sábado, 7 de julho de 2007

Dumont do Mundo




Dumont do Mundo


Se eu fosse Drummond não teria sido um Drummond,
Não cantaria para este mundo caduco
Também não regaria a Rosa do Povo com o sentimento do mundo
As pétalas não resistem às lagrimas acidas, fúnebres, vulcânicas.

Se eu fosse Drummond seria somente mineiro,
Seria um simples brasileiro dentre os tantos brasileiros
Que em tarde de janeiro jamais vão a Pasárgada
Pra ver a vida passar, pra ver a banda tocar no mar do Leblon.

Se eu fosse Drummond não seria poeta
Teria sido um jogador, um bom ator, um atleta.
E faria gol com as pedras que encontro em meu caminho,
Porque no meu caminho não há somente uma pedra,
Mas um milhão de pedras no meio do meu caminho.

Se eu fosse Drummond não beijaria a América
Não cantaria o amor a América,
Também não lhe daria flores, não cantaria louvores.
Porque América o traiu com Raimundo e o deixou
Vagando no mundo, ouvindo o Corvo a perguntá-lo:
“José para onde, para onde José?”

Ah, se eu fosse o Gandhi Andrade apagaria a tocha de América,
Beijaria a Rosa de Hiroshima, e da outra menina.
Pregaria até nos confins do mundo a paz de Mahatma,
Mas no décimo dia de setembro subiria aos céus de dezembro
Porque na seguinte madrugada Dumont repousaria
As cinzas das gêmeas por sobre o mar de Manhattan.



jr

3 comentários:

RIC disse...

Já cá tinha estado, já tinha lido o poema, mas não tinha ainda encontrado o caminho para um comentário que não fosse o insuportável «Gostei muito... É lindíssimo!»
Não sei ainda se já encontrei esse caminho, mas é uma sentida homenagem a Carlos Drummond de Andrade sob a forma de um desafio aberto que nada deixa em repouso. Não estou na posse de todas as referências contidas no poema, mas compreendo que as mudanças do mundo teriam mudado Drummond também. Ou, pelo menos, ele sentir-se-ia impelido a mudar.
O tom geral intenso, de desafio de de confronto, agrada-me muito!
Parabéns!
Um abraço amigo! :-)

(Acho que em parte, pelo menos, consegui! Poemas nunca são fáceis...)

Palavras e co-lirius disse...

Acertou em chei, caro Ric!
Fiz este poema em 2001, pouco depois do 11 desetembro. Alguma coisa me inquietava, ao mesmo tempo eu lia um livro de Drummond cujo título é "Sentimento do mundo". Daí pensei: se Drummond estivesse aqui hoje, o que acharia disso tudo? O que faria? Comecei a escrever...Sinto que não está por inteiro pronto, é preciso lapidá-lo. O poema - por intertextualidade - dialoga com outros 'discursos': bomba atômica, atentado às torres gêmeas americanas, passifista Mahatma Gandhi, Santos Dumont com a aeronave etc...
Como disse, "poemas nunca são fáceis"!
Obrigado pela rica interpretação!
Um excelente final de semana.
Nilson

RIC disse...

... Não tens de quê, meu caro! É um prazer que nasce do desafio que é sempre tentar uma interpretação! É algo que gosto muito de fazer!
Bom fim-de-semana para ti também!