rapidamente para o quarto.
—Meu Deus!!! Meu Deus!!! Segura, segura... O computador. A televisão. O DVD. Peraí, tira a antena. Os fios estão no chão... Sai daí Bruno! O guarda-roupa, não pode molhar!
Chovia mais no quarto do que no lado de fora da casa. Estava tudo destelhado, a chuva estava atingindo diretamente o forro. A água escorria pela parede como uma cachoeira. Meus sobrinhos tentavam salvar os eletrodomésticos. Um segurando a televisão e o outro tentando cobrir o computador. A água não parava de invadir o quarto. Os fios do computador, no chão, ameaçavam um curto-circuito; da mesma forma, a lâmpada que, àquela altura, já havia virado um chafariz.
Rodo, vassoura, pano, balde. Tudo para conter a água.
— Eu não mereço isso não!
A chuva começa a passar. O sol a brilhar ao alto. Só tinha que ser daquele jeito. Acontecer aquilo. Só isso.
Aproveitei para lavar o banheiro. Ao concluir esta tarefa, percebo que alguém sobe rapidamente as escadas. Era meu filho de oito anos. Ele estava apertado para ir a o banheiro, mas, infelizmente, não conseguiu chegar a tempo. Adivinha onde ele faz suas necessidades?
— Mas Bruno!! Eu tinha acabado de limpar o banheiro!!!
— Mas eu não consegui chegar no vazo...
Como se não bastasse, a dor do dedo piora. Quase não consigo terminar de fazer o almoço.
Às doze horas, uma invasão de estudantes. A sala vira pista de dança. Almoço a la forró. Era minha filha com os colegas. Tudo bem, pelo menos ela está em casa, mas a dor no dedo...
No começo da tarde, vou ao médico. Parece que a recepcionista não estava nos seus melhores dias.
— Boa tarde.... Boa tarde... (passa um tempo).
— Boa...
Entrego a identidade e o cartão do plano de saúde.
— Pode sentar e aguardar.
Era para eu ser a sexta a ser atendida, mas não foi bem assim. Algumas pessoas foram imediatamente atendidas assim que chegaram, e eu esperando... e a dor no dedo... Ao ser atendida, o médico pede que faça o raio x da mão, ou seja, tome-lhe uma carga de radiação!
Aguardo um pouco o resultado. Ao chamar-me novamente à sua sala o médico diz:
— Tudo normal no seu dedo, pelo menos na estrutura óssea. O que há é uma inflamação. A senhora terá que usar esse remédio durante oito dias, de seis em seis horas, ininterruptamente.
Até então tudo bem, mas logo lembrei que de hoje a uma semana é São João e que eu teria um aniversário neste fim de semana. Conclui que tomar remédio implica em não consumir bebidas alcoólicas.
— Ah não! Até quinta tá ótimo, tomar remédio sexta ninguém merece! - Isso o médico não ouviu, lógico.
Além disso, o médico pediu que o dedo fosse imobilizado. Prontamente, me dirigi ao “enfermeiro”, que também não parecia estar num dia muito agradável. Ele estava a fazer o curativo quando ouço um barulho de sirene. Pergunto:
— O que é isso moço?
Ele olha com descaso e diz:
— Está pegando fogo!!!
— Hã!? Pegando fogo? Eu vou sair daqui agora!
— Calma, minha senhora. É o toque do meu celular!
— Eu não acredito nisso.
Quando reclamei da dor que estava sentindo, ouvi:
—Tá reclamando disso aqui? Você é feliz. Se você soubesse o que passa por aqui...
Coitado! Ele mal sabia o que eu já tinha passado no começo do dia... e ainda fez curativo que qualquer pessoa perceberia que não foi nada profissional. Um verdadeiro “armengue”! Uma faixa de esparadrapo cobria a palma da minha mão!
Voltei para casa dirigindo com aquela mão cheia de esparadrapo... hum!!!
— Eu não mereço.
Ao chegar à farmácia para comprar o remédio receitado, descubro que a caixa contém apenas 10 comprimidos, e que, para atender o período de administração passado pelo médico, teria que comprar três caixas com direito a sobrarem comprimidos e tudo.
— Adoro isso!
Em casa, às dezesseis horas só faltava fazer uma coisa: estudar para uma prova, que tive naquela noite, de uma disciplina que precisava tirar uma boa nota. E a concentração? Quem disse!!??
Alguém tem que dizer a esse tal de Murphy que se ele não foi feliz, problema dele. Eu quero ser!!! Porra!!!

