sábado, 31 de outubro de 2009

Por uma leitura política menos medíocre e generalizada

(Fonte)

É incrível como boa parte de pessoas sem criticidade política ama a arte da generalização, quando não particulariza ao extremo um ponto que deveria ser visto por mais de uma perspectiva. Não pretendo aqui defender nenhuma bandeira sobre política, partidos, eleitores ou outra questão semelhante. Quero apenas falar o quanto o tema da generalização me incomoda e serve para avaliar a postura superficial de muitos brasileiros que, dando uma de conhecedores de política, confundem as coisas. Também não me coloco em lugar de bom conhecedor do assunto nem cientista político, longe de mim, mas, sem querer ser modesto, me ponho no lugar de alguém atento às linguagens utilizadas para dizer alguma coisa quando o assunto se volta à política e aos políticos. Quando me refiro à linguagem, valem fotos, vídeos, textos escritos, falados, sincréticos, charges, matérias jornalísticas, filmes, capas de Veja, outdoors...

Circula, no Youtube, até o momento, um vídeo muito interessante de 2 minutos e 23 segundos sobre o título Vou morar numa propaganda do Governo da Bahia - Jaques Wagner. Trata-se de uma crítica profissionalmente elaborada mostrando as contradições do governador que veiculou, em todo o estado, seus feitos durante seu mandato. Poupo o leitor das descrições de ambos os vídeos e a mim de analisar seus conteúdos.

Penso que o governo deve sim mostrar os resultados de seus projetos; é uma forma de prestar conta da administração pública e cumprir com as propostas dos tempos de candidatura. Penso também que o povo deve, sim, exigir que as diversas ações sejam efetivadas em suas cidades, municípios, ruas, região rural etc. E um vídeo como esse funciona como uma ferramenta eficaz para dizer que os problemas não têm sido resolvidos, que tais ações não têm atingido boa parte da sociedade como lhe é de direito. Que mais vídeos desse circulem, ao menos!

Entretanto, o que não vale é o espectador tomar o vídeo do governo como uma verdadeira mentira e o vídeo do Youtube, por exemplo, como verdade verdadeira. Assim se cai no que chamo de generalização ou no reducionismo. Até porque, em muito do que a linguagem expressa duas ou mais realidades, os embates ideológicos e os confrontos de poderes estão em voga. E, no caso em questão, não é diferente. O problema se dá mais ainda quando o povo começa a enunciar: “Culpa do PT”, “A BANDIDAGEM TOMOU CONTA DA BAHIA”, “QUE TRAGÉDIA DE GOVERNO”, PT fudeu com a Bahia assim como ta fudendo Fortaleza”, “esse é o BraZil do PT”, “PT nunca mais”, “Quem manda votar no PT”, “O pessoal do PT costuma ler Marx demais. Assim fica mais fácil alienar o povo”, como estas retiradas dos comentários no site.

Gente!, o problema não está no PT, afinal de contas se puséssemos todos os projetos idealizados pelos partidos, se lêssemos todos os documentos que os regem, o Brasil seria perfeito. Seria preciso até fazer uma espécie de vestibular para os estrangeiros entrarem aqui, porque todos iriam querer vir para cá. Acho até que seria preciso fazer uma Muralha para o Brasil. Seria o céu; o inferno seria o Iraque, os EUA, o Afeganistão, a França, a Coreia, por exemplo. Mas não é o caso. O problema está no próprio povo brasileiro (com suas ressalvas), pois não consigo pensar em povo brasileiro sem pensar em políticos e eleitores, sem partidos e sem propostas, sem corrupção e sem políticos honestos e com boas intenções. - Não nos esqueçamos que político também é povo brasileiro. - Mas, como se diz que de boas intenções o inferno anda cheio, talvez seja por isso que muitos de nós não acreditam mais no governo e esquecem-se das mazelas do governo anterior e brevemente em quem votou.

Não vou defender político A ou B e muito menos o governador Jaques Wagner, que precisa provar ser melhor do que o grupo carlista, imperador por décadas no estado baiano, e deixou seu vírus com o DEM(o). Alguém esqueceu que muitos vídeos mostrando uma Bahia virtuosa, senão um paraíso, já eram mostrados no governo de César Borges, de “a-acm salvadooooooooor, a-acm meu amooooor”, Paulo Solto (não necessariamente nessa ordem)? O fato é que os três governadores anteriores a Wagner - nem falo dos outros porque eu ainda era muito criança –, tal como o próprio, construíram sim alguma coisa, deixaram de levar aos baianos outras centenas de ações, mostraram vídeos embelezados por uma retórica pró-voto e fincaram o Estado a tantos anos de atraso e lentidão. A prova disso se vê com o metrô de Salvador.

