sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morre José Saramago, um transgressor entre vírgulas

Conheci José Saramago quando tinha cerca de 18 anos, já tarde para um cara como eu. Também não faz muito tempo assim. O fato é que foi um professor de história que havia me indicado. Foi numa daquelas aulas em que o professor, muito empolgado sobre a história européia contemporânea, a influência da igreja, a hipocrisia social portuguesa, falava da importância da literatura, da arte como discurso transgressor. E eu nem sabia o que era um sujeito transgressor. Perguntei-lhe, e me respondeu: quer saber o que é um transgressor? Leia Saramago!

Li o Memorial do Convento (1982). Confesso que minha maturidade literária fragilizada e a estética do português distinta da encontrada noutras obras me assustaram. Quase nada entendi. Dois anos depois, reli a obra. Um ganho indiscutível. Daí fui mergulhar no Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991). Outra constatação de que eu pouco sabia sobre a vida, sobre a força do catolicismo e seu discurso sobre nós por muitos séculos. Daí, lembrei-me do professor de história. E entendi porque Saramago é um escritor transgressor. Indiscutivelmente o maior transgressor da língua portuguesa, pois não calou suas palavras entre dedilhados toques na máquina, entre uma vírgula e outra, um pensamento e outro, um amor pelas palavras lusófonas.

Agora começo a ler Ensaio sobre a cegueira (2004).

Quando eu estava concluindo a faculdade eu havia criado um blog de cujo domínio acabei com o tempo desgostando. Naquela época, descobri que ele também escrevia o Outros Cadernos de Saramago. Quantas vezes eu acompanhava suas sábias palavras na página!

Hoje, com a notícia da morte do escritor, volto lá, depois de mais de um ano sem visitá-lo, e dou-me de cara com uma lição para os homens deixada por dirigentes da Fundação José Saramago. Eis abaixo seu recado para nós:

xx

Pensar, pensar

“Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.”

(Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008)

jr

4 comentários:

Lua Nova disse...

Admirável post. Sua narrativa é envolvente e intensa, além de ter um caráter de testemunho que a enriquece.
Adorei o post e o blog e vou segui-lo.
Terei muito prazer em recebê-lo no meu espaço para tomarmos um chocolate juntos e falarmos mais sobre esse genial transgressor, lúcido e coerente.
Te desejo um domingo do jeitinho que vc planejou.
Beijos.

Lidi disse...

Terminou de ler "Ensaio sobre a Cegueira", Nilson? O que achou? É um dos meus livros favoritos! Abraços.

Ricardo Thadeu disse...

bom texto, palatus, apareça!

hasta luego

Anônimo disse...

bom comeco