quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

As enes maneiras de fazer um ano novo diferente

Passou-se o Natal e mais um fim de ano é iminente. Não há mais tempo pra repararmos os erros, pra concertarmos as catracas soltas no depósito de badulaques. Não há como cumprirmos aquelas metas estabelecidas no Natal passado. E vocês vão descobrir que esse foi mais um ano que acabou passando rápido. Sentir saudades não adianta. O tempo praticamente já é outro.
Para o novo ano, vocês terão chances de planejar tudo de novo e tentar fazer alguma coisa que realmente valha à pena, porque “hoje a festa é sua, a festa é nossa, é de quem quiser, de quem vier...” Se não conseguirem, haverá novos natais, novos Anos Novos, e sempre existirão chances de começar de novo, numa infinita repetição. Lembrem-se: quanto menos criamos projetos, mais se tem chances de não haver cobranças e menos são as frustrações por não terem visto resultados.
Diante das contradições da vida moderna, seguem algumas instruções para o povo brasileiro, principalmente para os mais jovens, neste novo ano: a) não escutem seus pais antes de saírem para as baladas, escutem-nos na volta se ainda tiverem chances de ouvi-los; b) não assistam aos noticiários durante a semana, a menos que seu fã ou seu jogador favorito estiver sofrendo algum tipo de calúnia; c) não juntem grana durante o ano nem trabalhem muito pra conseguir, a menos que seu banco seja tão bom que não pareça banco; d) não votem em plebiscito nem campanhas milagrosas, a menos que se volte a vender indulgências como promessa de salvação da pátria amada; e) não doem sangue nem use camisinha, a menos que se sintam forçados a fazê-lo; f) não sejam transgressores quando o ideal é lutar pela democracia, acomodem-se com o sistema, pois é isso o que se espera de vocês; g) usem fármacos entorpecentes, com produção rudimentar ou industrializada, a menos que sua missão seja lutar pela desorganização do crime organizado; h) não leiam a Bíblia nem sequer um minuto no ano, a não ser que nela vejam mais um canal pra falar com Deus; i) não respeitem os mais velhos nem lhes passem o assento na condução, a menos que sejam capazes de se verem a meio século além do presente; j) não acreditem no governo, e continuem dizendo que eles são mesmo corrutos e ladrões...a menos que vocês se lembrem que todos são resultados de suas escolhas e comungam do mesmo direito de cidadão; k) não leiam - se tiverem coragem - queimem os livros, a menos que se tenha um bom livro de autoajuda ensinando-lhes as dez maneiras de se aproveitar o tempo lendo algo que valha à pena; l) não escutem as crianças, não leiam histórias para elas, não as deixem um segundo expostas à chuva nem ao sol; enfim, não as eduquem nem as deem bons exemplos, deixem que o governo tome partido dessa função quando elas crescerem, afinal, há tempo para tudo nessa vida, a menos que a vida não nos dê tempo pra mudar o rumo das coisas; m) ah, não sigam manuais de instruções por um ano, a menos que seja pra trocar um pneu... n) ...n...n...n... Não desejemos feliz ano novo apenas, sejamos felizes.
jr

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Vida e arte na praça da catedral