Por outro lado, quando se atribui a culpa generalizada ao PT, se esquecem que o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB) - que não é PT – mostrou uma “cidade maravilhosa” para a candidatura da capital carioca nas Olimpíadas de 2016 e escondeu uma cidade da violência capaz de abaterem helicóptero militar, por exemplo; esquecem-se que José Serra do PSDB (que não é PT) governa o estado mais rico do país, mostrando uma SP perfeita, mas não conseguiu reduzir os problemas na área de saúde e segurança, diminuir o crime provocado pelos menores com a Fundação Casa/FEBEM, melhorar a qualidade do ensino e reduzir a violência na escola, combater o tráfico - ao contrário do que seus vídeos mostram.

De 27 cadeiras de governador no país (incluída a do DF), apenas 5 (Acre, Bahia, Pará, Piauí e Sergipe) têm representante do PT, contra 9 do PMDB, sem citar outros partidos. Pergunto: em qual(ais) destes estados podem ser veiculados vídeos capazes de representar a realidade da administração do governo sem que se possa notar as mazelas ocultadas por eles? Nenhuma, certamente. O que não vale é atribuir ao partido X nem a Y a culpa de uma administração mal qualificada – por exemplo, aquela vista na BA ou no Rio – quando na verdade o descaso parte do grupo político que governa o estado. Se fosse apenas uma questão de partido, o que poderíamos dizer do governo Lula que passou por fortes abalos, crises e escândalos (mensalão, correios, cuecas etc.) perdendo, nestes dois mandatos, quase todos os ministros escolhidos “sabiamente” a quase-dedo? Há quem não admita que o Brasil nunca teve um presidente como este nordestino. No entanto, diante de tantos problemas que não nos carece enumerá-los, qual anterior pode levar políticas para atender a populações desprovidas de ações mínimas em grande números de pessoas? Quem criou antes um projeto de ampliação e implantação de universidades federais e escolas técnicas pelo país oferecendo mais oportunidade e inclusão de jovens? Quantos brasileiros estão com nível superior ou obtendo? Obviamente quantidade não é mesmo qualidade, mas, levando em conta a “boa vontade” da qual falei antes “enchendo ou não o inferno”, percebe-se que o problema não está no partido, mas na conjuntura política do país e de suas unidades federativas, cujos eleitores reclamam, criticam, esquecem, comparam, abominam, julgam, particularizam demais, generalizam sem refletir e acabam esquecendo-se - também – de três pontos importantes: a) são eleitores e responsáveis por levar candidatos ao poder como Wagner, Aécio, Maluf, Cabral, Yeda Crusius, Serra etc.; b) são passíveis de serem candidatos como qualquer cidadão que goze de direitos eleitorais; c) têm o voto como ferramenta de poder para mudar a realidade.

Uma coisa é certa: enquanto continuaremos não vendo o voto como importante mecanismo de poder, que só funciona coletivamente para mudar a realidade política do Brasil, eles vão continuar usando a linguagem - seja ela em forma de vídeos ou em outra materialidade - como um importantíssimo mecanismo de poder que, silenciosamente, vai apagando memórias e construindo outras, quando, de fato, o objetivo é continuar nos enganando. Atentemo-nos para isso e evitemos, pois, as reduções de leituras políticas ou as generalizações sem fundamentos, porque é isso que muitos querem: que continuemos medíocres por toda a vida.

10 comentários:

Marcelo Mayer disse...

exato! perfeito! lembrança política é algo que falta aqui no brasil.

!Theo disse...

Volta sempre, Palatus!
Abração! Deus te abençoe!

Palatus disse...

Oi Marcelo.
Pois é , pois é, pois é....
Esse Brasil tem jeito?

Palatus disse...

Obrigado, Theooooo!

Casa disse...

Palatus,

eu voto nulo.

Para mim é uma questão matemática simplíssima: uma campanha eleitoral custa mais caro que a soma de todo o salário que o eleito irá receber ao longo do mandato. Alguém financiou essa campanha, e não fui eu (diretamente). Tem que se pagar o financiamente. Logo, não irão governar por mim.

Independente dessa minha posição política pessoal, parabéns por lutar por uma política menos medíocre e generalizada.

A, voltei a postar...

geisa disse...

voilà,
Discurso político, hum...muito boaaaaa essa Joh!!!Ou melhor, meu! hahahah
Adorei, qndo li, me deu um gás p escrever um capítulo da minha mono....rs...c´est vrai!
p.s.: continue produzindo!!!

Gildeone dos Santos Oliveira disse...

Boa leitura do contexto político brasileiro. Mas, tendenciosa.
Afinal "linguagem é poder".

Palatus disse...

Oi amigona Geu...saudade. Sinto muito sua falta. Mas em breve "oi eu aí"...bjo

Palatus disse...

Casa,
valeu...concordo com sua posição. Não voto nulo em todos, só em alguns!

Tenho meus motivos!

Palatus disse...

Gildeone,
Sei que é tendenciosa...qual a linguagem que não revela a ideologia? Ideologia, "eu quis uma pra viver"...e e vivo querendo uma boa!
Abraço, volte sempre.