*Este conto foi baseado em fatos reais vivenciados por Soraia Machado, tia do autor.
**Cristiano Uzêda Teixeira é licenciado em Geografia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), onde atualmente cursa Bacharelado em Geografia e Especialização em Modelagem em Ciêcias da Terra e do Ambiente.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Madre nobri

Madre nobri

Ave minha mãe repleta de glória. Meu pai é contigo todo glorioso. Abençoada és tu, mãe, entre as mães, e abençoado sou eu por ser o fruto do teu ventre. Abençoados somos eu e meus fraternos por carregarmos teu sangue e o sangue de nosso pai misturados em nossas veias.
jr

sexta-feira, 20 de julho de 2007

ACM e uma outra Bahia

Morre aos 79 anos ACM

Quem ganha e quem perde com a morte de Antonio Carlos Magalhães?
Que Bahia teremos a partir desse 20 de julho, dia de (in)glória?
O que muda e o que se eterniza?
Quais sãos as verdades e quais as mentiras acerca deste homem amado e odiado no Brasil?

Amizade: um outro valor

Amizade: um outro valor

Aos meus amigos,
neste 20 de julho.

Diz a sabedoria popular que a Amizade é a irmã mais próxima do Amor. Na cultura ocidental, ambos caminham juntos, chegando, a depender do contexto, a confundirem-se.

Hoje, num tempo em que se apela tanto pelo cultivo do Amor entre as pessoas — em contrapartida aos efeitos do individualismo e do egocentrismo provocados, muitas vezes, pela desconfiança no outro — percebo um esquecimento da prática da amizade. Mulheres sempre sonharam por um amor perfeito. Lembremos, pois, do mito do príncipe encantado (que virou sapo). Homens também idealizaram um amor celeste, puro, misto de maternidade e sensualismo. Não esqueçamos o complexo edipiano pensado por Freud.

O amor hoje virou objeto cobrável, comprável, solicitável, cuja ausência leva o outro a entrar em desespero. Às vezes, tal sentimento é moldado num formato 29 polegadas, quando não em tela de cinema. Os programas de TV e filmes românticos acabam “vendendo”, de certa forma, um modelo de amor jamais alcançável.

Voltando às cobranças (ou às compras). Quem nunca ouviu a diplomática pergunta: “Você me ama? Diga-me: você me ama?” Mas, raramente se ouve: “Você é meu amigo ou minha amiga? Você gosta de ser minha amiga ou meu amigo?” Não! A amizade não vem mais caminhando no mesmo rumo do amor já faz tempo. Amor hoje é projetado em espelho, cujo reflexo tem que corresponder às nossas expectativas e exigências. E quando não ocorre é porque nós não o projetamos antes. Amor hoje virou sinônimo de sexo, seja real ou virtual. O importante é ouvir no final a resposta positiva da pergunta: “foi bom pra você?”


Amizade não se cobra, não se questiona, não se vende, não se empacota em formatos televisivos nem fílmicos. Amizade se constrói. Amizade não gera lucros. Alguém conhece alguma loja de filo shop? Creio que não! Mas se conhece sexy shop. Quantas revistas há nas bancas sobre a preservação da amizade ou sobre a conquista da amizade? Nenhuma! Mas há nas bancas revistas sobre o verdadeiro amor, o grande amor, o amor perfeito, o Príncipe Encantado ou a Cinderela loura, de olhos azuis e corpo perfeito das novelas globais. Nem vou falar das revistas pornomágicas...

Por outro lado, assim como o amor, a amizade é traída. Assim como no amor, deve-se dar chance ao amigo ou à amiga a explicar-se diante do possível cheiro de traição. Assim como o amor, a amizade deve ser, sobretudo, cultivada, reavaliada, reconstruída, repensada e comemorada constantemente.
O amor em nossa cultura carrega diferentes sentidos a depender do objeto amado ou do ser que o manifesta. Amor de pais, amor de irmãos, amor de cônjuges, amor divino... Existe amor de amigo? Penso que a amizade seja única... posso estar enganado! Sei que ser amigo é enquadrar-se numa linha, em cujas extremidades estão os grandes irmãos e os grandes amantes, que erram, que acertam, que carecem de perdão.

Construamos, pois, amigos. Alguns vêm e ficam, outros vêm e vão. Uns mantêm-se presentes, outros perdem-se na multidão. Uma coisa é certa: ter amigos é se achar no dever de proteger e no direito de ser sempre protegido. Amigos não se qualifica como verdadeiros ou falsos, pois são sempre verdadeiros. Os que julgamos falsos se auto-revelam, tavez, como traidores de um sentimento nobre que eles mesmos se eximiram de cultivar.