Perdão para os amantes das canções de Vinícius de Moraes, mas passar uma tarde numa bela praça pública não é o mesmo que “Passar uma tarde em Itapuã/Ao sol que arde em Itapuã/Ouvindo o mar de Itapuã [e]Falar de amor em Itapuã”. São ações totalmente diferentes, e, diga-se de passagem, muito mais interessantes que a sugestão preguiçosa do poeta. Permitam-me iniciar este texto fazendo referência comparativa à música do saudoso Vinícius, que nos presenteou com o Soneto de Fidelidade. Entretanto, de tudo aos meus olhos fui atento e, com muita atenção e zelo, que mesmo se houvesse desespero, o encanto da praça marcaria meus pensamentos. Dizem que a arte imita a vida, outros preferem acreditar que a vida imita a arte. Prefiro pensar que arte e vida são as mesmas coisas, nós é que não paramos pra pintar o quadro que as compõe. Digo isso porque , ao percorrer algumas avenidas da cidade de São Carlos, interior paulista, tentando desvendar seus segredos, entender a arquitetura de alguns casarões, contornar as esquinas e atravessar as ruas disputadas por carros e transeuntes, concluí que nada me custava sentar um pouco no banco da praça. Fiz então. Pus a mochila no chão e olhei para o céu por entre a copa das frondosas árvores. Respirei um ar mais puro. Queria apenas fazer isso enquanto descansava e tomar o rumo a passos leves, sem pressa. Não consegui levantar os pés. A energia da praça era muito mais forte que meu entusiasmo para continuar a andança. Olhei o relógio, 17h no horário de verão. Não era cedo, não era tarde...ah, pouco me importava o tempo naquele instante. Só se é cedo ou tarde quando se tem hora marcada pra fazer alguma coisa. Pus-me de pé, girei a 360º e voltei a contemplar o chafariz no centro. Fazia tempo que não observava um chafariz. Fiquei ali olhando por um bom tempo. Não me cansava em ver as flechas d’água atirarem-se contra a lei da gravidade numa briga contínua e interminável. À minha esquerda, notei algumas pessoas conversando sabe-se lá sobre o quê, cujos sotaques lhes eram peculiares. Podiam-se ver vários grupos separando-se em categorias distintas – uma metáfora da sociedade organizada dentro de desordem. Num banco, quatro senhoras de aproximadamente 65 anos pareciam conversar sobre religião; uma tentava provar algo com a Bíblia aberta. Logo depois saíam rumo à catedral. Mais à frente, vi uns senhores jogando dominó. Apenas um mantinha-se de pé com uma mão na cintura e a outra mexendo a alva barba bastante compenetrado, como se tivesse jogando por todos. Alguns xingavam... podia-se notar pelas feições sisudas. Vi também umas crianças de uniformes escolares brincando de bola. Riam felizes. À minha direita, pude contemplar um casal de jovens namorados aos beijos. Curtiam um ao outro sem vulgaridades. Fazia tempo que não contemplava um casal tão harmônico. Eles compunham a fotografia da praça, diríamos ser uma escultura se o rapaz não mexesse tantos as mãos tocando os cabelos da moça. Às vezes, não somos acostumados, na contemporaneidade, a compor a paisagem como personagem romântica, em muitas outras somos espectadores dos feitos e fatos atrelados ao sexo explícito negociado ali mesmo na praça pública, o que não era o caso. Ainda assistia à cena fílmica por trás dos chuviscos do chafariz colorido, quando uma mãe roubou minha atenção ao gritar seu filho, que arriscava passar por entre as grades da fonte. “Saia daí, filho, já te disse que não pode fazer isso”. Fiquei observando o menino de uns 4 anos de idade, e passei a refletir acerca da pureza de um indivíduo e o quanto o tempo é capaz de apagar tamanha virtude à medida que vão crescendo. Naquele instante, eu queria ser criança e atirar-me com roupa e tudo na fonte de águas cristalinas. Que se danem os não-podes! Ironicamente, notei, vindo em minha direção, duas motos. Eram policiais à paisana. Por um segundo, pensei em três possibilidades capazes de os trazer à praça: retirar a criança da grade do chafariz; expulsar o casal que continuava aos beijos e apertos ou prender-me por estar ali sozinho, sentado num banco, numa posição de suspeito, já que mantinha-me na praça por muito tempo. Tocaram suas motos adiante, e nada disseram. Depois disso, eu já não tinha mais ânimo para continuar a contemplar a paisagem que compunha a vida (ou a arte?). Levantei-me, pus a mochila nas costas e fui me afastando da praça. Antes de deixá-la de vez, recebi um punhado de grãos e tive dificuldade de livrar-me dos pombos famintos. Logo notei que foi um senhor quem o fizera, como se tivesse a me dar uma lição: “Alimente os pombos, meu filho, enquanto é cedo; eu já faço isso há muitos anos e ainda não morri”. Mas ele nada me disse. Montei um sorriso quando o mirei nos olhos e partir. A praça da catedral ensinou-me, naquela tarde, que as tintas, a tela e os pincéis estão sempre nos lugares certos, só precisamos deixar de pintar o sete e sair das prisões que nos cercam e nos cegam diante dessa vida efêmera e marcada pelas proibições. Proibições que nos atrapalham a pintar o quadro de nossas vidas a seu tempo e nos roubam a possibilidade de sermos felizes.
jr
Fonte: Foto: http://www.visitesaocarlos.com.br/fotofontecatedral.htm, acesso nesta data.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Frase fílmica

No Filme Olga: “Por você eu faço qualquer coisa, até renuncio a felicidade que sinto em ter você ao meu lado.” (Personagem Luís Carlos Prestes no filme) “Lutar pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo.” (Personagem Olga Benário)
jr

domingo, 23 de novembro de 2008

Sul tio

Tenho um amigo chamado André Vilas Boas, é daqueles cabra-machos do sertão que só fala a verdade. A última vez em que nos falamos, ele me disse que não sabia fazer poesia boa, eis abaixo a prova da desverdade.

sul tio

Com a pisada

penada da sorte

deu-se o remate.

Era com o zelo,

assim convicto

duma paz nata.

Secou sob o formol

de eras ante a espera

do dever vencido.

E a hora?

na lembrança

enterrado.

André Vilas Boas reside em Feira de Santana, onde cursa Letras com Espanhol pela Uefs, e trabalha como docente enseñando sus alumnos a aprender la cultura, literatura y lengua espánicas.
Imagem: Fonte: http://escuta-o-teu-coracao.blogspot.com/2007/01/de-partida.html

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Weekend noight

Weekend noight
(A Córdova) Weekend vem, weekend vai Amigos batem um call Os bares abertos logo ali... Querendo dizer alguma coisa E dizem... A noite me persegue com seus encantamentos E luzes e chuvas e ventos... O desejo vem e vai e vem e vai... Vem pra perto de mim, vem... O farol e o chuvisco brigam contra os pára-brisas
Uma garrafa de rum na mão e uma pedra olhando pra mim A noite promete, está só começando Mas eu não prometo nada
jr
(Imagem disponível no blog Floquinhos de Algodão: http://floquinhosdealgodao.blogspot.com/2008_08_01_archive.html) .

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Comunicação digital: a droga da vez?

Amigos, Para não perder a tradição no Palatus no qual se publicava em cada mês uma contribuição, segue uma crônica de um amigo, que nos faz refeltir sobre o uso dos meios digitais e as novas formas de relações humanas. Não se assustem com o tamanho, vale a pena ler.

