segunda-feira, 11 de junho de 2007

Conto: Projeto de vida

Por Jocenilson Ribeiro
Ela cruzou o calçadão numa rapidez implacável e seguiu rumo à escadaria da Matriz. Estava atrasada mais uma vez. A professora de piano odiava quando tinha que repetir as informações do início da aula para os alunos retardatários. Por que suas aulas tinham que terminar tão tarde?

Outro dia, depois da aula de conversação em inglês, ela teve a sensação de que estava sendo seguida quando resolveu passar na casa da professora de piano. Mas, só teve mesmo a sensação. Ainda era cedo. As beatas desciam as escadarias da Matriz, com seus passos pensados, pesados.

“Sagrado Coração de Jesus, como é bela a juventude!” — disse uma delas ao vê-la subindo as escadarias às pressas.

Corria. Não porque estava atrasada, mas porque precisava intensificar o ritmo dos ensaios. Faltavam-lhe pouco mais de dois meses para tocar no exterior. Era um sonho: Itália, Roma.

“Filha, vê se não chega tarde hoje, essa professora de piano está te escravizando. Olha o estado destes dedos!”.

“Eu quero muito tocar, vó; quero viver disso, esse é o meu projeto de vida. Quando conhecer meu pai, quero que ele orgulhe-se de mim”.

“Já te disse que teu pai não valia nada. Nunca quis saber de tua existência”.

“Será mesmo, vó?” — perguntava batendo a porta e levando consigo a saliva seca que lhe travava a garganta. Não chorava mais, também havia tempo que não sorria, a menos que a professora de piano a elogiasse uma vez ou outra.

Queria muito que seu pai tivesse no concerto em Roma. Mas não tinha pai. Ou tinha?

“Teu avô é o teu pai”, dizia a avó. “Ele é que paga as contas, paga o colégio, a aula de piano, o curso de inglês... coloca pão na mesa”.

“...!”

“Teu avô é aposentado pela Marinha, ganha bem” — concluía a avó diplomaticamente.

E ela, quando se sentia disposta a responder, gritava: “Não é dinheiro que procuro, vó”.

Doze anos e um talento digital inquestionável. Tocava Mozart, Beethoven, Villa-Lobos... Este último parecia-lhe soprar os cabelos, quando ela viajava em suas sinfonias. Uma menina vestida de mulher. Uma mulher que vislumbrava uma jovialidade ainda um tanto infantil. Uma mulher que inconscientemente despertava os sentidos dos ragazzi, e dos marmanjos que não mais a viam como uma criança.

Agora, mais do que a sensação de ser seguida, ela tinha a certeza de estar sendo olhada, vigiada, despida, tocada por aranhas peludas, unhas de gaviões, dentes de pit bulls.

Quantas subidas e descidas por aquelas escadarias da Matriz. Quantas idas e vindas por cujos caminhos seu projeto de vida era traçado. A mãe, ela já não esperava. Sabia que a morte lhe tinha levado a vida na noite do parto. E o pai, sua maior tristeza, quem seria? Por onde andava?

O concerto estava próximo. O passaporte, a autorização do juizado, as passagens. A da professora de piano e a sua. O pai não iria, não tinha pai para ir. Queria vencer, orgulhar-se, mesmo que para isso lhe custasse o sangue que corria por entre os dedos.

A véspera da viagem, o último ensaio no Brasil. A volta para casa naquela noite, o cansaço, os dedos enrijecidos, as escadarias molhadas. O céu tocando a cruz no alto da Matriz, agora menos iluminado. O rio Una cortando a cidade com sua monotonia e os barcos encalhados lá ao longe.

O vento frio vindo do calçadão, e uma voz rouca metralhando seu tímpano como um piano desafinado que ingere o silêncio das ruas:

“Pare!”.

“Por favor”, disse a menina arriscando um grito.

“Grite e verá esse corpo rolar pelas escadas”

“Sou apenas uma menina, me solte, por favor!”, falou chorando.

“Uma boa menina não morre numa escadaria, não é mesmo?”, disse imobilizando-a.

Tentou escapar, atitude em vão. A barba grisalha ferindo o pescoço da menina, que sentia a boca sufocada por mãos–aranhas; sentia os pequenos seios rasgados por unhas de gaviões; via as roupas devoradas por dentes de pit bulls. Seu corpo puro, virgem. Sentia-o pressionado por aquela massa corpórea enorme e asquerosa, no patamar molhado, sujo, fétido. Seu sexo já não era sexo, mas sangue que se misturava na água da chuva.

As luzes lá embaixo no pé da escadaria quase se apagando, quase se acendendo, apagando, acendendo, acendendo... e o branco hospitalar — sem voz de piano — quinze dias depois do concerto de Roma.

O projeto de vida? Ah!... foi levado por aquele homem, cujo cadáver amanhecera pendurado na grade da Igreja Matriz.

Um comentário:

Petro disse...

Caro Jocenilson, não pude ler muitos dos seus textos, mas dos três primeiros que li, fiquei perplexo com esta estória (ou história?). Incrível! Isso não foi verdade, né? Confesso que não me desgrudei da narrativa até que chegou ao fim. Parabéns! Tem habilidade considerável com a palavra.