Amemos então nossos amigos, sejamos amigos de nossos amores. É mais uma chance que temos de dar um novo sentido à nossa vida.
jr

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Temporal das horas



Temporal das horas



Viver é pensar no tempo que me cerca sem ter que pensar na hora certa de partir, o tempo são as gotas de chuvas sobre mim e nunca parei um minuto para contá-las, não penso nas horas que se vão, mas relembro-me de cada segundo que me empurraram para a escuridão, a vida não mais é forte, ao final dos tempos a penumbra se encarrega de me levar à luz dos desencantos, e eu - este deslavado - mais do que levado, sou possuído pelos escombros das horas, já não nasci e meu fim está logo ali atrás das vozes, já não vivi e meu fim caminha em outras direções, já não me vale esconder de mim outros e tantos nós de minha cabeça porque as horas hão de doá-la ao tempo, pensar,pensar, pensar, pra que pensar se não mais há tempo, os anos já não me restam, os dias cansaram-se de mim, as horas estão aqui em minha defesa aguardando os vermes consumirem os minutos que me restam com estas palavras.

jr

quarta-feira, 18 de julho de 2007

O paradigma das mudanças climáticas

O PARADIGMA DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS



Por Henrique Oliveira de Andrade


Mudança Climática, Aquecimento Global, El Niño, La Niña, afinal o que está acontecendo com o nosso planeta? Estas e outras questões são levantadas quando assistimos à televisão, lemos um jornal ou uma revista. Em certos momentos, somos levados a acreditar que a culpa é sempre do clima. É neste contexto que utilizamos palavras que expressam uma realidade que alguns dizem ser alarmante, colocando o Homem como o grande causador de tais mudanças. Outros afirmam fervorosamente que tudo isso é um ciclo natural do planeta, deixando a sociedade numa dúvida um tanto espiritual: será o fim do mundo?



É dessa forma que este assunto tão intrigante e ao mesmo tempo científico e religioso acaba caindo no senso comum, quando se acredita que a Terra está no seu fim, relembrando o velho e conhecido apocalipse da sagrada Bíblia: o Homem com suas mazelas sócio-ambientais destruirá todo o planeta por castigo divino.



Com o advento do termo “Aquecimento Global”, a mídia como uma grande massificadora das notícias desloca o foco das discussões, que ao invés de desmistificar, causa uma intensa onda de “fim do mundo” anunciado. Esta “realidade” climato-ambiental acaba travestindo grandes problemas mundiais de ordem econômica, social e política na forma de alarmismo frenético.



A ciência para alguns é direta e objetiva, porém está sendo contestada na análise de tais mudanças climáticas. Segundo alguns pesquisadores, elas são cíclicas e oscilam de acordo com parâmetros como inclinação Terra-Sol dentre outros. No entanto, alguns culpam o Homem e as atividades industriais por essas mudanças, oscilações, variações e ritmos de temperaturas em escala global.



Uma coisa é certa: a Terra está passando por aquecimento abrupto nos últimos anos, porém isso já aconteceu em épocas passadas. A grande questão é a causa e o porquê do aquecimento, haja vista que a Revolução Industrial introduziu o câncer do mundo contemporâneo que é a indústria, no entanto deve-se ter cuidado na análise de fatos e de resultados. Estas são algumas dúvidas que perpassam o campo da ciência: O aquecimento global existe? Será que ele é global mesmo? É o fim do mundo ou um fenômeno climático extremo? O Planeta está aquecendo ou resfriando? Como estamos na era das incertezas, reinam as dúvidas e os questionamentos.


Henrique Oliveira de Andrade (1985) Graduando em Licenciatura e Bacharelado em Geografia pela Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS / Bolsista Fapesb / Estação Climatológica (Desenvolve pesquisa sobre Clima Urbano, Geotecnologias e Estimativa de Evapotranspiração Regional) - Professor de Geografia do município de Feira de Santana-BA - henriqueuefs@ig.com.br

terça-feira, 17 de julho de 2007

Apelo - Dalton Trevisan



Apelo
Dalton Trevisan

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.
*************************************

Este é um dos contos que mais revelam a realidade familiar presa no curso do tempo que mais parece ligar-se a uma eternidade. Uma verdade que se põe longe das definições filosóficas e convencionais batiza o pequeno conto de Trevisan, cujo enredo nos coloca diante de uma imagem fílmico-fotográfica triste de um homem solitário. Solitário sim... A que se deve essa solidão? Talvez a morte denunciada pela ausência constante da Senhora faça o narrador avaliar o mal sem volta provocado por sua indiferença.