Por Cristiano Uzêda Teixeira*

Como se comportaria a sociedade hoje sem alguns meios de comunicação como MSN, Orkut, Mp3, celulares? Fiz-me este questionamento depois de deparar-me falando sozinho e perceber que as pessoas às quais eu direcionava minha fala tinham suas atenções voltadas para uma tela de computador. Isso me fez notar que os meios de comunicação têm nos tornado cada vez mais indiferentes uns com os outros.

Lembro-me de uma república universitária movimentada, onde as discussões mais interessantes surgiam das ações mais simples. A interação era total. O tempo foi passando... um Mp3 ali, um Mp4 aqui, notebooks, internet. Esta última, sem dúvida, manipulou a atenção de todos. Já me parei a olhar todos calados, falando introspectivamente, rindo sei lá do quê... Mas, o pior de tudo é falar e ninguém perceber ou se quer olhar pra você. Isso sim é, no mínimo, desagradável - saber que fisicamente você está ali, bem perto de pessoas que convivem com você, mas, ao mesmo tempo, está sozinho, praticamente incomunicável. Saber, por exemplo, que é mais frustrante ficar sem internet a não conversar com quem se convive é, realmente, desolador. Ah, mas um dos poucos meios de roubar a atenção da tela do computador é através do toque do celular.

Por falar em celular, lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que saí de casa para cursar faculdade; naquela época ganhei o primeiro celular. A idéia em adquirir tal aparelho foi diminuir o impacto causado pela distância com a saída de casa. Naquela época (há cinco anos) foi necessário, afinal estava no final da adolescência e iria morar sozinho em outra cidade. No entanto, me questiono hoje, se comprar um celular tem a mesma função que tinha há cinco anos, pois, apesar de facilitar e agilizar a comunicação, este também pode distanciar as pessoas fisicamente.

A idéia de falar sem olhar nos olhos e de não “ler” as expressões faciais ao se comunicar com alguém nunca me agradaram. Nunca se sabe, verdadeiramente, o que ocorre do outro “lado”. Quando se fala ao celular, somente a fala é captada e interpretada. Gestos, olhares e outros comportamentos não são captados e acabamos por nos acostumar com isso. Não andamos cem metros se tivermos como usar o celular. Ganhamos a praticidade de falar imediatamente à distância e, ao mesmo tempo, perdemos o contato físico e a interação presencial entre as pessoas.

Nos dois casos (o da internet e o do celular), a distância é a desculpa para não se aproximar do outro, digo, se aproximar fisicamente. No primeiro, não há necessidade de conversar, pois o outro está ali e pode-se conversar a qualquer momento, mais interessante mesmo é falar com quem está longe, com pessoas diferentes. No segundo, o problema é o percurso a ser feito, a tendência é ligar mesmo que não seja necessário, talvez para não gastar energia indo até a pessoa ou mesmo por preguiça. O resultado disso tudo é que deixamos de conhecer mais o outro e nos tornamos mais introspectivos e indiferentes.

Diante disso, percebo que devo voltar mais minha atenção ao mundo real e desligar-me mais dos msn’s, orkut’s (que por sinal nem sou tão ligado assim) e dos trabalhos em excesso que me prendem a este meio virtual, à medida que entendo estes mecanismos como manipuladores do meu modo de vida, como uma droga que precisa ser dosada para não causar dependência.


* Graduado em Geografia pela UEFS e especialista em Ciências Ambientais pela mesma instituição. E-mail: uzedavca@gmail.com.

Fonte da Imagem: http://ecomunicacao.wordpress.com/2007/11/19/o-impacto-da-revolucao-digital-nos-modos-da-comunicacao-empresarial-2/ Acesso: 13/11/2008.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Amor e cumplicidade

(CR)
Qual o risco há em se apaixonar? Por que a paixão nos tortura e nos afaga ao mesmo tempo? O que nos leva a escolher o outro e nos faz acreditar que este outro nos complemente em vários sentidos? O que nos falta que buscamos tanto na pessoa que amamos ou com quem estamos envolvidos?
É com essas perguntas que me ponho a refletir e concluo que jamais tenho respostas eloqüentes e convincentes. Talvez uma das mais ingênuas seja: é porque somos seres incompletos e, por essa razão, estamos buscando descobrir a nós mesmos e dar sentido a nossas vidas. Talvez ainda seja porque o ato de amar requer vontade, desejo de troca, arrepio de pele, pensamentos que nos desequilibram enquanto indivíduo, batidas descompassadas de corações, tremores das bases, que antes ainda pensávamos que fossem nossos alicerces inabaláveis.
Não dá pra julgar o amor aos olhos da razão, não dá pra descrevê-lo quando nunca vivenciamos tão puro sentimento, e ainda assim nossa descrição é rude e ineficiente, pois não contempla seu real significado. Não dá pra falar de amor quando os corações se fecham para o outro. Simplesmente não dá pra amar quando nós não estamos abertos pra nos dar uma chance para ser feliz e fazer do outro nosso projeto de felicidade recíproca. Sim, felicidade recíproca, porque não se é feliz sozinho no amor, muito menos se faz alguém feliz quando não se ama. Amar sozinho cansa e o amor se desmancha aos poucos, já que o outro não repõe a energia que se lhe dirige. Amor e cumplicidade podem sim nos levar à felicidade completa. Quem bem amar saberá disso!
(RC)
(Fotos: Doação de F. Vieira. Col. Poa,RS)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Gêmeos II

