quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Vida e arte na praça da catedral

Perdão para os amantes das canções de Vinícius de Moraes, mas passar uma tarde numa bela praça pública não é o mesmo que “Passar uma tarde em Itapuã/Ao sol que arde em Itapuã/Ouvindo o mar de Itapuã [e]Falar de amor em Itapuã”. São ações totalmente diferentes, e, diga-se de passagem, muito mais interessantes que a sugestão preguiçosa do poeta. Permitam-me iniciar este texto fazendo referência comparativa à música do saudoso Vinícius, que nos presenteou com o Soneto de Fidelidade. Entretanto, de tudo aos meus olhos fui atento e, com muita atenção e zelo, que mesmo se houvesse desespero, o encanto da praça marcaria meus pensamentos. Dizem que a arte imita a vida, outros preferem acreditar que a vida imita a arte. Prefiro pensar que arte e vida são as mesmas coisas, nós é que não paramos pra pintar o quadro que as compõe. Digo isso porque , ao percorrer algumas avenidas da cidade de São Carlos, interior paulista, tentando desvendar seus segredos, entender a arquitetura de alguns casarões, contornar as esquinas e atravessar as ruas disputadas por carros e transeuntes, concluí que nada me custava sentar um pouco no banco da praça. Fiz então. Pus a mochila no chão e olhei para o céu por entre a copa das frondosas árvores. Respirei um ar mais puro. Queria apenas fazer isso enquanto descansava e tomar o rumo a passos leves, sem pressa. Não consegui levantar os pés. A energia da praça era muito mais forte que meu entusiasmo para continuar a andança. Olhei o relógio, 17h no horário de verão. Não era cedo, não era tarde...ah, pouco me importava o tempo naquele instante. Só se é cedo ou tarde quando se tem hora marcada pra fazer alguma coisa. Pus-me de pé, girei a 360º e voltei a contemplar o chafariz no centro. Fazia tempo que não observava um chafariz. Fiquei ali olhando por um bom tempo. Não me cansava em ver as flechas d’água atirarem-se contra a lei da gravidade numa briga contínua e interminável. À minha esquerda, notei algumas pessoas conversando sabe-se lá sobre o quê, cujos sotaques lhes eram peculiares. Podiam-se ver vários grupos separando-se em categorias distintas – uma metáfora da sociedade organizada dentro de desordem. Num banco, quatro senhoras de aproximadamente 65 anos pareciam conversar sobre religião; uma tentava provar algo com a Bíblia aberta. Logo depois saíam rumo à catedral. Mais à frente, vi uns senhores jogando dominó. Apenas um mantinha-se de pé com uma mão na cintura e a outra mexendo a alva barba bastante compenetrado, como se tivesse jogando por todos. Alguns xingavam... podia-se notar pelas feições sisudas. Vi também umas crianças de uniformes escolares brincando de bola. Riam felizes. À minha direita, pude contemplar um casal de jovens namorados aos beijos. Curtiam um ao outro sem vulgaridades. Fazia tempo que não contemplava um casal tão harmônico. Eles compunham a fotografia da praça, diríamos ser uma escultura se o rapaz não mexesse tantos as mãos tocando os cabelos da moça. Às vezes, não somos acostumados, na contemporaneidade, a compor a paisagem como personagem romântica, em muitas outras somos espectadores dos feitos e fatos atrelados ao sexo explícito negociado ali mesmo na praça pública, o que não era o caso. Ainda assistia à cena fílmica por trás dos chuviscos do chafariz colorido, quando uma mãe roubou minha atenção ao gritar seu filho, que arriscava passar por entre as grades da fonte. “Saia daí, filho, já te disse que não pode fazer isso”. Fiquei observando o menino de uns 4 anos de idade, e passei a refletir acerca da pureza de um indivíduo e o quanto o tempo é capaz de apagar tamanha virtude à medida que vão crescendo. Naquele instante, eu queria ser criança e atirar-me com roupa e tudo na fonte de águas cristalinas. Que se danem os não-podes! Ironicamente, notei, vindo em minha direção, duas motos. Eram policiais à paisana. Por um segundo, pensei em três possibilidades capazes de os trazer à praça: retirar a criança da grade do chafariz; expulsar o casal que continuava aos beijos e apertos ou prender-me por estar ali sozinho, sentado num banco, numa posição de suspeito, já que mantinha-me na praça por muito tempo. Tocaram suas motos adiante, e nada disseram. Depois disso, eu já não tinha mais ânimo para continuar a contemplar a paisagem que compunha a vida (ou a arte?). Levantei-me, pus a mochila nas costas e fui me afastando da praça. Antes de deixá-la de vez, recebi um punhado de grãos e tive dificuldade de livrar-me dos pombos famintos. Logo notei que foi um senhor quem o fizera, como se tivesse a me dar uma lição: “Alimente os pombos, meu filho, enquanto é cedo; eu já faço isso há muitos anos e ainda não morri”. Mas ele nada me disse. Montei um sorriso quando o mirei nos olhos e partir. A praça da catedral ensinou-me, naquela tarde, que as tintas, a tela e os pincéis estão sempre nos lugares certos, só precisamos deixar de pintar o sete e sair das prisões que nos cercam e nos cegam diante dessa vida efêmera e marcada pelas proibições. Proibições que nos atrapalham a pintar o quadro de nossas vidas a seu tempo e nos roubam a possibilidade de sermos felizes.
jr
Fonte: Foto: http://www.visitesaocarlos.com.br/fotofontecatedral.htm, acesso nesta data.

3 comentários:

Dai disse...

Joce, texto maravilhoso como sempre. Adorei!
Abraços...

Lidi disse...

É verdade, Nilson, às vezes passamos cegos diante de quadros tão lindos! Que bom que você teve a sensibilidade de "contemplar a paisagem que compunha a vida (ou a arte?)". Um grande abraço!

"Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara." (Ensaio sobre a cegueira - José Saramago)

Georgio Rios disse...

Amigo o texto ainda não fiz, talvez fique pro natal que vem!!!Mais fica minha visita de amigo...
Um abraço