Dalton Trevisam (1925) é contista premiado e formado em Direito. Autor de mais de vinte obras, dentre eles Cemitérios de elefantes (1964), O vampiro de Curitiba (1965), A guerra conjugal (1969), A faca no coração (1975). Muitos de seus contos foram publicados em várias línguas. Alguns deles foram até adaptados a filmes, seriados de TV e peças teatrais no Brasil. Em 2006, o conto Capitu sou Eu transcrito do livro homônimo publicado em 2003, compôs a antologia Contos Cruéis: As narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea.
Para quem não conhece, sugiro que leiam seus excelentes e intrigantes contos tomando café quente num final de tarde. Obs: não mais quente que muitas de suas narrativas!

Um abraço!
jr

sábado, 7 de julho de 2007

Dumont do Mundo




Dumont do Mundo


Se eu fosse Drummond não teria sido um Drummond,
Não cantaria para este mundo caduco
Também não regaria a Rosa do Povo com o sentimento do mundo
As pétalas não resistem às lagrimas acidas, fúnebres, vulcânicas.

Se eu fosse Drummond seria somente mineiro,
Seria um simples brasileiro dentre os tantos brasileiros
Que em tarde de janeiro jamais vão a Pasárgada
Pra ver a vida passar, pra ver a banda tocar no mar do Leblon.

Se eu fosse Drummond não seria poeta
Teria sido um jogador, um bom ator, um atleta.
E faria gol com as pedras que encontro em meu caminho,
Porque no meu caminho não há somente uma pedra,
Mas um milhão de pedras no meio do meu caminho.

Se eu fosse Drummond não beijaria a América
Não cantaria o amor a América,
Também não lhe daria flores, não cantaria louvores.
Porque América o traiu com Raimundo e o deixou
Vagando no mundo, ouvindo o Corvo a perguntá-lo:
“José para onde, para onde José?”

Ah, se eu fosse o Gandhi Andrade apagaria a tocha de América,
Beijaria a Rosa de Hiroshima, e da outra menina.
Pregaria até nos confins do mundo a paz de Mahatma,
Mas no décimo dia de setembro subiria aos céus de dezembro
Porque na seguinte madrugada Dumont repousaria
As cinzas das gêmeas por sobre o mar de Manhattan.



jr

terça-feira, 3 de julho de 2007

Palavra: sinônimo de poder?

"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (São João, 1:1). Tomando o versículo supracitado, percebemos a acepção de Verbo como o próprio Deus. Este vocábulo é um dos mais polissêmicos de nossa língua e, além de ser o nome de uma das classes gramaticais, faz referência semântica à entonação, à palavra, ao discurso, à sabedoria, ao poder, enfim a Deus.


Estando de passagem numa comunidade do Orkut, site de relacionamentos, deparei-me com uma polêmica — sustentada por dois estudantes de Letras — que envolvia o uso da norma-padrão da Língua Portuguesa. Peço, desde já, perdão aos envolvidos pela apropriação de trechos das discussões publicadas, embora estejam em local de domínio público. Peço perdão também pela intromissão, mas confesso que a abordagem de tal tema chamou-me bastante a atenção a ponto de me prender à leitura. Fazendo minhas análises discursivas e formais acerca do assunto, cheguei a algumas conclusões (e qualquer visitante do referido site pode perceber o mesmo desde que não seja parte ou toda apagada). Mas, antes, gostaria de dizer que estou feliz por ter tido acesso a esta discussão e por ter ido dormir com a certeza de que aprendi mais.

Primeiro: tudo começou por conta do uso do “mim” em lugar de “me”; segundo: os autores apresentaram argumentos - com ou sem fundamentos teóricos e científicos - a fim de defenderem suas posições em face do exposto, o que é normal num debate; terceiro: a luta com e pelo poder estava em jogo: poder de quem sabe mais, poder de quem ler mais, poder de que fala bem, poder de quem ensina melhor, poder de quem debate retoricamente melhor, poder, poder, poder... E assim seguem suas diferentes formas e atuações.