Marcela é jornalista e irmã gêmea de Diego, que acaba de pegar o canudo na faculdade de Medicina. Natural de Ouro Branco, 26 anos, faz reportagens para um jornal local. No baile de formatura de seu único irmão, a jornalista feliz dirige-se aos pais acompanhada por um belo rapaz. Os anfitriões, por sua vez, não escondem dos convidados o orgulho por verem formados seus dois únicos filhos. “Pai, mãe, esse é Maurício, meu cunhado e vosso mais novo genro.” “Como assim mais novo genro? Você não está de casamento marcado, filha?” “Amado – alertou a mãe – ela disse cunhado, não outro noivo.” “Continuo sem entender!”- disse o pai segurando um copo de água com açúcar.
jr

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Gêmeos I

Diego, 25 anos, é irmão gêmeo de Marcela, que acaba de se formar em Jornalismo pela Federal. Natural de Ouro Branco, ele é médico residente do hospital universitário. No baile de formatura de sua única irmã, o rapaz acompanhado por um amigo, dirige-se aos pais, que não escondem dos convidados o orgulho por estarem formando a filha e prestes a formar o outro. “Pai, mãe, esse é Roberto, um amigo e cunhado de Marcela.” “Como assim cunhado de Marcela? O noivo dela não é filho único?” “Meu pai, Alôôô, raciocina!” “Não entendo!”, falou o pai tragando meio copo de whisky.
jr

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Vive Bruxo do Cosme Velho!

Cem anos de morte de uma pessoa são muito mais que uma vida, ainda mais para alguém que não morre por completo nesta vida. José Maria Machado de Assis (21 de junho de 1839 a 29 de setembro de 1908) completa hoje cem anos que mudou de estado. Não o estado do Rio de Janeiro, onde passou seus inteiros 69 anos, mas da matéria em carne para o estado de alma.
Pensar que ele morreu? Impossível do ponto de vista literário. Machado está mais vivo que muitos imortais da Academia que ele fundou. Junto com o mulato epilético, ainda se vê passeando por aí a dissimulada Capitu, com seu olhares oblíquos à procura de Bentinho (ou Escobar?). Eis o mistério da Rua de Matacavalos.
A depender de sua imaginação, amigo leitor, é possível encontrar, nas esquinas de leituras, um bate-papo - sobre a teoria do medalhão e a eficácia do emplasto - entre Dom Casmurro, o ranzinza Quincas Borba, Escobar, Brás Cubas em espírito quase santo, Virgília, Lobo Neves, Marcela, o conselheiro Aires, D. Carmo, Eugênia, Helena, Salvador e o garotinho Escobar montado nas costas de Prudêncio, o escravito.
É possível ainda encontrar Viana, Cecília, dona Evarista, o padre Lopes, os doutores Félix, Camargo e Simão Bacamarte (esqueci os outros); Sebastião, Crispim Soares, o adolescente Nogueira, Menezes, Vilela, Camilo, Rita, a cartomante, o cônego Vargas; dona Severina, Borges, Inácio, Carolina, entre outros convidados, na casa de Conceição antes da missa do galo. Em nossas cabeças, amada leitora, há espaço pra tudo nesta vida, inclusive para reconstruirmos a figura do mulato Machado e adaptarmos até ao mundo da internet e da vida pós-moderna.
Uma pausa, leitor, para uma ironia machadiana acerca das eleições: este ano, se Machado se candidatasse a prefeito, poderia falar, na TV digital, tela plana, em noite de debate:
Jornalista: ......................? Machado: ....................... Jornalista: .......................? Adversários: ..........................!!! Machado: ..............................! Jornalista: .......................

Já não há quem viveu o tempo de vida do Bruxo do Cosme Velho, muito menos sobrevive seu tempo de morte; contudo, ele se manteve entre nossas gerações até agora e continuará presente graças a sua engenhosidade na arte de escrever boas histórias e fazer pensar nossa própria condição. Seus personagens somos nós que, muitas vezes, agimos como eles, mas não temos a coragem de olhar nO Espelho, afim de, encarando-nos, entendermos os nós da alma humana.

jr

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Garou para quinta à noite

Hoje divido com você uma bela música cantada em língua francesa. Je suis le même é interpretada pelo cantor canadense Pierre Garand. Nascido na província de Québec em 26 de junho de 1972, Garou, como é mais conhecido, lançou em 2000 o álbum Seul, com o qual dá início a uma notável carreira solo. É neste CD que o cantor, juntamente com Celine Dion, interpreta a música Sous le vent, que lhes rende, em 2002, o prêmio NRJ Music Award de melhor dueto, um prêmio anual de música francesa. Seu mais novo trabalho foi lançado em maio deste ano sob o título Piece Of My Soul. O cantor tem levado sua canção a diversos países europeus, principalmente aos que têm o francês como língua oficial.

Assista ao clip Je suis le même: mire-o e deguste-o sem moderação!

video

Nota:

Je suis le même (Eu sou o mesmo)

Seul (sozinho)

Sous le vent (Sob o vento)

Piece Of My Soul (Pedaço de minha alma)

jr

sábado, 20 de setembro de 2008

Sexta-feira

Sexta –feira: melhor dia da semana! Tudo bem, a opinião é pessoal. Há quem diga que é sábado, mas insisto, é sexta-feira. Esse dia tem alguma coisa especial. Segundo a tradição bíblica, foi reservado à morte de Cristo. No imaginário popular, se cai uma data 13 numa sexta, é dia do azar, e aí seguem as histórias mais macabras para semear o medo às criancinhas. Poderia citar aqui outros exemplos, mas reservo-me a estes. O cinema aproveita o dia para lançar-se.

Certa vez escrevi um post aqui falando da correria diária (http://co-lirius.blogspot.com/2007/09/dias-e-vida.html)... e hoje volto ao tema de uma forma mais sutil.

Segunda é o dia que re-inaugura a rotina; já de terça a quinta, tudo se repete: as tarefas, o corre-corre, o estresse, as metas a serem atingidas, as aulas chatas, os artigos, as leituras obrigadas, o bom-dia forçado, as explicações sobre atrasos, as justificativas em casa etc.

Sexta-feira não, é um momento diferente. Mesmo havendo muitas atividades, é o dia que você trabalha preparando o cérebro para, ao chegar o fim do expediente, cair na night. Se não houver night, no problem, a gente vai pra casa sem o peso da rotina dos anteriores. Alguém pode dizer: “esse cara é folgado, não faz nada sexta à noite, curte todas e ainda não trabalha sábado, por isso está a falar essas besteiras”. Não! Trabalho sim sábado, mas adoro a sexta. É um dia diferente, garanto, para muitos brasileiros.

Domingo é um terror para o cérebro. É o dia que a massa encefálica vai se preparando para o “dia de branco”, segunda, o dia em que tudo se repete, dia em que se começa a sofrer uma segunda-feira antecipada. Daí ninguém mais consegue curtir a vida em paz.

Volto a insistir: que a sexta seja eterna enquanto dure! E que todos tenham uma excelente night. Ops! Minha sexta está acabando, vou fingir que amanhã é uma extensão do hoje.

jr

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

No restaurante

(André, Camilo, Clarissa, Nilson)

Como conseguem ter sentido as palavras?

Será que existem separadas dos sentidos?

Será que as sentimos quando existem?

Se souber, digam-nos, por favor...

jr

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Contribuição de Rubinho Lima

Os Sapos

Rubervânio Rubinho Lima

Alice caminhava pela mata, um riozinho corria próximo a uma fazenda. Aproximou-se de um riachinho e percebeu um barulho característico. Era um sapo. Crock Crock... O sapo coaxava, como entoando uma canção. Alice adorava bichinhos. Aquilo era demais para a garotinha de 13 anos. Era como estar em outro mundo. Um mundo diferente, longe de tarefas de casa, longe da cidade grande, poluição, apartamentos apertados e nada de bicho... Um sonho...

Alice queria chegar mais próximo daquela criaturazinha marrom e com olhar horripilante. . Crock Crock! De repente, não era um, mais dois, outro surgindo de uma pedra, mais outro... E pronto! Já eram uns cem ao redor da menina, que, a essa altura, estava pra lá de assustada com tanto sapo e tanto coaxar... Crock Crock!

Como em um relance, surgiu da água um sapão bem maior que os outros e muito mais assustador. Crock! Parecia algum tipo de líder dos outros, um rei... Com o coaxar grave do grandão, os outros começaram a se aproximar da menina, cercando-a como soldados. Crock! Ordenou mais uma vez o maior. A menina, cada vez mais assustada e muda só via sapos a cercando ameaçadores. Um deles pulou na direção de seus pés, e mais outros a sua volta. A menina desmaiou.

Seria um exército de sapos em guerra contra humanos? Seriam criaturas de outro lugar? De alguma história mágica? De algum livro?

__ Acorda, Alice, Acorda! Gritara Dora, sua mãe, com sacodidinhas nos braços da menina. Dormindo novamente na hora da lição de casa? Volta já para a tarefa de Ciências!

Rubervânio Rubinho Lima é natural de Paulo Afonso-BA, 29 anos, licenciado em Letras, pós-graduando em Especialização em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Atualmente, faz parte do Centro de Estudos do Cangaço - CECA (UNEB-Campus VIII) como pesquisador. Nas horas de inspiração, escreve contos adultos e infanto-juvenis. E-mail: rubinholim@hotmail.com.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Brazilian In-dependence Day

Poderia recusar-me a falar da Independência, simplesmente deixar essa data passar batida porque não se nota tanta independência. Não quero ser anacrônico e julgar, assim, o processo de “libertação” dessa pátria do regime colonizador via concepção de globalização atual. Também não se podem esquecer as muitas conquistas que a democracia brasileira permitiu ao longo desses 186 anos de libertação da Coroa. 186???

Não vou aqui defender teses, nem me adentrar nas discussões historiográficas até porque não sou da área, sou brasileiro apenas. Quero então fazer uso dessa data para dizer que, para comemorar, o país ainda DEPENDE:

1- De uma política que promova uma Educação libertadora como sonhou Paulo Freire;

2- De uma Ciência que possa contribuir para a melhoria da vida do brasileiro em todos os aspectos, não transformar em deuses os cientistas;

3- De uma Conjuntura Governamental, cujos líderes devem ser sensíveis às necessidades do povo, e não às suas posses e contas bancárias;

5- De um Sistema de Saúde capaz de não contar com o milagre da sorte, mas com a sorte de não precisar fazer milagres com as míseras condições hospitalares;

6- De uma Paz assegurada pela própria sociedade - já que ela é agente e paciente da violência que a vitima – não de uma política de segurança que funcione à base do medo e das incertezas;

7- De uma Comunicação que sirva a sociedade para informá-la, educá-la, esclarecê-la sobre o perigo de um poder centralizador e antidemocrático, não de uma Comunicação que se esqueça da ética e ludibrie as pessoas, servindo apenas aos interesses da elite;

8- De um povo brasileiro que venha a ter consciência de que a Diversidade deve ser mantida e, sobretudo, respeitada - senão há de perder seu sentido - já que o país é símbolo de uma cultura mista e diversa em sua essência;

9- Do Perdão da Dívida que sempre o coloca na condição de dependente;

10- De Nós para refletir sobre nossa própria condição de brasileiro e usar de nossas forças para tornar esse país menos presa dos gigantes, senão nossos sucessores vão comemorar daqui a 200 anos o que comemoramos hoje.