No início, sem a menor intenção de polemizar, a estudante feliz “tascou” um ‘mim’ em sua frase “recebi um email mim parabenizando: ‘parabéns! o seu trabalho foi deferido’” e o estudante corrigiu-a dizendo: “Não seria 'me parabenizando'"? Ela refutou e ele novamente a responde, dessa vez com pressupostos teóricos: “Há a norma-padrão e a variação lingüística, certo? Porém, o que espera a sociedade de um estudante de Letras? Acredito que seja a norma-padrão. O último livro de Bagno está maravilhoso. Dê uma lida nele e depois responda à sua própria pergunta”.

No entanto, nessa luta de ataques e contra-ataques retóricos, em que Sócrates apresentou a Dialética e, em nossos dias, Van Eemerem
escreveu sobre a argumentação e contra-argumentação, vejo-os muito mais interessados em ouvir do outro “concordo plenamente com você” ou “você conseguiu me (mim) vencer” do que: “puxa, vida, como não tinha pensado nisso antes!” Ou: “aprendi contigo isso!” Mas a humildade passou distante dos interlocutores. Talvez sem intenção, o preconceito estava saindo pela culatra, ou melhor, pela boca. A saber: Marcos Bagno, citado no debate, é um dos sociolingüistas que acreditam que a língua é também objeto de manifestação de preconceito.

Notei, portanto, que o estudante em uma de suas respostas deu também uma escorregadinha contra a norma-padrão ao dizer “Aconselho dar uma lida nos referências teóricos sobre a variação e mudança lingüística”. Mas vejo que ele também se passou, e não devemos cobrar dele a norma por isso, tendo em vista que esta crônica pode estar sujeita a correções gramaticais e discursivas; e, como disse a internauta, “na net, a velocidade em que escrevemos nos impossibilita [fazer] certas revisões”.

Por outro lado, segundo a referida norma, o trecho do futuro literato deveria estar escrito da seguinte maneira: Aconselho-a a dar uma lida nos referenciais teóricos (ou nas referências teóricas) sobre a variação e mudança lingüísticas. Sendo assim, de acordo com Celso Cunha e o Dicionário Aurélio, ele cometeu alguns deslizes nesta sentença. Vejamos: 1- colocação pronominal: o verbo sendo bitransitivo exige a pessoa (O.D) quem se aconselha (a profª.) e a coisa que deve servir de conselho para esta pessoa (O.I); 2- regência: o verbo é regido pela preposição ‘a’; 3- concordância A: os modificadores ‘os’ e ‘teóricos’ devem concordar com o termo modificado ‘referências’ (palavra de gênero feminino), mas poderia manter os modificadores e escrever ‘referenciais’ (gênero masculino); 4- concordância B: “...variação e mudança lingüística.” – já que a variação e a mudança referem-se à questão lingüística, basta acrescentar ‘s’ naquela última palavra para que haja concordância. Se apelássemos para um português escorreito típico dos nossos colegas lusófonos, poder-se-ia dizer, eliminando a locução verbal: Aconselho-a a ler os referenciais teóricos (ou as referências teóricas) sobre a variação e mudança lingüísticas. Pergunto: quem vai pensar nisso na hora da escrita em internet! Poucos!

É claro que não devamos nos tornar apáticos diante de uma norma que deve ser respeitada assim como o próprio código de trânsito brasileiro. Já pensou se não houvesse uma regularização? De fato, os professores de língua portuguesa devemos possibilitar aos alunos o conhecimento da língua padrão bem como a variante, haja vista que a sociedade cobra-nos e vai cobrar-lhes a norma. Entretanto, não devemos andar por aí como reféns da gramática normativa. Como disse um dos futuros professores, aos quais me refiro nesta crônica, “o monitoramento lingüístico está ligado aos diversos contextos de fala”. As pessoas com um maior nível de escolaridade conhecem e reconhecem bem as normas popular e padrão; e acrescento: as de nenhuma ou menor nível de escolarização também as (re)conhecem, só não as dominam como aqueles.

Apesar de a palavra ser também um instrumento de poder, não devemos tomá-la como “cajado” para se sobrepor ao outro, tentando nos parecer dono de uma inteligência e saber que Deus (o Verbo Todo-poderoso) só conferiu a alguns: os que a dominam de uma forma impecável. Portanto, nós, vistos como falantes cultos ou não (professores, doutores, padeiros, médicos, advogados, açougueiros, jornalistas, bancários, padres, operários, ricos ou podres etc.) devemos ter a consciência de que a palavra deve ser útil e eficiente ao processo de comunicação nos espaços de relações sociais, sem que haja necessidade de ferir a dignidade humana.
jr