O que comemoramos hoje?

Ah, não é só isso que o Brasil depende, né?

jr

Imagem superior: Independência ou Morte : 7 de setembro de 1822 - quadro de Pedro Américo

domingo, 7 de setembro de 2008

Apologize para sábado à noite

Sábado pede uma boa noite de descanso, principalmente para quem não tem trabalho domingo. Então, nada melhor que, antes de deitar-se, ouvir Apologize, de Timbaland. Não se deixe contagiar por completo com as imagens do clip por ser meio triste, deixe-se apenas levar pelas batidas e bela canção. Para quem não conhece, Timothy Z. Mosley é norte americano, nascido em 10/03/71, é mais conhecido no mundo músical como Timbaland. Além de cantor, é também compositor, rapper e produtor de R&B e Hip-hop norte-americano.
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As informações e foto acima, além da letra, podem ser encontradas nos sites http://www.timbalandmusic.come e http://www.bastaclicar.com.br/MUSICA/historia.asp?id_artista=546 http://letras.terra.com.br/timbaland/954675/

jr

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Curriculum Lattes de Bebéa

Quando alguém me pergunta: de que personagem da literatura brasileira você mais gosta? Não penso duas vezes e respondo: Macabéa. Respeito opiniões contrárias, afinal não conheço todas as personagens da ficção brasileira, mas reservem-me o direito de colocar a maior invenção da figura (des)humanizada de Clarice Lispector no podium. Macabéa provoca, no leitor, um misto de inúmeros sentimentos mais macabros e ternos ao mesmo tempo. Incrível!

A vez primeira que li A hora da estrela, estava ainda na oitava série, e só consegui sentir pena da nordestina que amava os pregos. Depois disso, li no final do segundo grau para fazer vestibular da Ufba. Dessa vez, senti remorsos e culpa quando a personagem foi atropelada, sentimentos que Olímpio deveria ter, e não teve. Mas tarde, li na faculdade - cujo olhar crítico, muito mais preocupado em tirar uma nota boa através da análise, me levou a não sentir nada. Conclusão: Macabéa também desperta sentimento indefinível ou vazio.

Entretanto, hoje, pela primeira vez (podem rir), assisti ao filme A hora da estrela (Diretora: Suzana Amaral e atores: Marcélia Cartaxo, Macabéa, e José Dumont, Olímpio), graças a um amigo que me passou uma cópia.

Com o olhar preso à tela do computador e os ouvidos atentos a cada poesia proferida pela personagem Bebéa (somos íntimos!), não queria que o filme terminasse nunca. Primeiro porque já sabia o destino trágico da doce menina e não queria enxergar a realidade do fim nua e crua. E, segundo, porque eu não estava preparado para encarar um novo sentimento que, certamente, me seria despertado.

Hoje, mais um poesia da personagem clariceana ficou em minha memória. Vou dar o nome de “Currículo de Macabéa” a seguinte fala:

Sou datilógrafa

Sou virgem

Gosto de Coca-Cola

É claro que ela não é só isso, mas esse diálogo resume na essência a sua pessoa. Talvez estas sejam, a meu ver, as palavras que melhor demonstram a consciência de si mesma. Se Macabéa fosse escrita hoje, creio que a poesia seria a mesma, mas quem sabe ela não diria:

Sou digitadora

Sou desvirginada

Gosto de Pepsi Twist

Eu daria o título “Curriculum Lattes de Bebéa”.

Ah, deixe eu dizer, o sentimento que tive ao terminar de assistir à película hoje foi alegria, simplesmente alegria, por saber que Bebéa morreu feliz.

E você, o que sentiu ao encará-la pela primeira, segunda, terceira...vez?

jr

Imagem superior, cena do filme; imagem inferior, capa do romance.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Pra não dizer que só falei das flores

Já deixei claro aqui no Palatus et Colirius, ano passado, que não iria falar de mim até que houvesse necessidade. Não tenho bem uma justificativa específica, mas falar de mim ainda me incomoda; fica parecendo que eu quero aparecer, odeio isso! O fato é que hoje encarei a idéia, um ano depois, de que não existe discurso unicamente objetivo...não existe mensagem separada de quem a produz.

Em minhas leituras despretensiosas sobre discurso, aprendi que a ausência é a denúncia da presença, o obscuro pressupõe a clareza numa relação dialética, o silêncio é o anverso do barulho e assim por diante. Logo entendi a filosofia da coisa: a gente só sente falta daquilo que a gente sabe que existe ou já existiu. Ficou confuso?

Sim, mas o que tem isso a ver com a minha subjetividade no blog? Quando disse que não iria falar de mim, mentira, as pessoas já têm uma certa imagem de mim: mesmo de um modo superficial, fazem idéia do que gosto, do que leio, com quem falo, de onde falo, onde vivo, o que não gosto, se tenho um bom relacionamento com outros ‘bloguistas’ etc. Bem, se nunca viram aqui uma letra de pagode, p. ex., obviamente é porque não tive o menor interesse em discutir nem trazer à discussão uma letra dessa categoria (e há letra?). Pode ser que mais tarde eu mude de idéia – afinal as pessoas mudam de opinião ao longo da vida - mas até agora nada me levou a fazê-lo.

Por outro lado, esse espaço é bastante novo e há muito ainda o que dizer; linguagens e temas não faltam, felizmente. Quando eu achar que não vale mais a pena escrever/publicar por qualquer motivo, farei o mesmo que meu amigo português Ric no ano passado: C'est la vie(Até breve!), e tirarei férias. Entretanto, até então continuo produzindo e publicando, sem pressão e à minha maneira, aquilo que me faz bem e dá sentido à minha vida.

That’s it! - É só!

jr

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Contribuição de Fábio Alexandrino

Numa noite
O seu olhar era coisa fria – brasa apagada (o fogo pra sempre extinto) esquecida no meio da rua, à espera da chuva que o céu prometia. Lição de História Em 1959, meu avô (homem de pedra e Lei, a alma de chumbo) esconjurava os de barba e toda a Revolução de Cuba. Hoje, meu pai, ouriçado de tanta indignação, mas com o olho cego dos homens de seu tempo, esconjura os atuais políticos e a corrupção. Fábio Alexandrino é natural de Feira de Santana, formando em Letras pela Universidade Estadual de Feira de Santana, professor de Língua Portuguesa, Redação e Literaturas. É leitor, sobretudo, de Guimarães Rosa e Graciliano Ramos (ficção nacional) e de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de M. Neto (poesia brasileira). Entre as leituras e o constante trabalho, escreve poesia boa. E-mail: fabioredacao@hotmail.com
Imagem: Estátua de Carlos Drummond de Andrade, in Rio de Janeiro, Brasil.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Boemia pós-moderna

96 diz a 00:01:

... já vivi sim aventuras, e isso, às vezes, não é nada bom porque traz contraventuras.

69 diz a 00:02:

E...?

96 diz a 00:04:

E não espero nada muito sólido, mas estou querendo viver algo melhor... e curtir essa vida em paz.

69 diz a 00:05

Ker ser fliz então...

96 diz a 00:07:

Sim... por que não? trabalhar, ter algum dinheiro... pegar umas baladas, final de semana, não é ruim.

69 diz a 00:08

E o q mais?

96 diz a 00:10:

Beber um pouco de vinho, fumar um cigarro, estar na boemia pra não cair na monotonia da vida... fazer sexo pra não esquecer o prazer que a carne produz nem se acostumar com sua falta...

69 diz a 00:13:

Ainda ñ me respondeu...

96 diz a 00:14:

O que? Eu adoro andar de bicicleta perto da praia no final da tarde. É bom pra exercitar os joelhos...você já fez isso?

69 diz a 00:15:

Fala porra, o que vc curte?

96 diz a 00:16:

Eu? Eu curto a vida à sua medida...a vida, caralho, a vida!

69 sai da sala a 00:20...

jr

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Promessa insana

Quando eu era criança, nem todas as promessas me eram cumpridas, eu vivi sem elas até hoje e não morri; agora adulto ouço todo tipo de juramento, e até me fazem prometer; não prometo que em tudo ao meu amor serei atento porque eu erro às vezes e isso me incomoda tanto...mas não me faz infeliz.

jr

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Happy Birthday, my love!



Aug 5th, 2008

My Love's Day


"I dedicate this rose to my love!"


jr

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Diálogo ingênuo

Diálogo ingênuo


Estava eu a dormir faz algum tempo quando, de repente, senti uma forte dor. Senti um calafrio percorrendo a coluna como se fosse uma injeção de ar. Era a dor da morte! Mas não durou muito tempo, a injeção era mesmo de ar e tinha função anestésica. A sensação era outra: sentia-me como se fosse o próprio padre paranaense Adelir Carli, que desapareceu preso aos mil balões. Todavia, era a sensação de leveza sem nenhum adereço à moda Carmem Miranda.

A princípio, imaginei que estivesse em ares brasileiros. A surpresa era a de Cabral; a vista, colombiana, ambas adaptadas à modernidade. Não era a América, era um paraíso. Cheguei a essa constatação quando comecei a notar que estava aterrissando num lugar muito longe, nunca dantes visitado. Nesse instante, senti meu próprio peso.

Na superfície de um lugar, que vou chamar de chão por não saber o nome, dei uma olhada 360 e vi que tudo estava quase perfeito pra mim. Quase perfeito! Faltava apenas uma coisa: alguém com quem deveria dividir aquele lugar.

Quando pensei em me deslocar, ouvi um ser puro, diferente de todos os seres que já vi em vida. Era Deus, só podia ser. O diabo não poderia ser tão bom!

“Alguma coisa, minha criatura?”

Não consegui falar uma única palavra, estava sentindo um misto de felicidade com alegria... algo inexplicável!

“Não, não... está tudo bem” – respondi.

Minha consciência parecia estar fora de mim, era como se existisse um eu e uma outra pessoa num mesmo corpo. Logo percebi que havia cometido dois pecados: o primeiro se estabeleceu quando disse “não”, a palavra proferida a Ele era negativa; o segundo pecado foi mentir para Deus. Ele sabia que eu precisava de algo. Voltei atrás:

“Sim, meu senhor, eu preciso de alguém para compartilhar este belo lugar. É tudo com que sonhei, e não posso viver tudo isso sem nenhuma companhia.”

“Isso não é possível, criatura amada. Tudo que há aqui é completo e foi feito conforme seus pedidos quando estava lá embaixo.”

“Lá embaixo? Então aqui é o céu?”

“Não, o céu está lá embaixo. Lá está a minha casa, a nossa casa. Aqui está o mundo que pediu só para você.”

“Mas não há com quem possa viver, sorrir, ter filhos, meu Deus.”

Não precisareis de filhos, vós sois as minhas criaturas...

“Disse vós? Mas eu aqui estou só!”

“Sim, aqui você está só porque criei mundos perfeitos conforme você e tantos outros andavam me pedindo. Vejo que já não está satisfeito. Ali está uma porta, criatura, ela dá acesso para o mundo de lá, o mundo coletivo. Se escolher ir para lá, poderá voltar somente uma vez, isso vai depender de sua consciência.”

Minha consciência alertava-me para não questionar a Deus, não desobedecer a Deus, não tirá-lo do sério. Mas eu não podia aceitar.

“De novo não. Você fez o mesmo com Adão e Eva. Não posso escolher, não entro nesse seu jogo”.

Nesse momento eu e minha consciência estávamos falando a sós. Deus havia partido.

Comecei a me acostumar com aquela vida, uma vida quase perfeita. Eu não tinha a noção de tempo como antes. Tudo parecia nada, e nada era o meu sentimento de angústia por saber que estava só. Minha consciência não era uma fantasia, muito menos uma companhia física.

Dirigi-me até a porta e cheguei a pensar duas vezes antes de por o pé do outro lado. Ao me dar conta, já estava lá no meio da sociedade. Andava devagar a fim de perceber com perspicácia cada detalhe daquele novo mundo. Não sentia sede, não tive fome até então, meus desejos haviam-se apagado dentro de mim, sentia-me um espírito puro. Não queria mais ter filhos, não precisava de amigos, não sentia falta de companhias. Eu era simplesmente um ser sem vontades e não sentia falta da vontade, sabia que ali nada me faltava.

As pessoas que viviam naquele mundo falavam todas as línguas que se possa imaginar, e inclusive comigo... e eu as compreendia sem nenhuma dificuldade. Todas as pessoas eram iguais a mim. A vida era uma monotonia, mas não era ruim porque tudo estava em seu devido lugar.

Eu tinha tudo que precisasse e não pagava nada por isso, o dinheiro perdera sua função. Por um instante, pensei até que estivesse de volta a terra, porém a milhares de anos de quando havia sentido a dor da morte. Os homens haviam-se evoluído e pareciam imortais. As pessoas se amavam e não mentiam umas para as outras. Inteligência já não era um valor de distinção entre elas porque em nada se podia comparar...Não havia poder porque o poder estava nas mãos de todos.

Andei mais um pouco por entre os vales e rochedos...sim...havia rochedos e jardins bem preservados compondo a paisagem, e a cidade com suas casas luxuosos preservando arquiteturas medievais. A visão era esplêndida! As relações entre os povos eram diferentes das de outrora. Só existia apenas uma família e ninguém brigava, não havia por que brigar. Não havia mentira porque não havia verdade e não havia verdade porque não havia mentira.

Minha consciência me fez refletir por um milésimo de segundo quando me levou a perguntar a mim: há aqui alguma religião? Eu não sabia ao certo o que era religião, muito menos para que servia. Minha consciência até tentou me explicar que religião tinha o objetivo de “unir as pessoas novamente através de um líder maior”. Mas eu não entendia já que as pessoas ali nunca haviam sido desunidas. Todos ali viviam na eternidade e de nada reclamavam. Os homens e mulheres nada criavam para vender porque sabiam que os outros podiam criar também. As invenções que se conhecem hoje já não faziam sentido no mundo coletivo, já que todos ali se utilizavam apenas do necessário e não sabiam enganar o próximo.

Logo notei que não existia nenhuma criança, nenhum idoso porque ninguém nascia, ninguém envelhecia muito menos tinha que morrer. Aí minha consciência me colocou de prova diante de um tempo criado pela minha cabeça. Minha consciência nada mais era que o resquício de um passado do qual não havia me desprendido de vez. Minha consciência era a minha memória e o meu maior pecado juntos. Quando olhei para trás, avistei a porta pela qual tive acesso àquele mundo. Comecei a voltar e a me recordar de cada passo dado, das colinas, das cachoeiras, do campo, das flores, dos pássaros, pessoas sorrindo inocentemente, os castelos medievais, os animais, o ar puro, a conversa com Deus, a última palavra dirigida a Ele: “jogo”. Lembrei-me também dos meus dois pecados. Enfim, parei no meio da porta e tive dúvidas: não sabia se voltava para o mundo coletivo e monótono ou se entrava no meu mundo quase completo, e isolado. Na minha triste indecisão, ainda vi Deus olhando para mim e balançando a cabeça como se tivesse a dizer: “Minha criatura, nem eu te entendo.”

Acordei com meu cachorro lambendo a minha boca, e eu já não sentia a dor da morte como antes.

By J. Ribeiro